Imagina que o rei te chama, te coloca diante de um telhado pontudo, cheio de telhas empilhadas uma em cima da outra, e te pergunta, assindo nada, por que esse telhado não desabar, o que segura tudo isso lá em cima. E imagina que a resposta a essa pergunta boba, sobre telha, seja na verdade a coisa mais importante que um rei precisa entender para governar bem. É exatamente isso que acontece nesse conto. Uma pergunta sobre o teto da casa vira uma lição sobre justiça que o rei nunca mais esqueceu. Deixe-o te contar, esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, ainda estava no longo caminho de se tornar Buda, e nascia hora como homem, hora como bicho, sempre carregando alguma virtude que a gente precisa aprender.
Nessa vida aqui, ele nasceu como conselheiro do rei, um homem sábio, daqueles que sabem que a verdade às vezes precisa entrar pela porta dos fundos, disfarçada de perguntas simples. Naquele tempo, reinava em Benares um rei que tinha tudo para ser bom, mas tinha caído numa armadilha que pega muito governante. Ele tinha começado a governar pelo prazer, e não pela retidão, cobrava impostos pesados, espremia o povo como quem espreme uma fruta, gastava o que era do reino em festa e luxo, e quando alguém vinha a reclamar de uma injustiça, ele decidia conforme o humor do dia, conforme quem tinha pago mais, conforme a cara do sujeito.
A balança da justiça, na mão dele, pendia sempre para o lado mais conveniente. O Bodhisatta, o futuro Buda, era o conselheiro desse rei, e ele via aquilo tudo doendo por dentro. Via o Camponês perder a terra numa sentença torta, via o Mercador Honesto sair perdendo para o espertalhão que tinha amigos no palácio, e ele sabia que dizer ao rei, na lata, majestade, o senhor está sendo injusto, não ia funcionar. Reis poderosos não gostam de ouvir isso, quem fala sim costuma perder a cabeça antes de terminar a frase, então ele esperou. Esperou a hora certa, o jeito certo, e a hora chegou num dia comum.
O rei estava passeando pelo jardim, de bom humor, e parou junto a uma construção. Olhou para cima, para o telhado do pavilhão, todo arrematado com sua comeira pontuda, as telhas perfeitamente encaixadas. Por algum motivo, aquilo lhe chamou a atenção, e ele se virou para o conselheiro e perguntou, meio por curiosidade, meio por brincadeira, me diga sábio, esse telhado todo, esse pico aqui em cima, como é que ele se sustenta, o que segura essa estrutura inteira no ar. O Bodhisatta sentiu, ali que o momento tinha chegado, e respondeu com calma. Majestade, repara bem, esse telhado tem duas partes que importam, tem a comeira, o pico, a peça de cima, que parece reinar sobretudo, e tem as ripas, as travessas, todas aquelas peças que ficam embaixo, encostadas umas nas outras, sustentando o peso.
O que o povo vê, quando olha para casa, é o pico lá no alto. Mas o que realmente segura o telhado são as ripas de baixo. Se as ripas estiverem firmes e bem apoiadas, a comeira fica no lugar dela, segura, por muito e muito tempo, mas se as ripas se afrouçam, se elas perdem o apoio, se elas começam a ceder, aí o pico, por mais imponente que seja, desce, vem tudo abaixo. A comeira cai junto com as ripas. O rei ouviu aquilo e franziu a testa, porque sentiu que não estava ouvindo só sobretelhado, e o Bodhisatta continuou, agora olhando o rei nos olhos. Majestade, o reino é esse telhado. O senhor é a comeira, o pico que todos veem.
E o povo, os súditos, os camponeses, os mercadores, os pobres da estrada, esses são as ripas. São eles que sustentam o senhor lá no alto. Enquanto o rei governa com retidão, enquanto trata o povo com justiça, as ripas ficam firmes e o rei se mantém. Mas quando o rei oprime o povo, quando espreme, quando julga torto e cobra demais, é como afrouchar as ripas uma por uma. E um reino sem ripas firmes não fica de pé. O pico cai, sempre cai, ouviu um silêncio. Daqueles silêncios que valem por um reinado inteiro, e o rei, que não era um homem mau, era só um homem que tinha se perdido baixou os olhos, entendeu, entendeu que estava cerrando, com as próprias mãos, a madeira que o sustentava.
E ali, naquele jardim, diante de um telhado qualquer, ele resolveu mudar, aliviou os impostos, mandou rever as sentenças injustas, passou a julgar com a balança no fio sem pender pra ninguém. Voltou a governar pelas dez virtudes do bom rei, a generosidade, a conduta correta, a renúncia, a honestidade, a brandura, o domínio de si, a paciência, a ausência de raiva, a não violência e a aceitação do que o povo precisa. E o reino, que estava arranjando, voltou a ficar firme. As ripas seguraram, o pico ficou no lugar. Agora, repara no que esse conto está dizendo, porque ele não é só sobre reis antigos, a gente vive num tempo que adora o pico do telhado, a gente olha pra quem está no topo, o chefe, o influente, o poderoso, a celebridade, e acha que é aquela pessoa que sustenta tudo, e a gente quase nunca repara nas ripas, nas pessoas de baixo que carregam o peso, o entregador, a faxineira, o atendente, o trabalhador anônimo que faz a engrenagem girar.
E tem mais, cada um de nós, no nosso cantinho de poder, por menor que seja, na família, no trabalho, num grupo, vive a tentação do rei, a tentação de usar a posição pra própria vantagem, depender a balança pro lado que me convém, diz premer quem está embaixo achando que isso me deixa mais forte. O conto avisa, com toda a gentileza budista, não deixa, quem aperta as ripas está derrubando o próprio teto. A justiça não é favor que a gente faz pros outros, é a estrutura que segura a gente mesmo. Aqui vai uma coisa pra hoje. Pensa numa situação em que você tem algum poder sobre outra pessoa, qualquer um que dependa de uma decisão sua, pode ser pequeno, um voto, uma nota, uma escala, uma palavra, e antes de decidir, faz a pergunta do telhado, essa decisão está afirmando as ripas, ou está afrouxando elas pra eu parecer maior lá no alto.
Escolhe firmar, porque o pico só fica de pé enquanto a base aguenta, e a base só aguenta enquanto for tratada com justiça.