As lontras, o chacal e o juiz que divide o peixe

Budismo · Temporada 15 · Episódio 5 de 21 — em ordem cronológica

De quem você acha que é a vitória quando duas pessoas brigam até a exaustão? Não se iluda: quem ganha é sempre o de fora.

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Transcrição

duas pessoas trabalham juntas, suam juntas, arriscam juntas, e na hora de dividir o que conseguiram, aparece um terceiro, que não fez nada, sorrindo, todo prestativo, dizendo "deixa que eu resolvo essa briga de vocês", você já viu como termina essa história. Na maioria das vezes, termina com os dois que trabalharam ficando com as migalhas, e o ajudante indo embora com o melhor pedaço de baixo do braço. Deixe-te contar, esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, mas estava no longo caminho de se tornar Buda. A gente chama essa figura de Bodhisatta, o ser desperto em formação, e nesses contos ele aparece ora como pessoa, ora como bicho, sempre encarnando alguma virtude.

Nesse aqui, repara, ele aparece de um jeito curioso, como uma testemunha, alguém que vê tudo de fora, e entende, na hora, o que está realmente acontecendo. A história começa numa margem de rio, num lugar de água farta e mata fechada. Ali viviam duas lontras, uma costumava caçar nas águas mais rasas, perto da beira, a outra mergulhava fundo, no meio da correnteza. Eram boas no que faziam, cada uma do seu jeito. Um dia, um peixe enorme passou nadando, gordo, reluzente, daqueles que dá água na boca só de olhar, e aconteceu de as duas lontras avistarem o mesmo peixe ao mesmo tempo. A da água rasa cravou os dentes na cabeça, a da água fundo agarrou o rabo, e o peixe coitado já estava morto, mas o impasse estava só começando.

A lontra da beira puxava para um lado, eu vi primeiro, a cabeça é minha, a lontra do fundo puxava para o outro, fui eu que mergulhei e segurei, eu fiz a parte difícil. E ali, no meio do rio, as duas começaram a brigar, puxa daqui, puxa de lá, e o peixe nem inteiro, nem dividido, parado entre as duas, sem ninguém comendo nada. Foi quando apareceu o chacau. Ah, o chacau, esperto, faminto de óleo, ele vinha andando pela margem e percebeu logo a cena. Duas lontras exaustas, um peixe gordo no meio, e nenhuma das duas disposta a aceder. E pensou consigo mesmo, aqui tem jantar para mim. Aproximou-se com a voz mais macia do mundo.

Amigas, amigas, por que essa briga toda? Vocês são companheiras de tantas águas. Olha, eu sou um chacau justo, conhecido por aqui pela minha imparcialidade. Deixe que eu divida o peixe para vocês, de forma honesta, e cada uma fica com o que merece. As duas lontras, cansadas de puxar, aliviadas de ter alguém para resolver, concordaram. Sim, sim, divide você, a gente confia, o chacau então pegou o peixe, com toda a calma, arrancou a cabeça e colocou na frente da lontra da água rasa. Toma, para você que vê na beira, a cabeça, arrancou o rabo e pois na frente da outra, e para você que mergulha fundo o rabo.

E ficou, no meio, com o corpo inteiro do peixe, a parte gorda, a carne toda. E essa parte do meio, perguntaram as lontras. E o chacau, já com um pedaço bom na boca, respondeu sem pestanejar. Ah, essa é a taxa do juiz. Quem não briga e resolve a confusão dos outros, leva o miolo. É a regra. E saiu trotando, todo contente, levando o melhor do peixe para sua companheira, que o esperava na toca. As duas lontras ficaram ali, olhando uma para a cara da outra, cada uma com seu pedacinho seco, descobrindo tarde demais o tamanho da bobagem que tinham feito. E foi nesse instante que o Bodhisatta, que assistia a tudo de um ponto da margem, fez uma observação que ficou.

Algo no espírito disto, quando há discord entre as pessoas, é o terceiro, o de fora, quem se aproveita. Assim como, na briga das lontras, foi o chacau quem comeu o peixe e elas ficaram só com cabeça e rabo. A desunião dos dois virou o banquete do terceiro. Agora, repara no que esse conto está dizendo, porque ele é antigo mas é da nossa época também. A briga das lontras não foi pelo peixe, foi por orgulho. Cada uma queria estar certa, queria que a outra reconhecesse o seu mérito. Eu vi primeiro. Eu fiz a parte difícil. E enquanto disputavam quem era mais importante, perderam de vista o óbvio, havia peixe de sobra ali para duas.

Dava para partir no meio, comer juntas, e ainda sobrar. Mas o orgulho não deixa a gente ver a solução simples. O orgulho prefere ganhar a briga a resolver o problema. E a gente faz isso o tempo todo, sócios que rompem por uma vaidade e deixam o negócio quebrar, e quem lucra é o concorrente. Irmãos que brigam por herança gastam tudo em advogado e quem leva é o sistema. Casais que disputam quem tem razão até não sobrar mais relação nenhuma. Times, famílias, grupos de trabalho que se rachavam por dentro enquanto alguém de fora. Paciente esperava a hora de recolher os cacos. O Chacal não precisa ser forte.

Ele só precisa que você esteja ocupado de mais brigando para reparar que ele chegou. O budismo tem uma palavra bonita para aquilo que faltou as lontras. Samaje, a harmonia, a concórdia, a união. O Buda dizia, sempre, que a discórdia é uma das coisas que mais corrói uma comunidade, e que a harmonia entre as pessoas é uma das maiores riquezas que existem. Não porque brigar seja feio, mas porque a desunião abre a porta. E sempre tem um chacal de olho na porta aberta. E tem outra coisa fina nesse conto. O chacal não roubou. Ele não arrancou o peixe à força. Ele foi convidado. As lontras o chamaram para ser juiz.

A gente entrega, com as próprias mãos, o poder de decidir a quem não tem interesse nenhum no nosso bem. Só porque, naquele momento, estamos cansados demais de conversar um com o outro. Tercerizamos a briga para quem vai cobrar caro por ela. Aqui vai uma coisa para hoje. Pensa numa briga que você está vivendo agora. Com um sócio, um parente, um colega, alguém do seu lado. E faz uma pergunta honesta. Tem peixe de sobra aqui? Quase sempre tem. Quase sempre dá para partir no meio e os dois saírem comendo. Antes de chamar um chacal, antes de levar a confusão para um terceiro decidir, senta com a outra pessoa e tenta dividir vocês mesmos na conversa de igual para igual, porque a cabeça e o rabo, no fim, ficam para quem brigou.

E o miolo, o melhor pedaço, vai sempre para quem soube esperar vocês se desunirem.