Alguém te sorri, te elogia, concorda com tudo o que você diz e mesmo assim, lá no fundo, você sente um arrepio e alguém te contraria, te diz a verdade que dói e ainda assim você confia. Como é que a gente sabe de verdade quem é amigo e quem é inimigo? Esse conto foi feito para responder exatamente isso e a resposta não está no sorriso de ninguém. Deixa eu te contar. Esse é um dos de atacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, ainda estava no longo caminho de se tornar Buda e nascia uma vida atrás da outra, às vezes como bicho, às vezes como gente, sempre aprendendo, sempre puxando a humanidade um pouquinho para cima.
Nessa vida aqui, ele nasceu como um conselheiro sábio, daqueles que ficavam ao lado do rei e ajudavam a enxergar o que os outros não enxergavam. Conta a história que havia um rei, lá em Benares, governando uma cidade grande e cheia de gente, e todo rei, você imagina, vive cercado, cercado de ministros, de generais, de comerciantes ricos, de parentes, de gente que aparece de manhã com presentes e gente que aparece de tarde com pedidos. E o problema do rei não era falta de companhia, o problema do rei era outro, mais difícil, no meio de tanta gente sorrindo para ele, ele não conseguia saber quem realmente queria o seu bem e quem só queria o trono, o ouro ou um favor.
Um dia, esse rei chamou o seu conselheiro, o futuro Buda, e abriu o coração, disse mais ou menos assim, "Olha, eu estou rodeado de pessoas o tempo todo, todas me tratam bem, todas me chamam de grande rei, todas elogiam minhas decisões, mas eu não durmo direito, porque eu sinto que entre essas pessoas tem inimigo disfarçado de amigo, e eu não sei distinguir um do outro, me ensina. Como é que eu reconheço o falso amigo? Como é que eu reconheço o verdadeiro, e o conselheiro, em vez de apontar o dedo para fulano ou para cicrano, fez uma coisa muito mais útil? Ele deu ao rei sinais, marcas, coisas para reparar no comportamento das pessoas, não nas palavras delas, porque palavra, qualquer um fala, sorriso, qualquer um dá, o que entrega o coração de alguém é o jeito, é o detalhe pequeno, é o que a pessoa faz quando acha que ninguém está medindo, repara no inimigo disfarçado, disse o sábio, o falso amigo não te olha nos olhos, quando você chega, ele desvia o olhar, e quando você não está olhando, ele te encara de um jeito estranho, ele não sorri de verdade quando você sorri, o sorriso dele chega atrasado, forçado, como quem cumpre tabela.
Se você fala de alguém que te fez bem, ele muda de assunto, se você fala de alguém que te fez mal, ele se anima, fica interessado, quer detalhes, ele esconde os seus segredos dos outros, mas espalha os seus erros, ele te elogia na sua frente e te diminui pelas costas, e no fundo de tudo, o falso amigo não se alegra com a sua alegria e não se entristece com a sua tristeza, pelo contrário, quando uma coisa boa te acontece, repara, ele fica meio murcho, e quando uma coisa ruim te acontece, tem um brilho nos olhos dele que ele não consegue esconder, o rei ouvia e ia reconhecendo rostos, a gente sempre reconhece quando alguém descreve com clareza, e o amigo verdadeiro perguntou o rei, ah, o amigo verdadeiro é o contrário, ponto por ponto, disse o futuro Buda, o amigo verdadeiro te recebe com o rosto aberto, ele lembra de você quando você não está, ele te apresenta as pessoas boas que ele conhece, porque quero seu crescimento, não tem medo de te ver subir, ele guarda o seu segredo como se fosse dele, e nunca espalha a sua falha, quando você sofre, ele não te abandona, e mais ainda, ele não te abandonaria nem se isso custasse caro pra ele, ele se alegra de verdade com a sua alegria, sem aquele gostinho amargo, e o mais importante de todos os sinais, quando chegar desgraça, quando você está por baixo, o amigo verdadeiro não te solta, é na sua pior hora, e não na sua melhor, que você descobre quem é amigo de fato, e o conselheiro fechou com uma frase que o rei nunca mais esqueceu, grande rei, não julgue ninguém pelas palavras doces, julgue pelo comportamento ao longo do tempo, o ouro a gente conhece passando no fogo, o amigo a gente conhece passando na dificuldade, o rei agradeceu, governou com mais discernimento, e dizem que dormiu melhor a partir daquele dia, não porque ficou desconfiado de todo mundo, repara bem, mas porque parou de se enganar, agora, repara no que esse conto está dizendo pra gente, aqui, hoje, a gente vive num tempo em que o sorriso virou moeda fácil, a curtida, o coraçãozinho, o comentário animado embaixo da foto, o te amo digitado em três acés, nunca foi tão barato parecer amigo, e justamente por isso, nunca foi tão difícil saber quem é, a gente coleciona contatos, seguidores, conhecidos, e no dia em que a vida aperta de verdade, descobre que metade daquela multidão simpática some, o budismo não pede pra gente ficar paranoico nem amargurado com isso, ele pede outra coisa, a tensão, a virtude aqui é o discernimento, a sabedoria de ver as pessoas como elas são, e não como elas se apresentam, e tem um si lado, mais incômodo, que esse conto cutuca de leve, enquanto você está checando se os outros são amigos verdadeiros, vale a pergunta de volta, você se alegra de verdade com a vitória dos seus amigos, ou também tem um gostinho amargo quando alguém perto de você se dá bem, porque o conto descreve o falso amigo, mas também descreve, sem dó, uma tentação que mora dentro de cada um de nós, aqui vai uma coisa pra hoje, escolhe uma pessoa que você considera próxima e faz, em silêncio, sem julgar de cara, o teste do conto, lembra da última vez que algo muito bom aconteceu pra você, como essa pessoa reagiu, ela se alegrou junto, de coração aberto, ou esfriou, e agora vira o espelho, na última vez que algo muito bom aconteceu pra essa pessoa, como você reagiu, a amizade verdadeira, dos dois lados, se mede no momento da alegria do outro e no momento da queda do outro, repara nesses dois momentos, nos seus e nos dela, é ali, e não no sorriso fácil, que mora a verdade.