E se eu te dissesse que um carneiro recuou alguns passos não porque estava com medo, mas porque estava sendo educado. E que ninguém ali, num pátio cheio de gente esperta, entendeu o que aquele animal estava fazendo. Tem um menino nesse conto que olha pra mesma cena que todo mundo olhou e enxerga uma coisa que os adultos não conseguiram enxergar. Deixa eu te contar. Esse é um dos játacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, ainda estava no longo caminho de se tornar Buda vida após vida, e nascia hora como gente, hora como bicho, sempre carregando uma virtude que ia se afiando.
Nesta história, ele nasce como uma criança de uns 7 anos de idade, e a virtude que ele carrega é uma das mais discretas que existem. A sabedoria que vem de prestar atenção de verdade, em vez de só achar que já sabe. A história começa num reino antigo, num pátio de palácio, num daqueles dias mornos em que a corte se reúne para resolver as coisas do reino. O rei tinha lá os seus conselheiros, os seus brâmanes, os seus homens de barba branca e testa franzida, gente que vivia de dizer que sabia. E, naquele dia, alguém soltou no pátio um carneiro, um daqueles carneiros grandes de chifres curvos, pra entreter ou pra testar, ou só porque a vida da corte é cheia desses imprevistos, e aconteceu uma coisa esquisita.
Tinha um homem ali, um servo distraído, costas voltadas pro animal, segurando um feixe de capim, sei lá, cuidando das suas coisas. O carneiro, vendo aquelas costas viradas, fez o que carneiro faz, deu um passo atrás, recuou, abaixou a cabeça, juntou força e se preparou pra avançar e dar amarrada. Quem estava olhando de longe, e olhava sem olhar de verdade, sorriu. Que carneiro educado, disse um dos sábios da corte, com toda a convicção do mundo. Repara, Pokens, ele recuou diante do homem, está mostrando respeito, está se curvando, como quem cede passagem a alguém mais importante, e os outros conselheiros balançaram a cabeça concordando, sim, sim, que animal gentil, que reverência bonita, já estavam quase tirando dali uma lição moral sobre humildade.
Foi quando o menino, que estava por perto, soltou uma risadinha, não de deboche, mas daquela risada que escapa quando a gente vê uma coisa óbvia que ninguém mais viu, o rei reparou. Por que você ri, menino? O que há de engraçado em um animal que aprende a se curvar, e o menino, sem nenhuma arrogância, com a simplicidade de quem só está descrevendo o que enxerga, disse mais ou menos assim. Majestade, com todo o respeito aos sábios, esse carneiro não está recuando por reverência, esse carneiro está recuando pra ganhar impulso, ele não está cedendo passagem, ele está medindo a distância pra acertar uma amarrada com toda a força.
O que parece humildade é, na verdade, o começo de um ataque. O pátio ficou em silêncio, os conselheiros, aqueles que tinham acabado de elogiar a gentileza do bicho, abriram a boca pra protestar. E naquele exato instante, o carneiro lançou-se pra frente, contudo, e acertou o homem distraído nas costas, derrubando-o no chão, exatamente como o menino tinha dito. Exatamente, o rei olhou pro animal, olhou pro homem caído, e olhou pro menino, e ali, naquele pátio, ele entendeu uma coisa que vale mais do que qualquer tesouro, que os anos de barba branca não garantem visão, e que uma criança que olha de verdade enxerga mais longe do que um sábio que só repete o que espera ver.
Dizem que, dali em diante, o rei passou a ouvir aquele menino, e que o menino, ao crescer, viveu enigma atrás de enigma, sempre da mesma maneira, não inventando explicações bonitas, mas olhando para o que estava realmente acontecendo, sem o véu daquilo que a gente prefere acreditar. Esse menino era o Bodhisatta, o futuro Buda, agora repara no que esse conto está dizendo. A armadilha dos sábios da corte não foi falta de inteligência, eles eram inteligentes, eram cultos. A armadilha foi outra, eles viram o gesto do carneiro, e logo grudaram nele um significado bonito, confortável, que combinava com o que eles queriam que o mundo fosse, recuar, para eles, só podia ser reverência, porque é assim que gente educada recua.
Eles projetaram a própria moral em cima de um animal que estava só calculando uma pancada, e a gente faz isso o tempo todo, hoje, sem perceber. A gente vê um título, e acha que leu a notícia, vê uma legenda de três linhas, e acha que entendeu a pessoa inteira. Ver alguém recuar e decide na hora se é humildade ou fraqueza, sem esperar para ver o segundo movimento. A nossa época é viciada em interpretar rápido. A gente passa o dedo na tela, dá um veredito e meio segundo e segue em frente, convencido de quem enxergou, mas, muitas vezes, a gente não olhou para a realidade. A gente olhou para a própria expectativa refletida nela, como quem confunde o próprio reflexo na água com algo que está no fundo do rio.
O budismo tem uma palavra carinhosa para esse olhar limpo. É uma forma de pana, de sabedoria, mas que nasce de uma coisa anterior. Dá atenção plena, de ver as coisas como elas são, e não como a gente gostaria que fossem. O menino não era mais inteligente que os velhos. Ele só estava menos apressado para concluir. Ele deixou o carneiro terminar o gesto antes de dar nome ao gesto. Aqui vai uma coisa para hoje. Pensa numa situação dessa semana em que você bateu o olho e já decidiu o que era. O tom de uma mensagem, a intenção de alguém, o motivo de um gesto. Hoje, escolhe uma dessas leituras rápidas e faz como menino.
Segura o veredito por um instante e pergunta a si mesmo, com honestidade. Será que isso é mesmo o que parece, ou é o que eu já esperava ver? Espera o segundo movimento antes de dar nome ao primeiro. Às vezes o carneiro está se curvando, mas às vezes ele só está tomando impulso. E saber a diferença sem pressa é o começo de toda sabedoria.