Os cinco preceitos no dia a dia

Budismo · Temporada 3 · Episódio 7 de 10 — em ordem cronológica

Você pode meditar por horas, mas sua paz nunca vai durar. Existe um 'cabrito' solto na sua mente, devorando tudo que você tenta plantar.

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Transcrição

Imagina que você quer plantar um jardim. Você prepara a terra, planta as sementes, rega todo dia. Mas tem um cabrito solto que entra à noite e come tudo. Não adianta plantar mais. Não adianta regar mais. Enquanto o cabrito estiver solto, nada vai crescer. A meditação é o plantio. Mas o budismo sempre soube que, antes de plantar, você precisa de uma cerca. E essa cerca tem um nome. São os cinco preceitos. E hoje eu quero te mostrar que eles não são regras de religião. São a cerca que protege a sua paz. Deixa eu te contar. No budismo não existe um Deus que dá ordens e castiga a quem desobedece.

Os preceitos não são mandamentos. Não é alguém te dizendo faça isso se não você vai pro inferno. É outra coisa. É um convite. Na verdade, a frase tradicional que a pessoa repete não é eu sou obrigado a. É eu me comprometo a treinar. São cinco compromissos que você assume com você mesmo. Porque o budismo entende uma coisa profunda. Toda ação que você faz deixa uma marca. Não numa ficha lá no céu. Na sua própria mente, quando você faz uma coisa ruim, você pode até enganar todo mundo. Mas tem uma pessoa que sabe você. E aquilo fica. Mexe com o seu sono, com a sua paz, com a forma como você se olha.

Os preceitos existem para proteger a sua mente do remorso. Para você poder sentar para meditar com a consciência limpa, então vamos aos cinco. E presta atenção em como cada um é prático. O primeiro é não machucar seres vivos. Não tirar a vida. Na sua forma mais funda, é não matar. Mas no dia a dia, ele vira algo maior. É a intenção de não causar dano. De escolher, sempre que der, a opção que machuca menos. É uma postura de cuidado com a vida ao redor, dos bichos às pessoas. O segundo é não pegar o que não te foi dado. A versão simples é não roubar. Mas repara na delicadeza da frase.

Não é só não roubar dinheiro. É não pegar o que não é seu. O crédito pelo trabalho de outra pessoa. O tempo de alguém quando você se atrasa de propósito. A atenção que você toma sem devolver. É uma honestidade larga, do bolso ao convívio. O terceiro é não se descontrolar nos prazeres. Tradicionalmente, ele fala de conduta sexual, de não trair, de não usar o desejo para ferir os outros. Mas o espírito dele é maior. É sobre não deixar o prazer virar o seu dono. Comida, bebida, sexo, telas. Não tem nada de errado com o prazer. O problema é quando você deixa de comer a sobremesa.

E a sobremesa começa a te comer. O quarto é não falar de forma falsa ou prejudicial. A versão curta é não mentir. Mas esse aqui é largo também. Inclui não fofocar, não falar para ferir, não distorcer para levar vantagem. A fala é uma das coisas mais poderosas que a gente tem. Uma palavra constrói ou destrói. Esse preceito é o compromisso de usar a fala para aproximar, não para machucar. E o quinto é não se intoxicar a ponto de perder a clareza. Tradicionalmente, fala de bebida e drogas. Mas o ponto não é moralista. O ponto é a clareza. Tudo o que a gente vem treinando. Presença, atenção.

Ver as coisas como elas são. Depende de uma mente lúcida. Esse preceito protege a ferramenta de trabalho. A sua própria consciência desperta. Agora repara numa coisa. Você notou o padrão? Todos os cinco começam com não. Não machucar, não pegar, não se descontrolar, não falar falso, não se intoxicar. Eles não te dizem o que fazer. Eles te dizem do que se abster. E isso é genial. Porque a maior parte do sofrimento que a gente espalha no mundo não vem das coisas boas que a gente deixou de fazer. Vem das coisas ruins que a gente fez sem pensar. Uma palavra dura no momento errado. Uma mentirinha que cresceu.

Um copo a mais. Os preceitos são, antes de tudo, a arte de não piorar as coisas. E tem uma frase budista linda sobre isso. Antes de tentar ser um santo, pare de ser um problema. Antes de adicionar virtude, pare de adicionar dano. Limpe o terreno primeiro. Mas eu preciso te dizer uma coisa para você não se assustar. Ninguém cumpre os cinco perfeitamente. E o budismo sabe disso. Lembra da palavra. Treinar. Eu me comprometo a treinar. Você vai escorregar. Vai falar demais. Vai exagerar. Vai mentir uma vez ou outra. E tudo bem. O preceito não é uma prova que você passa ou reprova. É uma direção para onde você aponta o corpo.

Você só volta a apontar. De novo, todo dia. E quando você começa a viver assim, uma coisa muda. Você dorme melhor. Não tem aquele rastro de pequenas culpas te perseguindo. Você olha para as pessoas no olho. A sua vida fica mais simples. Porque mentira dá trabalho. Exagero cobra a conta e fazer mal para alguém volta. A virtude no fundo é a forma mais inteligente de viver leve. Aqui vai uma coisa para hoje. Escolhe um. Só um dos cinco. O que você sente que mais bagunça a sua paz hoje em dia. Talvez seja a fala e o quanto você fofoca ou fala sem pensar. Talvez seja o quinto e o quanto você se anestesia com alguma coisa para não sentir.

Talvez seja o terceiro e algum prazer que virou seu dono. E por um dia só, hoje, assume esse compromisso com você. Eu me comprometo a treinar isso hoje. Não para sempre, não à perfeição. Só hoje e à noite, sem se julgar, repara como foi. Você não vai virar santo num dia. Mas você vai perceber uma coisa. Que cada vez que você não machucou, não mentiu, não exagerou. Ficou uma paz pequena no lugar onde antes ficava um peso. Porque a meditação rega o jardim. Mas são os preceitos que mantém o cabrito do lado de fora da cerca. E só dentro dessa cerca alguma coisa, enfim, consegue crescer.