Você já viu um homem engolir uma espada e dizer que aquilo não era nada perto da outra dor que carregava por dentro? Que dor é essa, capaz de fazer o aço afiado parecer brincadeira? E porque justamente o rei, que tinha tudo, andava murchando como uma flor cortada, sem que ninguém soubesse o porquê? Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda estava se tornando Buda, caminhando vida após vida como o Bodhisatta, às vezes nascido animal, às vezes nascido gente. Nesse aqui, ele nasce homem e nasce sábio. Era o conselheiro mais respeitado do reino, aquele a quem todos recorriam quando o coração ficava embaralhado demais pra mente entender sozinha.
A história começa num palácio onde de repente a alegria some. O rei, que era jovem e tinha saúde, começou a definhar. Parou de comer direito, perdeu a cor do rosto, deixou de rir das coisas que antes o faziam rir. Os médicos vieram, examinaram, mexeram em ervas e poções e não acharam doença nenhuma no corpo. Porque não era no corpo, era mais fundo. O que tinha acontecido foi o seguinte. Havia no palácio uma rainha que o rei amava com uma intensidade que beirava o desespero. E essa rainha adoeceu de verdade e morreu. O rei não conseguiu aceitar, não conseguiu soltar, mandou que o corpo dela não fosse cremado.
E ali ficou, dia após dia, deitado ao lado de quem já tinha partido, segurando a mão de quem já não segurava mais nada, recusando comida, recusando consolo, recusando a vida. Sete dias, o reino inteiro prendendo a respiração, vendo o rei se afundar num poço de amor que não tinha mais pra onde ir, num amor que agora ninguém do outro lado podia receber. Foi aí que o Bodhisatta, o sábio conselheiro, entendeu que precisava fazer algo antes que o rei se deixasse morrer também. Mas repara, ele não foi lá pregar. Não chegou dizendo tudo é impermanente e supera, quem tá afogado em dor não escuta sermão.
Então ele usou outra coisa, ele usou uma cena, uma imagem, uma história capaz de furar a casca da dor por dentro. O sábio chamou um homem, e diante do rei começou a falar de coisas estranhas, de enigmas, de durezas da vida, e então fez uma pergunta que ficou famosa, a pergunta que dá nome a esse conto, o que é mais difícil de engolir, mais doloroso de carregar do que uma espada. Imagina a cena, um homem te atralizando, talvez, o gesto de engolir uma lâmina, e mesmo assim dizendo que aquilo era suportável, que aquilo passava, porque havia dores piores, e foi listando. Mais difícil que engolir uma espada, dizia, é a pessoa que promete e não cumpre, aquele que fala "eu te dou", e depois nega na cara dura.
Mais difícil ainda é a saudade de um desejo que a gente não consegue realizar de jeito nenhum, o querer que arde sem ter como ser saciado, e mais difícil que tudo, mais cortante que qualquer aço, é o amor por alguém que se foi. O coração que continua amando quem não está mais ali pra ser amado, o afeto que escorre por uma porta que fechou pra sempre, e quando o sábio disse isso, alguma coisa se moveu no rei. A primeira vez em sete dias, alguém tinha colocado em palavras a coisa exata que o estava matando por dentro. Não era loucura dele, não era fraqueza, era a dor mais antiga do mundo, a dor do amor que perdeu seu destino.
E ser nomeado, ser compreendido, ser olhado de frente sem julgamento, isso afrouxou o nó. O rei chorou, chorou de verdade, e o choro foi remédio, porque ele não estava chorando sozinho mais. Aos poucos, ele se levantou, aos poucos, deixou que cuidassem do corpo da rainha como se cuida de quem já partiu. Aos poucos, voltou a comer, a respirar, a viver. O sábio tinha trazido o rei de volta não arrancando o amor dele, mas dando ao amor um lugar onde pousar. Agora repara no que esse conto está dizendo, porque ele fala diretamente com a gente. A virtude aqui é dupla, é a compaixão que sabe esperar, a meta que não empurra, e é a sabedoria que entende que toda dor precisa primeiro ser reconhecida antes de poder ser solta.
O Bodhisatta não disse ao rei para de sentir. Ele disse no fundo, "eu vejo o que você sente, e isso que você sente é a coisa mais difícil que existe". E só depois de ser visto é que o rei conseguiu caminhar. E olha como a gente hoje faz o contrário. A gente tem uma pressa danada com a dor dos outros e com a nossa. Alguém perde alguém, e em três dias já tem gente dizendo você precisa virar a página. A gente trata o luto como um problema de produtividade, uma pendência a resolver, manda mensagem de "fica bem" e "some" ou "pior", quando a dor é nossa, a gente engola e finge que passou, posta foto sorrindo, e por dentro continua deitado ao lado de um corpo que já foi.
A gente aprendeu a esconder a espada que engoliu, e o conto está dizendo, com toda a delicadeza, que dor escondida não é dor curada, que o amor que perdeu o endereço não some porque a gente manda ele sumir, ele só encontra paz quando alguém, nem que seja a gente mesmo, tem a coragem de olhar pra ele e dizer "eu sei, isso dói mesmo, isso é das coisas mais difíceis que há, aqui vai uma coisa pra hoje". Pensa em alguém que você conhece que está carregando uma perda, um luto, uma decepção amorosa, uma dor que não passa, em vez de oferecer a solução rápida, em vez do vai ficar tudo bem, faz o que o sábio fez, dá nome a dor dela.
Fiz algo como deve ser muito difícil sentir isso, eu imagino o tamanho disso pra você, e depois fica calado, fica junto, sem pressa de consertar, e se a dor for sua, faz o mesmo consigo, para um instante, põe a mão no peito e admite, sem vergonha, que aquilo dói, porque, como esse conto anticuíssimo ensina, é justamente quando a gente para de fugir da espada engolida que ela, enfim, começa a sair.