O abutre devotado que sustenta os pais cegos

Budismo · Temporada 15 · Episódio 4 de 21 — em ordem cronológica

Preso, à beira da morte, um filho tem um único lamento: 'Quem cuidará dos meus pais cegos?' A resposta pode vir de onde você menos espera.

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Transcrição

Imagina um filho que, todo santo dia, sai de casa antes do sol nascer para buscar comida. Não para ele, para dois velhos que não enxergam mais nada, que ficam ali, parados no escuro e esperando. E imagina que esse filho, um dia, cai numa armadilha, e a primeira coisa que passa pela cabeça dele, preso, prestes a morrer, não é a própria dor. É, e agora, quem vai dar de comer aos meus pais? Deixa eu te contar, esse é um dos de atacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, ainda estava no longo caminho de se tornar um. Nessas histórias, o futuro Buda, o Bodhisatta, aparece ora como rei, ora como sábio, ora como mendigo, e nesse aqui ele aparece de um jeito que talvez te surpreenda.

Ele aparece como a Butri. Sim, aquele pássaro grande e escuro, que a gente costuma achar feio, que vive de carniça, que o pessoal olha com nojo, é nessa pele, nessas penas, que o Bodhisatta vai nos ensinar uma das coisas mais bonitas que existem. Repara só, lá nas montanhas, num penhasco alto chamado Penhasco dos Abutris, viviam um bando enorme dessas aves, e no meio delas havia um Abutri jovem, forte, de vôo firme, capaz de subir tão alto que enxergava comida alégoas de distância. Esse era o Bodhisatta, mas o que fazia dele diferente não eram as asas, era o coração, porque os pais dele já estavam velhos, os dois cegos, não conseguiam mais voar pra caçar, não conseguiam mais se virar sozinhos.

Ficavam ali, no ninho, no escuro, dependendo inteiramente de quem viesse trazer alimento, e foi o filho que assumiu isso. Todo dia ele saía, planava sobre os campos, encontrava o que comer, e trazia o melhor pedaço, a parte mais macia, a porção mais limpa, direto pro bico dos pais. Comia o que sobrava, primeiro os velhos, depois ele. Sempre nessa ordem, ele fazia isso sem reclamar, sem se gabar, sem esperar nada em troca. Os pais não podiam recompensá-lo, não podiam nem ver o rosto dele, e ele continuava. Dia após dia, estação após estação. Isso no budismo tem um nome bonito, chama-se gratidão em ação, o reconhecimento daquilo que recebemos de quem nos criou, e o cuidado que devolvemos quando chega à nossa vez.

Os antigos diziam que cuidar dos pais idosos é uma das bênçãos mais altas que uma criatura pode cultivar. Mas a vida, você sabe, não poupa ninguém só porque a pessoa é boa, naquela região vivia também um caçador. Homem ábil, que espalhava armadilhas pelos campos, laços escondidos no chão, pra pegar bichos, e um belo dia, voando baixo atrás de comida, o nosso abutre pousou exatamente no lugar errado. O laço se fechou na pata dele, ele bateu as asas, puxou, lutou, mas quanto mais lutava, mais apertava, estava preso, e aqui está o ponto que faz a gente parar. Preso, sabendo que provavelmente ia morrer ali, o abutre não chorou pela própria sorte, ele chorou pelos pais, soltou um lamento que era só isso, meus pobres pais, cegos, lá no penhasco, esperando.

Hoje não vai chegar comida, amanhã também não, e eles não têm mais ninguém. Vão morrer de fome, sozinhos no escuro, sem saber o que aconteceu com o filho. O caçador chegou pra recolher a presa, e ouviu o pássaro lamentando daquele jeito, com palavras de quem sofre por outro, e não por si. Ficou pasmo, nunca tinha visto um bicho assim. Preguntou meio sem acreditar, abutre, todo mundo sabe que vocês enxergam de longe, lá do alto. Como é que você, com olhos tão bons, não viu o meu laço armado bem na sua frente? E o abutre respondeu uma coisa que vale pra sempre. Disse mais ou menos assim, quando a ruína de uma criatura está chegando, quando a hora dela bate, ela pode passar rente, armadilha e não haver, mesmo tendo os melhores olhos do mundo.

Não foram meus olhos que falharam, foi minha hora que chegou perto. E então contou ao caçador toda a sua história, dos pais cegos, da comida que levava todo dia, do medo não de morrer, mas de deixar os velhos sem nada. O caçador, que era um homem duro, sentiu o coração amolecer. Pensou consigo, se eu matar esse pássaro, mato junto dois velhos indefesos que dependem só dele, que crueldade seria essa. Esse aqui é melhor do que muita gente que se diz gente, e ali mesmo, sem pedir nada, abriu o laço, soltou o abutre e disse, vai, voa, cuida dos teus pais por muitos anos ainda. O Bodhisatta, livre, agradeceu de coração e disse ao caçador que aquela bondade voltaria para ele, que quem solta uma vida assim cole alegria por muito tempo e voou direto para o penhasco levar a comida que os velhos esperavam.

Agora, repara no que esse conto está dizendo. O herói não é o pássaro mais bonito, nem o mais poderoso, é o que se lembra de quem o criou, num tempo em que a gente celebra a independência acima de tudo, em que se virar sozinho virou a maior das virtudes. Esse abutre escuro nos lembra de uma coisa simples e meio esquecida. Você não chegou aqui sozinho, alguém te alimentou quando você não conseguia, alguém te carregou quando você não andava. E hoje, com pressa, com agenda cheia, com mil notificações puxando a nossa atenção, é fácil deixar um telefonema para depois, adiar a visita, achar que ainda dá tempo, a gratidão, quando vira só um sentimento morno guardado por dentro, não alimenta ninguém.

O abutre não sentia gratidão, ele voava com ela todo dia e a colocava no bico dos pais, e tem mais, repara que até o caçador muda, a bondade de uma criatura tocou o coração de quem tinha vindo matar. Isso também é budismo, a virtude de um contagia, quando você cuida de quem precisa, sem fazer alarde, alguém vê, e às vezes esse alguém solta o próprio laço, larga a própria dureza e se torna um pouquinho melhor. Aqui vai uma coisa para hoje, pensa em alguém que cuidou de você quando você não podia se cuidar, pode ser pai, mãe, avó, um tio, um professor, quem for. Hoje, antes de dormir, faça um gesto concreto, não só um pensamento bonito, ligue, mande uma mensagem de verdade daquelas que não cabem numa figurinha, ou, se essa pessoa já partiu, faça por outra que hoje precisa de cuidado.

Leve a comida, no sentido que for, porque a gratidão que fica só no peito é como o abutre que voa e não pousa. Bonita no ar, mas não chega a ninguém, deixa ela pousar, deixa ela alimentar.