O homem que enfrenta o ogro para salvar vidas

Budismo · Temporada 15 · Episódio 3 de 21 — em ordem cronológica

Um ogro devora um a um. Mas o verdadeiro confronto não exige espadas, e sim a coragem de dizer a verdade onde ninguém a espera.

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Transcrição

E se, pra salvar a vida de outra pessoa, você tivesse que entrar sozinho na floresta onde mora um ogro que devora todo mundo que passa, sem espada mágica, sem exército, sem garantia nenhuma de voltar, só a sua palavra e a sua coragem. A maioria de nós faria as contas e ficaria em casa, mas tem gente que vai. E o conto de hoje é sobre um desses. Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, mas estava se tornando. A gente chama esse ser de Bodhisatta, aquele que caminha vida após vida pulindo o coração. E ele aparece nessas histórias as vezes como um animal, as vezes como uma pessoa comum.

Hoje ele é um jovem, um jovem chamado Sutano, Sutano era filho de uma família pobre, dessas que vivem do dia pro outro. O pai já tinha morrido e ele cuidava da mãe sozinho, cortava lenha, vendia o que dava, fazia pra casa o suficiente pra ela não passar fome, não tinha riqueza nenhuma, mas tinha uma coisa que vale mais, tinha cuidado, levava a mãe a sério, cuidava dela como quem cuida da própria vida. Agora, naquele reino, vivia um problema antigo, na floresta que cercava a cidade morava um yaka, um ogro, um devorador de homens, e esse ogro tinha feito um pacto, lá no passado, com um espírito da floresta, ele só podia comer quem caísse na sombra de uma certa árvore ao meio-dia, quem pisasse ali era dele, era a lei dura daquele lugar, e acontece que o rei daquele reino tinha o hábito de caçar.

Um dia, perseguindo um servo, o rei se embremou fundo na mata, se separou de todos, cansou o cavalo, e foi descansar justamente debaixo daquela árvore. Ao meio-dia, você já sabe o que vem. O ogro apareceu, enorme, com os olhos vermelhos, a boca de fera, as mãos como ganchos, agarrou o rei e disse "você é meu, caiu na minha sombra", o rei, tremendo, fez o que os reis costumam fazer quando estão sem saída, negociou, não me coma agora, me deixa voltar pro palácio, eu te mando um homem todo dia pra você comer, um por dia, e ainda mando uma tigela de arroz junto, o ogro pensou e topou, mas se um dia você falhar, eu venho buscar você, e foi assim que começou o horror tranquilo daquela cidade.

No santo-dia, o rei mandava um prisioneiro pra floresta, um homem amarrado, com uma tigela de arroz, pro ogro comer. Dia após dia, as prisões foram esvaziando, e quando os prisioneiros acabaram, o rei começou a olhar pros cidadãos comuns pra mandar gente inocente. O medo tomou conta da cidade inteira, as mães escondiam os filhos, ninguém dormia em paz, porque amanhã podia ser a sua vez de virar a refeição do meio-dia. O rei tinha um conselheiro de confiança, um homem que cuidava do tesouro, e foi ele quem teve uma ideia. Majestade, e se a gente oferecesse uma recompensa, mil moedas de ouro pra quem se dispuser a ir levar o arroz ao ogro e enfrentar essa coisa.

Talvez apareça um corajoso, e foi aí que a notícia chegou aos ouvidos de Soutano. Mil moedas de ouro. Soutano olhou pra mãe, olhou pra pobreza da casa, e algo dentro dele se decidiu. Mas repara, não foi ganância, foi outra coisa. Ele pensou, se eu morrer, minha mãe fica com o ouro, e nunca mais passa necessidade. E se eu viver, salvo a mim, e talvez salve a cidade inteira de continuar mandando gente pra morte. Os dois caminhos pra ele, terminavam em cuidado, ou ele provia, ou ele protegia. A mãe chorou, implorou pra ele não ir. Você é tudo que eu tenho. E ele disse, com doçura. É justamente porque você é tudo que eu tenho que eu preciso ir.

Eu não quero te ver mendigando quando eu não puder mais trabalhar. Ele se despediu, pegou a tigela de arroz, e entrou na floresta sozinho. Agora vem a parte que importa. Soutano não entrou ali com raiva, nem com bravata de herói. Ele entrou com clareza. Quando chegou perto da árvore, ele não pisou na sombra. Reparou onde a sombra caía, e ficou de fora dela. E chamou o ogro com voz firme, sem tremer. Estendeu a tigela de arroz, e ofereceu primeiro a comida, com respeito, o ogro estranhou. Ninguém nunca tinha falado com ele assim, sem pânico, sem se jogar aos pedaços de medo. E Soutano começou a conversar, não com armas, com palavras verdadeiras.

Ele disse ao ogro, "Eu sei do pacto que você fez. Você só pode comer quem cai na sua sombra. Eu não caí. Estou de fora." E mais, você se alimenta da morte de gente inocente todo dia. Você te dá fome de novo no dia seguinte. Nunca acaba. Você já parou para pensar que o que você está fazendo só prepara um sofrimento maior para você mesmo, mais à frente. E ali, no meio da floresta, esse jovem pobre fez o que nenhum exército tinha feito. Ele falou ao monstro sobre as consequências dos próprios atos. Falou de bondade. Falou que existe outro jeito de viver que não seja devorando os outros.

E foi falando com tanta firmeza e tanta verdade no peito que o ogro, pela primeira vez, abaixou as mãos. O coração do ogro amoleceu. Não por medo, porque sultano não tinha o ameaçado. Amoleceu porque alguém, enfim, tinha falado com ele como se ele também pudesse ser melhor. O ogro fez uma promessa. Nunca mais comeria homem nenhum. Soltou todos do pacto. E sultano, esse jovem que entrou sozinho para salvar vidas, saiu da floresta vivo com o ogro caminhando manso atrás dele e levou a coisa toda de volta para o rei. A cidade inteira foi libertada do terror, e o ouro, claro, foi para a mãe dele.

Agora, repara no que esse conto está dizendo. A coragem de sultano não foi a coragem de quem tem força, foi a coragem de quem tem clareza e tem amor. Ele enfrentou o que assustava a cidade inteira, e a arma dele foi não pisar na sombra, ou seja, não cair na armadilha, e foi falar a verdade com firmeza e sem ódio. Os budistas chamam isso de viria, a energia corajosa que vem do bem, e de meta, a bondade que a gente estende até para quem parece não merecer. Olha que coisa, o ogro mudou porque foi tratado como alguém capaz de mudar, e hoje a gente vive tão treinado no contrário, a gente cancela, rotula, escreve a sentença da pessoa antes mesmo de ouvir.

Esse aí não tem jeito. A gente acha que coragem é gritar mais alto, é destruir o outro lado, mas o conto sussurra, que a coragem mais difícil e mais transformadora, é a de chegar perto do que te assusta, sem ódio, e falar a verdade de um jeito que abra uma porta em vez de fechar. Sutano não derrotou o ogro, ele acordou nele uma possibilidade melhor. Isso é mais raro, e mais poderoso, que qualquer espada. Aqui vai uma coisa pra hoje. Pensa numa pessoa que você já decidiu que não tem jeito, aquela que você evita, ou da qual você já desistiu por dentro. Hoje, antes de pisar na sombra, antes de cair na reação automática de raiva, ou de fuga, experimenta uma coisa, falar com ela com firmeza, mas sem desprezo, dizer a verdade que precisa ser dita, sem o veneno.

Trate essa pessoa como alguém ainda capaz de ser melhor, talvez não mude nada, mas talvez, como aconteceu na beira daquela árvore ao meio dia, você descubra que o ogro só estava esperando que alguém acreditasse que ele podia parar.