A morte de Jacó e de José · Gênesis 50:1–26

A Biblia · Temporada 1 · Episódio 37 de 37 — em ordem cronológica

O pai morreu. Agora o homem que eles traíram tem todo o poder, e nenhuma razão para perdoar.

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Transcrição

O pai morreu, e de repente um medo antigo volta a apertar o peito de um grupo de irmãos, porque enquanto o velho estava vivo, eles estavam protegidos. Mas agora, agora o homem que eles traíram tinha todo o poder do mundo na mão, e nenhuma razão para perdoar. Será que tinha chegado a hora da vingança? Deixa eu te contar como termina essa história. Você acompanhou esse caminho todo, o velho Jacó, os 12 filhos, e o José, aquele filho que os irmãos venderam por inveja, que foi parar no Egito como escravo, e que, contra tudo, acabou virando o homem mais poderoso do país. Foi ele quem salvou a família inteira da fome, foi ele quem trouxe todo mundo para perto, e no episódio passado, o velho Jacó se despediu.

Abençoou os filhos um por um e partiu, em paz, na cama, cercado por todos. Agora a história começa exatamente nesse momento, com o corpo do pai, e o José se joga sobre o rosto do pai, chora, beija o rosto dele, e aí ele faz uma coisa que mostra o tamanho do amor desse filho. Ele manda os médicos do Egito prepararem o corpo do pai com todo o cuidado do jeito mais honroso que existia naquela terra, e o Egito inteiro entra de luto pelo velho, setenta dias chorando por um pastor estrangeiro. Pensa nisso, um país inteiro de luto por causa do pai do José, e o José lembra da promessa. Lembra do pedido do velho.

Não me enterre aqui, me leve de volta. Então ele pede licença ao faraó, e sobe. Faz a viagem longa de volta, atravessando o deserto, levando o corpo do pai para ser enterrado lá, na terra dos antepassados, naquela caverna onde já estavam o Abraão e a Sara, o Isaac e a Rebeca, e não vai sozinho. Vão os irmãos, vai a família toda, e vai junto uma comitiva enorme de gente importante do Egito. Carros, cavaleiros, uma multidão. O texto diz que foi um cortejo tão grande que os moradores da região ficaram impressionados ao ver aquilo. E ali, naquela caverna, os filhos enterram o pai, como ele tinha pedido, e aí voltando pro Egito, depois do enterro, vem a parte mais delicada de toda a história, porque os irmãos do José param para pensar, e o medo bate, eles dizem entre si.

E agora, o pai morreu, era ele que segurava tudo, e se o José ainda guardar mágoa da gente, e se ele estava só esperando o pai partir para se vingar de tudo o que a gente fez com ele, lembra do que eles fizeram, venderam o próprio irmão, mentiram pro pai por anos, deixaram o velho chorar um filho que nem tinha morrido. Como é que você dorme em paz depois de uma coisa dessas? Então eles montam um plano, com medo, mandam um recado pro José, dizendo que o pai, antes de morrer, tinha pedido que o José perdoasse os irmãos, e depois vão eles mesmos e se jogam no chão na frente dele, e dizem "Aqui estamos, somos seus escravos, faça o que quiser com a gente", e aí acontece uma das cenas mais bonitas de toda a Bíblia.

O José ouve aquilo e chora, ele chora porque depois de tudo, depois de tantos anos, os irmãos ainda tem medo dele, ainda acham que ele é o tipo de homem que guarda mágoa esperando a hora certa de cobrar, e ele diz pra eles uma coisa que eu queria que ninguém esquecesse nunca. Ele diz "Não tenham medo, por acaso eu estou no lugar de Deus pra julgar vocês", e completa com a frase, a frase que resume a vida inteira dele "Vocês pensaram em fazer o mal contra mim, mas Deus transformou aquilo em bem, pra que muita gente fosse salva da fome, pra que vocês mesmos e seus filhos ficassem vivos".

Para nessa frase um segundo, o José não tá dizendo que o que os irmãos fizeram foi bonito, não foi, foi traição, foi maldade, foi inveja. Ele não finge que a ferida não existiu, mas ele olha pra trás, pra estrada inteira da vida dele, e enxerga outra coisa por cima da maldade. Ele enxerga que, mesmo no meio do pior, alguma coisa boa foi sendo costurada, que se ele não tivesse sido vendido, não estaria no Egito. Se não estivesse no Egito, não teria virado governador. Se não fosse governador, não teria comida guardada. E sem aquela comida, a família inteira teria morrido de fome, a mesma traição que quase destruiu ele, foi o caminho que acabou salvando todo mundo.

E ele diz, fiquem tranquilos, eu vou cuidar de vocês, e dos filhos de vocês, e o texto diz que ele falou ao coração deles, falou com carinho, tirou o medo, pensa no peso disso. O José tinha todo o poder, todo o direito do mundo de cobrar. E ele escolhe a outra coisa, escolhe perdoar, não porque esqueceu, mas porque conseguiu enxergar a história de um lugar mais alto. E aí os anos passam, o José vive muito, vê os filhos dos filhos crescerem, chega aos cento e dez anos, e quando sente que o fim está chegando, ele reúne a família. E diz uma coisa surpreendente, ele não diz, fiquem bem no Egito, ele diz o contrário, ele diz, eu vou morrer, mas Deus com certeza vai cuidar de vocês, e um dia ele vai tirar vocês daqui desta terra e vai levar vocês de volta para aquela terra que ele prometeu para os nossos pais.

Olha o que ele está fazendo. Lá no fundo do Egito, cercado de conforto e de poder, ele aponta para frente. Diz, isso aqui não é o fim da história, tem uma promessa ainda de pé, Deus ainda vai cumprir. E ele faz a família jurar uma coisa, diz, quando Deus levar vocês de volta, levem os meus ossos junto, não me deixem aqui para sempre, me levem para casa. E o José morre, com cento e dez anos, e embalçam o corpo dele e o colocam num caixão ali no Egito, e é exatamente aí que termina o livro do Gênesis. Pensa que jeito estranho de terminar, não termina com uma vitória, com uma festa, com tudo resolvido, termina com um caixão no Egito e uma promessa no ar, mas é um caixão que está esperando uma volta para casa, é uma promessa que ainda vai ser cumprida muitos e muitos anos depois.

Eu fico pensando muito em como essa história inteira fecha, porque o Gênesis começou lá atrás, com a criação, com um jardim, com um mundo novinho cheio de promessa e passou por tanta coisa, pela queda, pelo dilúvio, por famílias brigando, por irmãos se traindo, por gente fugindo, gente chorando, gente errando feio, e mesmo assim, do começo ao fim, tem um fio que não arrebenta, uma promessa que atravessa tudo, que sobrevive as piores escolhas das piores pessoas. E talvez seja isso que o José entendeu antes de morrer, que a vida da gente é só um pedaço de uma história bem maior, que o capítulo da gente pode até terminar com um caixão e uma promessa por cumprir, mas a história não para ali, e a maldade que tentaram fazer contra ele não teve a última palavra.

A última palavra foi outra, foi Deus transformou em bem. Aqui vai uma coisa para hoje, pensa numa coisa ruim que te aconteceu, uma que dueu de verdade, e não, você não precisa fingir que foi boa, não precisa achar bonito o que machucou, mas faz só uma pergunta, com calma, tem alguma coisa que cresceu de dentro daquilo, uma força que você descobriu, uma pessoa que você só conheceu por causa daquele caminho torto, uma porta que só abriu porque a outra fechou, você não precisa ter a resposta hoje. O José levou décadas para enxergar a dele, mas só de fazer a pergunta de olhar a ferida e perguntar se não saiu nada de bom dali, você já começa a olhar a sua própria história de um lugar um pouquinho mais alto, que nem o José olhou, e foi de lá de cima que ele conseguiu finalmente perdoar.