O príncipe Paduma caluniado pela madrasta

Budismo · Temporada 20 · Episódio 9 de 10 — em ordem cronológica

Você é o filho mais amado de um rei, mas em um único dia, é condenado à morte e jogado de um penhasco por uma mentira. Como se manter de pé por dentro, quando o mundo inteiro acredita na pior versão de você?

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Transcrição

Imagina que você é o filho mais querido de um reino inteiro. As pessoas te amam, te respeitam, sonham com o dia em que você vai ser rei. E aí, num único dia sem ter feito nada, você é arrastado pra fora do palácio, condenado à morte e jogado de um penhasco, tudo por causa de uma mentira. Como é que um homem fica de pé por dentro quando o mundo inteiro acredita na pior versão dele? Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda e tava vida após vida polindo o coração até ele ficar limpo. Às vezes ele aparece como um animal, às vezes como um rei, às vezes como uma criança.

Nesse aqui, ele é um príncipe chamado Paduma. Paduma quer dizer lotus, a flor que nasce na lama e sobe limpa pra superfície. Guarda esse nome porque ele vai fazer todo o sentido no fim. O rei de Benares tinha uma esposa que lhe deu um filho, e esse filho era o Bodhisatta, o futuro Buda, chamaram ele de Paduma, o príncipe lotus. Era uma criança e depois um rapaz de uma bondade que chamava atenção, onde ele passava, sobrava gentileza, falava com os criados como falava com os nobres. Tinha aquela qualidade rara de fazer cada pessoa se sentir vista, o rei no inteiro respirava aliviado de saber que um dia ele subiria ao trono.

Aí a mãe de Paduma morreu. E o rei, com o tempo casou de novo, a nova rainha entrou no palácio, e Paduma, já um jovem homem, atratou com todo respeito como se trata uma mãe, reverência, cuidado, atenção, tudo certo, por fora. Um dia o rei teve que sair pra sufocar uma revolta numa fronteira distante. Ia demorar. E ele pensou, minha jovem esposa não aguenta a dureza de um acampamento de guerra, vou deixar ela no palácio, em segurança. Mas antes de partir, chamou Paduma e disse, filho, cuida da rainha enquanto eu estiver fora. Eu estava como cuidarias de mim, e partiu para a batalha.

A guerra terminou, o rei venceu e mandou um mensageiro avisar. Estou voltando, preparem a cidade para me receber. Paduma, o bom filho, foi ele mesmo aos aposentos da rainha avisar a boa notícia e cuidar dos preparativos para a recepção do pai. E é aqui que o conto vira, porque a rainha, ao ficar a sós com aquele jovem bonito, de coração aberto, deixou crescer dentro dela um desejo. Olhou para Paduma e quis ele para si, e disse sem rodeios, que se entregasse a ela ali, naquele momento. Paduma sentiu o chão sumir. Ele estremeceu e falou, com firmeza mas sem ofensa, senhora, você é como uma mãe para mim, meu pai te confiou ao meu cuidado, eu jamais faria isso, isso é silla, é a virtude de não cruzar certas linhas mesmo quando ninguém está olhando, mesmo quando você poderia.

E ele recusou, com respeito mas recusou inteiro. Agora repara no que acontece com um desejo que é recusado. Ele azeda, vira veneno, a rainha, humilhada, com medo de que ele contasse ao rei, fez o cálculo frio de quem foi rejeitado, se eu não posso tê-lo, então ninguém o terá, e melhor que ele caia antes que eu caia. Ela arranhou o próprio corpo com as unhas, rasgou as roupas, se jogou na cama e fingiu estar doente, machucada, violada. O rei chegou triunfante, procurou pela esposa para comemorar a vitória, e a encontraram naquele estado, ele correu, perguntou o que tinha acontecido, e ela, com lágrimas verdadeiras de raiva fingindo ser lágrimas de dor, apontou para o único nome que destruiria tudo, foi seu filho, foi Paduma, ele me atacou quando você não estava, o rei nem perguntou, nem chamou Paduma para ouvir o outro lado.

A fúria foi mais rápida que a justiça, ele ordenou, prendam o príncipe e o joguem do penhasco dos ladrões, aquele abismo onde se atiravam os piores criminosos, e aqui o conto faz uma coisa linda. O reino inteiro entrou em luto, as mulheres choravam nas ruas, os homens se ajoelhavam diante do rei, Senhor, esse é o príncipe Paduma, o bondoso, o lotus, não pode ser, deve haver um engano, mas o rei, cego de raiva e de orgulho ferido, não voltou atrás. E o mais impressionante, Paduma não se defendeu com gritos, não amaldiçoou a madrasta, não suplicou, ele aceitou o caminho até o penhasco com uma serenidade que assustava, por dentro, ele sabia a verdade, e essa verdade era o único chão firme que ele tinha, a calúnia podia tomar a vida dele, mas não podia tomar a inocência dele, levaram Paduma ao alto do penhasco e o lançaram no abismo, e o conto diz que a própria montanha, a divindade que habitava aquele lugar, não permitiu que um inocente assim morresse.

As forças invisíveis ampararam a queda e o pousaram suave no fundo, sobre as espirais de uma grande serpente que vivia ali, a serpente o levou ao seu mundo, o cuidou, e depois Paduma escolheu não voltar para o palácio, foi viver nas montanhas, como uma seta, em paz, longe da corte que tinha acreditado tão fácil na pior versão dele, tempos depois o rei, caçando na floresta, encontrou aquele eremita sereno e o reconheceu, o coração dele despedaçou de vergonha, ele entendeu, tarde, que tinha condenado o próprio filho com base na palavra de uma só pessoa, sem nunca ter ouvido a outra, quis devolver o trono, mas Paduma já tinha encontrado uma riqueza que nenhum trono dá, e deixou ao pai apenas um ensinamento sobre como um rei deve julgar, nunca pela fala de um lado só.

Agora repara no que esse conto está dizendo pra gente, aqui hoje, a gente vive na era do julgamento instantâneo, lê uma frase, vê um vídeo cortado, recebe um print de uma conversa, e em três isso já decidiu quem é o vilão da história, já condenou, já jogou a pessoa do penhasco, do nosso jeito moderno, com um comentário, um compartilhamento, um deixar de seguir, a gente virou o rei furioso, que ouve só um lado e não chama o acusado para falar. E quase nunca a gente para para pensar que, do outro lado daquela acusação, pode ter um Paduma, alguém inocente que não vai ter chance de se explicar antes da queda.

E tem a outra metade, que é a coragem mais silenciosa do conto, o que se passa dentro de quem é caloniado. Paduma não gastou energia tentando provar pra todo mundo que era inocente, ele se segurou na verdade que ele mesmo conhecia, numa época em que a gente sente uma necessidade desesperada de limpar nossa imagem, de responder cada crítica, de não deixar barato nenhuma injustiça, se príncipe nos lembra de uma paz mais funda, a sua consciência limpa não depende do aplauso de ninguém. Aqui vai uma coisa pra hoje. Da próxima vez que chegar até você uma história pronta sobre alguém, uma acusação, uma fofoca, um print, qualquer versão que já vem com vilão e mocinho definidos, segura o impulso de condenar.

Antes de jogar a pessoa do penhasco, faz a pergunta que o rei esqueceu de fazer, eu ouvi o outro lado, e se um dia for você o acusado injustamente, lembra do Lotus, você não precisa convencer a lama, você só precisa continuar subindo limpo em direção à luz.