O que fazer quando a mente não para

Budismo · Temporada 3 · Episódio 9 de 10 — em ordem cronológica

Você acha que meditar é parar de pensar? Prepare-se, porque essa ideia está completamente errada e pode mudar sua relação com a própria cabeça para sempre.

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Transcrição

Você senta pra meditar, fecha os olhos e em três cés a sua mente já está em outro lugar. Mas conta que vence amanhã. Aquela conversa de ontem. O que você vai comer mais tarde? Uma música grudou. Você lembra que esqueceu de responder uma mensagem e quando percebe já se passaram cinco min e você não meditou nada. Só pensou e aí vem o pensamento que estraga tudo. Eu não consigo. A minha mente não para. Meditação não é pra mim. Hoje eu quero te libertar dessa ideia porque ela está completamente errada e entender por que pode mudar a sua relação com a sua própria cabeça para sempre.

Deixa eu te contar. A primeira coisa que você precisa ouvir e ouvir com calma é essa. A sua mente não está quebrada. Ela está funcionando exatamente como toda mente humana funciona. A mente pensa. É isso que ela faz. Do mesmo jeito que o combate e o pulmão respira, a mente produz pensamentos sem parar o dia inteiro. Pedir para a mente parar de pensar é como pedir para o ouvido parar de ouvir. Não é assim que a coisa funciona. Então quando você senta e a mente dispara em mil direções, isso não é sinal de que você está meditando mal. É só a sua mente sendo uma mente. A diferença é que no dia a dia você está tão ouvindo que nem percebe o barulho.

Quando você senta em silêncio, pela primeira vez você escuta o quanto ela é barulhenta. Você não criou o barulho. Você só finalmente parou para ouvi-lo e aqui vem a virada que muda tudo. O objetivo da meditação nunca foi parar de pensar. Eu vou repetir porque quase todo mundo acredita no contrário. O objetivo não é esvaziar a mente. Não é alcançar um silêncio total. Não é ficar sem pensamento nenhum. Se fosse isso, o mundo nunca teria meditado porque é impossível. O objetivo é outro. É mudar a sua relação com os pensamentos. É parar de ser arrastado por cada um deles.

É aprender a ver o pensamento passar sem subir nele. Deixa eu te dar a imagem que os mestres usam. Imagina que você está sentado na beira de um rio e os seus pensamentos são folhas que descem na correnteza. Uma folha passa. Outra a meditação não é secar o rio. Você não tem poder para isso e nem deveria querer. A meditação é aprender a ficar sentado na margem, vendo as folhas passarem sem pular na água atrás de cada uma. Porque é isso que acontece quando você se distrai. Uma folha passa, um pensamento sobre a conta de amanhã e você não olha ela passar. Você pula dentro dela, você vira a folha, sobe rio abaixo pensando na conta, no juro, no que você vai fazer.

Até que lá na frente você acorda, percebe que se afogou no pensamento e nada de volta para a margem. E esse momento presta muita atenção. Esse momento em que você percebe que se distraiu. Esse é o momento mais importante da meditação inteira. A maioria das pessoas pensa o contrário. Pensar, me distrair de novo, mas é justamente o oposto. O instante em que você nota que estava distraído é o instante em que você acordou. É um pequeno momento de consciência pura. Antes dele você estava perdido no sonho do pensamento. Agora você está presente de novo. Então cada distração não é uma falha.

É uma oportunidade de treinar o voltar. E o voltar é o exercício inteiro. Lembra que a gente já falou de que a respiração é um músculo. Pois é, cada vez que você percebe que se distraiu e volta para a respiração, é uma repetição. É uma flexão da atenção. Uma mente que se distrae cem vezes numa sessão e volta cem vezes fez cem repetições. Ela treinou muito mais do que uma mente que ficou calma sem esforço. A pessoa que reclama "eu me distrair cem vezes" está sem saber, descrevendo um treino excelente. E tem uma armadilha que eu preciso te avisar. A briga, quando a mente não desfeja, a reação natural é brigar com ela.

Para, foca. Por que você não consegue ficar quieta? E aí você fica tenso, irritado, lutando contra os pensamentos. Mas isso só piora, porque agora você tem os pensamentos originais mais um novo barulho, que é a sua frustração com eles. Lutar contra o pensamento é jogar gasolina no fogo. Quanto mais você empurra um pensamento para fora, mais força você dá para ele. Experimenta agora não pensar num urso branco. Pronto, ele apareceu. O caminho não é empurrar, é soltar. Você não expulsa o pensamento. Você só para de segurá-lo. Percebe que ele está ali, reconhece com gentileza e devolve atenção para respiração.

O pensamento continua existindo, mas você parou de alimentá-lo. E sem alimento sozinho, ele se dissove. Tem uma frase de um mestre que resume tudo. Você não consegue impedir os pássaros de voarem sobre a sua cabeça, mas você pode impedir que eles façam ninho no seu cabelo. Os pensamentos vão vir. Você só não precisa morar dentro deles. Aqui vai uma coisa para hoje, na sua próxima meditação. Ou agora mesmo de olhos fechados, muda completamente a sua meta. Não tente parar de pensar. Esquece isso. Em vez disso, faça só uma coisa. Toda vez que você perceber que se distraiu, sorria por dentro e diga para si mesmo, calmamente voltei e retorne para a respiração.

Voltei e volta. Voltei e volta. Quantas vezes precisar? 100 vezes se for preciso. E aí, em vez de contar as distrações como fracasso, conta cada voltei como uma vitória. Porque é exatamente isso que elas são. A mente que ela não é um defeito seu, é a matéria-prima do treino. Sem o barulho, você não teria o que praticar. Você não está esperando o rio secar. Você está aprendendo folha por folha a ficar sentado na margem.