A bênção de Jacó aos doze filhos · Gênesis 48:1–49:33

A Biblia · Temporada 1 · Episódio 36 de 37 — em ordem cronológica

Esqueça o que a lógica diz sobre quem vem primeiro. Um velho cego cruzou os braços e reescreveu o destino de uma família inteira.

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Transcrição

Um velho cego, deitado na cama, cruza os braços de propósito. E com esse gesto simples, ele inverte tudo, vira o mundo de cabeça pra baixo. O filho que devia ficar em segundo lugar, ele põe em primeiro. E quando tentam corrigir ele, ele diz, "Eu sei o que estou fazendo. Deixa eu te contar." O velho Jacó tava chegando ao fim da vida. Lá no Egito, depois de ter reencontrado o filho José, depois de tantos anos, e um dia chegar à notícia, o seu pai está doente, está fraco. E o José pega os dois filhos dele, dois meninos que tinham nascido ali no Egito, o mais velho chamado Manacés, e o mais novo chamado Efraim, e leva os dois pra ver o avô antes que ele parta.

O velho Jacó junta as forças que tem e se senta na cama. E ele conta uma coisa pro filho. Lembra de quando Deus apareceu pra ele, lá atrás, e prometeu que a família ia virar um povo enorme. Pois é. E ele diz uma coisa que pega o José de surpresa. Ele aponta pros dois netos e diz, "Esses dois meninos que nasceram aqui no Egito, eles agora são meus, como se fossem meus próprios filhos, vão ter a mesma parte que os meus." Pensa no que isso significa. O avô tava adotando os netos como filhos, tava dando pra eles um lugar de honra na família, tava dizendo, "Vocês não são só netos de passagem, vocês são parte do povo, pra sempre." E aí chega a hora da benção.

Naquele tempo, a benção do pai, ou do avô, era uma coisa séria, pesada. Era como entregar o futuro nas mãos da pessoa. E tinha uma regra. O filho mais velho ficava com a benção mais forte. Era sempre acima. O primeiro nascia, o primeiro recebia. Então o José ajeita os meninos com todo cuidado. Põe o manacéso mais velho do lado da mão direita do avô, e o efrainho mais novo do lado da mão esquerda. Tudo certinho, a mão direita, a mão mais forte, ia cair sobre a cabeça do mais velho, como devia ser. Mas o velho Jacó, que já não enxergava direito, faz uma coisa estranha. Ele cruza os braços, põe a mão direita na cabeça do mais novo, e a mão esquerda na cabeça do mais velho, de propósito, e começa a abençoar.

O José vê aquilo e fica incomodado. Acha que o pai cego se confundiu, tenta corrigir, pega a mão do velho pra trocar de lugar? Diz, não é assim pai, esse aqui é o mais velho, põe a sua direita na cabeça dele, e o velho recusa. Ele diz, eu sei meu filho, eu sei, esse mais velho também vai ser grande, mas o mais novo vai ser maior ainda, e mantém os braços cruzados. Repara numa coisa, não é a primeira vez que isso acontece nessa família. O próprio Jacó era o filho mais novo, e ficou com abençoa na frente do irmão mais velho. O pai dele, o Isaac, também não foi o primeiro, é como se Deus, vez após vez, fizesse questão de mostrar uma coisa, aqui as escolhas não seguem a regra que o mundo espera.

Aqui, o último pode vir primeiro, e então o velho Jacó chama os outros filhos, todos os doze, e faz uma coisa enorme, ele dá pra cada um uma palavra, uma palavra que fala de quem aquele filho é, e do que vai ser dos filhos dele e dos filhos dos filhos, como se o velho conseguisse na cama, enxergar lá longe o futuro de cada um, e não são só elogios. É verdade, verdade na cara, pro Ruben o mais velho, ele diz uma coisa dura, diz, você devia ser o primeiro o mais forte, mas você foi instável como a água, e por causa de uma coisa errada que você fez, você não vai ter esse primeiro lugar.

Pra dois filhos, o Simeão e o Levi, ele também fala pesado. Lembra de uma violência que os dois cometeram, de uma raiva descontrolada, e diz que por isso eles vão ficar espalhados, sem um lugar só pra chamar de seu. Olha que coragem desse velho, na hora de abençoar, ele não finge que não viu nada. Ele ama os filhos, mas fala a verdade sobre eles, e aí ele chega no Judá, e a coisa muda de tom. Pro Judá, ele tem uma palavra de grandeza. Diz que os irmãos vão louvar o Judá, que ele vai ser forte como um leão. E diz uma frase enorme, uma frase que ia ecoar por séculos, que o bastão de mando não vai sair das mãos do Judá, que dele vai vir um governante, e que os povos vão obedecer a ele.

Era uma promessa gigante, de que daquele filho ia vir reis, de que dali ia vir alguém muito maior do que todos eles. E ele segue um por um, fala do Zebulon, que ia morar perto do mar, do Issacar, do Dan, do Gadi, do Azer, do Naftali, cada um com a sua palavra, a sua imagem, e chega no José. E para o José ele guarda as palavras mais bonitas, fala dele como uma árvore plantada perto de uma fonte de água, cheia de galhos, transbordando vida. Lembra de tudo que o filho sofreu, dos que tentaram derrubar ele, e diz que mesmo assim ele se manteve firme, e derrama benção em cima de benção sobre a cabeça dele.

É porfim ou bendiamim, ou tiátula, doze filhos, doze palavras, e desses doze, um dia, ia nascer um povo inteiro, dividido em doze tribos. O povo de Israel. Cada filho daquele virou o começo de uma família enorme, e quando o velho terminou de falar com todos eles, ele repetiu o pedido que já tinha feito. Diz-se, quando eu morrer, me enterrem com os meus, não aqui no Egito. Me levem de volta para aquela caverna, na terra dos nossos pais, onde estão enterrados o Abraão, a Sara, o Issac, a Rebeca e a minha Lia. É lá que eu quero ficar. E aí o texto descreve o fim com uma calma impressionante.

Diz que o Jacó, quando acabou de dar essas ordens aos filhos, recolheu os pés para dentro da cama, deu o último suspiro, e foi reunido ao seu povo. Sem drama, sem desespero, como quem termina uma jornada longa e finalmente descansa. Eu fico pensando muito nessa cena dos braços cruzados, porque o José tinha tudo arrumado. Tinha posto cada menino no lugar certo, do jeito que o mundo dizia que tinha que ser. O mais velho de um lado, o mais novo do outro. A regra, a ordem, o esperado e o velho, mesmo cego, mesmo fraco, cruzou os braços e disse, eu sei o que estou fazendo. Tem uma coisa nisso que me toca.

A vida quase nunca segue a ordem que a gente arruma para ela. A gente coloca tudo no lugar certinho, primeiro isso, depois aquilo, o esperado, o óbvio, e aí vem a vida e cruza os braços. Ponha o que era para ser segundo, em primeiro. Faz o caminho mais improvável virar o principal, e o que parecia engano. Lá na frente, vira a coisa mais certa que podia ter acontecido. E tem a outra coisa. O jeito como esse velho abençoou, sem mentir. Para os filhos que erraram, ele falou do erro, mas falou abençoando, não amaldiçoando. Olhou para cada um de frente, com tudo que aquele filho era, o bom e o ruim.

E mesmo assim, entregou um futuro nas mãos dele. Isso é uma forma rara de amar, ver a pessoa inteira e ainda se entorcer por ela. Aqui vai uma coisa para hoje. Pensa numa pessoa próxima de você, filho, irmão, amigo, alguém, e pensa numa qualidade real verdadeira que essa pessoa tem, não um elogio vazio, uma coisa que você de fato admira nela. E hoje, fala isso para ela. Em voz alta, olhando no olho ou numa mensagem do jeito que der, diga para ela o que você vê de bom nela, porque a gente costuma guardar essas palavras para o fim, como o velho Jacó na cama, e não precisa esperar até lá.

A bênção que mais faz falta é a que a gente ouve enquanto ainda dá tempo de mudar o dia de alguém.