Como criar uma prática regular

Budismo · Temporada 3 · Episódio 8 de 10 — em ordem cronológica

Você já tentou meditar e desistiu? O problema não foi você, foi o jeito que te ensinaram.

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Transcrição

Deixa eu adivinhar uma coisa sobre você. Em algum momento da vida, você já decidiu que ia meditar todo dia. Você ficou animado, escolheu um horário, talvez baixou um aplicativo, meditou no primeiro dia, no segundo, e aí, no terceiro ou no quarto, a vida atravessou e você nunca mais voltou. Se isso já aconteceu com você, eu tenho uma boa notícia. O problema não foi você, foi o jeito que você tentou. Hoje a gente vai falar de como criar uma prática que dura. E a chave é o contrário do que quase todo mundo pensa. Deixa eu te contar. A maior parte das pessoas começa a meditar com muita força.

Decide que vai sentar 30 min por dia, de manhã cedo, todo dia, sem falta. É bonito, é inspirador, e é exatamente por isso que falha. Porque 30 min é muito para quem nunca meditou. É como decidir que vai correr 10 quilômetros no primeiro dia de quem nunca correu. Você consegue uma vez na adrenalina, mas no terceiro dia o corpo dói, a mente resiste, e você desiste achando que não nasceu para aquilo. O budismo, que pratica isso há 2.500 anos, entende uma coisa que a gente esquece. A meditação não é sobre intensidade, é sobre repetição. Não importa o quão fundo você vai num dia, importa quantas vezes você volta.

E aqui está a primeira lei de uma prática que dura. É melhor 5 min todo dia do que 1 a de uma vez por mês. Pensa nisso por um instante. 5 minutos parece pouco demais para fazer diferença. Mas 5 min por dia, durante 1 ano, são mais de 30 ades de treino da sua mente. E o mais importante, você criou um hábito. A hora longa que você faz uma vez e abandona vale zero. Porque não vira parte de quem você é. Então a primeira coisa que eu quero te dizer é. Comece ridiculamente pequeno. Tão pequeno que pareça quase bobo. 5 minutos, ou até 2. O objetivo no começo nem é meditar bem. É só não faltar.

É provar para você mesmo que você é o tipo de pessoa que medita. A segunda coisa é onde a maioria erra. O gatilho, a nossa mente não cria hábitos do nada. Ela cria hábitos amarrados a outras coisas. Você escova os dentes não porque lembra. Você escova porque acordou. O acordar puxa o escovar. Eles estão grudados. Então não diga vou meditar em algum momento do dia. Esse momento nunca chega porque ele não está preso em nada. Em vez disso gruda a meditação numa coisa que você já faz sem falhar. Logo depois que eu escovar os dentes de manhã eu sento. Assim que eu chegar do trabalho antes de pegar o celular eu sento.

Depois do café eu sento. Você não está adicionando uma tarefa nova na sua vida. Você está pendurando a meditação numa tarefa que já existe. Isso muda tudo. A terceira coisa é o lugar. Tenha um cantinho. Não precisa ser nada especial. Uma cadeira específica. Um canto do sofá. Uma almofada no chão do quarto. Mas que seja sempre o mesmo. Porque a mente associa lugar com estado. Depois de um tempo, só de sentar ali, o corpo já começa a desacelerar sozinho. O lugar vira um aviso para a mente. Agora é a hora de quietar. E agora a quarta coisa. Que é talvez a mais importante de todas.

E quase ninguém fala disso. Você vai falhar, vai ter o dia que você esquece. O dia que está doente, ou viajando, ou que a vida virou de cabeça para baixo. E quando isso acontecer, vai surgir um pensamento traiçoeiro na sua cabeça. Ah, já quebrei a sequência. Então tanto faz. E é esse pensamento, não a falha em si, que mata a prática. A falha de um dia não é o problema. O problema é a história que você conta sobre ela. Os monjes têm uma regra simples e poderosa para isso. Nunca falte dois dias seguidos. Faltou um dia? Tudo bem, acontece. Mas no dia seguinte você volta, sem drama, sem culpa, sem precisar recomeçar do zero.

Você só senta de novo. Porque uma prática regular não é uma corrente perfeita que se quebra com um elo faltando. É um caminho. E quando você sai dele, você não precisa voltar lá para o começo. Você só dá o próximo passo de onde você parou. E tem uma última coisa que eu quero te dar. A mais libertadora de todas, largue a ideia de uma boa meditação. Tem dia que você senta e a mente está calma, espaçosa, bonita. E tem dia que você senta e ela é um turbilhão, pensando em mil coisas, e os cinco mim parecem uma luta. E você se levanta achando que falhou, mas você não falhou.

O dia do turbilhão, em que você sentou mesmo sem vontade e mesmo com a mente agitada, esse dia te fortaleceu mais do que o dia fácil. Porque você apareceu, você cumpriu o compromisso quando era difícil, e é isso e só isso que constrói uma prática aparecer, especialmente nos dias em que você não quer. Aqui vai uma coisa para hoje. Decide agora, antes de terminar de me ouvir, três coisas. Uma, um tempo ridiculamente pequeno, cinco minutos. Duas, um gatilho, uma coisa que você já faz todo dia e que a meditação vai vir logo depois, depois de escovar os dentes, depois do café, três, um lugar, sempre o mesmo, e pronto.

Você não precisa de mais nada, não precisa de motivação, não precisa de força de vontade, não precisa esperar o momento perfeito, porque a prática regular não nasce de um grande gesto. Ela nasce de um gesto minúsculo, repetido com teimosia carinhosa, dia após dia. Você não constrói a mente serena num dia. você constrói ela em cinco min, mil vezes.