O leão arruinado pela má companhia do chacal

Budismo · Temporada 15 · Episódio 2 de 21 — em ordem cronológica

Você acha que um leão pode ser derrubado? Sim, não por um inimigo, mas pelo bajulador que ele convidou para a própria toca.

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Transcrição

Imagina o rei dos animais, o leão mais forte da floresta, aquele que derruba um búfalo com um golpe só. Agora imagina que, um belo dia, ele resolve fazer amizade com o Chacal. E que por causa dessa amizade, ele perde tudo. Como é que o mais poderoso de todos termina arruinado, não por um inimigo maior, mas por um companheiro menor? A resposta a essa pergunta é, talvez, uma das advertências mais úteis que você vai ouvir hoje sobre as pessoas que a gente deixa entrar perto demais. Deixa eu te contar. Esse é um dos de atacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda estava se tornando Buda, vida após vida, construindo virtude.

Nesse aqui, o futuro Buda, o Bodhisatta, aparece numa forma curiosa como a divindade da floresta, aquele que observa tudo de cima das árvores e vê, com clareza, o erro acontecendo bem diante dos seus olhos. Era uma vez um leão chamado Manoja, que vivia numa caverna nas montanhas dos Himalayas. Era um leão de verdade, repara, um leão como deve ser, caçava sozinho, com força e nobreza, quando derrubava um búfalo ou um veado, comia o que precisava e voltava para sua caverna em paz. Era forte, era reto, e era o que a natureza dele mandava ser. Um dia, esse leão encontrou um chacal magro, faminto, escondido no meio do mato.

O chacal, que não tinha força nenhuma para caçar, viu ali uma oportunidade. Se aproximou todo o humilde, abaixou as orelhas e disse, "O rei dos animais, o Senhor poderoso, deixa eu te servir. Eu não quero nada, só as sobras da tua caça. Em troca, eu fico aos teus pés, eu te sirvo, eu te bajulo". E o leão, no momento de descuido, aceitou. "Pode ficar", disse ele. E o chacal passou a morar na caverna, comendo o que o leão deixava. No começo, o arranjo até funcionava. O leão caçava, comia, e o chacal lambia os restos. O chacal engordou. E aí, repara, foi exatamente quando ele engordou que o problema começou.

Porque o chacal cheio, forte, confortável, começou a se achar. Começou a achar que aquela carne toda vinha dele e não da força do leão. Um dia, ele teve um pensamento perigoso. Ele pensou, "Hora, eu também tenho quatro patas. Eu também tenho dentes. Porque sempre o leão que caça, e eu que como as sobras. Eu também sou capaz. Hoje eu quero comer carne de elefante. Vou caçar eu mesmo." E foi falar com o leão. Disse, todo cheio de si. "Ó leão, eu nunca comi a carne mais nobre, a carne do elefante das montanhas. Hoje eu quero caçar um. Fica tu na caverna, deita na minha toca, e deixa que eu vou trazer o elefante." O leão olhou pra ele com pena, e tentou avisar.

"Olha, chacal, isso não é coisa de chacal. Não existe chacal que derrube um elefante. Volta pro teu lugar, come tua sobra, e fica em paz. Mas o chacal, cego de orgulho, insistiu, insistiu, insistiu, pediu, implorou, encheu tanto que o leão cansado, acabou cedendo. Tudo bem," disse o leão. "Eu deito na tua toca, e tu vai caçar." Boa sorte. Lá foi o chacal pra beira da montanha. Todo confiante. Avistou um elefante enorme passando embaixo do penhasco. E pensou, "vou me jogar de cima na cabeça dele, igual o leão faz com os búfalos." Subiu no alto da pedra, mirou, gritou três vezes pra se animar, e se atirou.

Só que ele não era um leão, não tinha o peso, não tinha a força, não tinha o golpe. Errou o alvo, passou raspando pela cabeça do elefante, e caiu bem entre as patas do bicho. O elefante, sem nem se assustar direito, pisou. E foi o fim do chacal, esmagado ali, no chão, virou nada. Tudo porque quis ser o que não era. Agora, é aqui que muita gente conta a história e para. Mas o conto vai mais fundo, e a virada está justamente nesse fundo. Porque o nome do leão, manoja, e o jeito como o Bodhisatta narra essa cena de cima da árvore apontam pra uma verdade incômoda. O problema não foi só do chacal, o problema começou no leão.

No dia em que o leão nobre aceitou a bajulação de quem não tinha nada a oferecer a não ser elogio. Repara nisso. O leão era forte, era reto, vivia bem sozinho, ele não precisava do chacal pra nada. O que o chacal trouxe foi só uma coisa, companhia barata, bajulação fácil, alguém que dizia a ele o tempo todo como ele era grande e poderoso. E o leão, que dispensava qualquer inimigo, não soube dispensar o elogio, deixou o bajulador entrar na caverna e quando você deixa o bajulador entrar, você abre a porta pra confusão. Foi o leão quem alimentou o chacal até ele engordar de orgulho.

Foi o leão quem, de tanto ser bajulado, perdeu o pulso e cedeu a um pedido absurdo. A má companhia não destrói só com veneno, ela destrói com açúcar. E o budismo tem um nome pra isso. Fala dos Kalianamita, os amigos de bem, os companheiros nobres, aqueles que te puxam pra cima, que te dizem a verdade mesmo quando dói. E fala também do contrário, do Papamita, o falso amigo, o companheiro ruim, aquele que te bajula, que concorda com tudo, que come das suas sobras e te enche de orgulho até você fazer uma besteira que vai te custar caro. O Buda repetia isso de mil maneiras. Diga-me com quem tu andas.

Quem anda com o sábio fica sábio. Quem anda com o tolo se arruina. E olha como isso bate no nosso tempo. A gente vive cercado de bajulação fácil. Tem o aplicativo que só te mostra gente concordando com você. Tem o grupo que só repete o que você já pensa. Tem aquele conhecido que vive te dizendo que você está sempre certo, que todo mundo é que está errado, que você devia sim mandar aquela mensagem, comprar aquilo, encarar aquele elefante que não é da sua conta. A gente confunde quem nos agrada com quem nos quer bem. E são coisas muito diferentes. O bajulador te engorda o ego para depois te ver pisado entre as patas de uma decisão que ele te empurrou e da qual ele vai sair ileso.

Aqui vai uma coisa para hoje. Faz uma lista mental rápida das três ou quatro pessoas com quem você mais conversa, com quem você mais passa tempo, de quem você mais ouve conselho. E pergunta de cada uma com honestidade. Essa pessoa me puxa para cima ou só me bajula. Ela me diz a verdade quando eu erro, ou ela concorda com tudo para ficar perto da minha caverna. Quando eu estou prestes a saltar do penhasco atrás de um elefante que não é para mim, ela me segura pelo ombro, ou ela grita junto comigo só para me animar. Você não precisa cortar ninguém da sua vida hoje, mas repara em quem você está deixando entrar na caverna, porque a sua força, igual a do Leão Manoja, não vai ser derrubada por um inimigo maior que você.

Ela vai ser derrubada, devagarzinho, pela companhia menor que você não teve coragem de mandar embora. Escolhe os teus amigos como quem escolhe o que vai te formar, porque, no fim, a gente vira a média das vozes que deixa morar perto.