Um homem sozinho, no escuro, do lado de um rio, e do nada, no meio da noite, alguém o agarra e começa uma luta, corpo a corpo, os dois rolando na terra, no escuro, sem que ele saiba quem é o outro, e essa luta dura a noite inteira, até o sol começar a nascer. Quem é esse estranho? E por que essa é uma das cenas mais misteriosas de toda a Bíblia? Deixa eu te contar, você lembra do Jacó, aquele que enganou o irmão fugiu de casa, trabalhou anos para o sogro e agora estava voltando para a terra dele. E lembra que o irmão dele, o Ezaú, estava vindo na direção dele com 400 homens, e o Jacó estava morrendo de medo de que o irmão viesse para se vingar.
Pois é. Essa noite que eu vou te contar acontece bem aí. Na véspera, na noite antes do reencontro, mais assustador da vida dele. O Jacó estava com a família perto de um rio, um rio chamado Jabóki, e no meio da noite ele levantou, pegou as esposas, os filhos, tudo o que tinha, e mandou todos atravessar em o rio para o outro lado. E aí o texto diz uma frase pequena, mas que pesa. Diz, e Jacó ficou sozinho, sozinho, de um lado do rio, no escuro, com a família já do outro lado. Na pior noite da vida dele, com medo apertando o peito, ele ficou completamente só, e pensa no estado dele. No dia seguinte, ao amanhecer, ele ia encontrar o irmão que jurou matá-lo.
Ele já tinha mandado presentes na frente, já tinha rezado, já tinha feito tudo o que dava para se proteger. Agora só restava esperar o sol nascer, sozinho, com o medo, no escuro. E foi nesse momento que aconteceu, um homem apareceu, e começou a lutar com o Jacó. O texto não explica de cara quem é. Só diz um homem, e os dois começaram a lutar, corpo a corpo, agarrados, rolando ali na beira do rio. E essa luta não acabou rápido, durou a noite inteira. Hora após hora, no escuro, os dois presos, um no outro, nenhum dos dois cedendo. E aí o texto diz uma coisa impressionante. Quando o homem viu que não conseguia vencer o Jacó, repara, ele não conseguia vencer, ele só tocou na articulação do quadril do Jacó.
Um toque, e deslocou o quadril dele ali na hora. Com um toque, esse estranho machucou o Jacó de um jeito que ele ia carregar para o resto da vida. O que mostra uma coisa, esse homem podia ter encerrado a luta a qualquer momento. Ele estava segurando a força. E aí, com o céu começando a clarear, o homem disse, "Me deixa ir, porque o dia já vem rayando". E olha o que o Jacó responde. Mancando com o quadril deslocado, exausto depois de uma noite inteira, ele agarra o homem e diz, "Eu não te deixo ir enquanto você não me abençoar". Pensa nessa cena. O Jacó está machucado, está no limite, e mesmo assim ele se agarra e diz, "Eu não solto enquanto você não me abençoar".
Esse homem que passou a vida arrancando benção na marra, uma roubada do irmão, lá atrás agora se agarra na benção de novo. Mas dessa vez é diferente. Dessa vez ele não está enganando ninguém. Ele está só, segurando, com tudo o que sobrou dele. E o homem pergunta uma coisa estranha. Qual é o seu nome? Ele responde, "Hakó". Esse nome, Jacó, tem um significado, quer dizer mais ou menos aquele que segura pelo calcanhar, ou o que toma o lugar do outro, o enganador. Era o nome que combinava com a vida toda dele. A vida de quem pegava na marra, de quem dava um jeitinho, de quem enganava.
E aí o homem diz uma frase que muda tudo. Ele diz, "O seu nome não vai mais ser Jacó". De agora em diante você se chama Israel, porque você lutou com Deus e com os homens, e venceu Israel para nesse momento. O homem diz, "Você lutou com Deus". Aí o Jacó entende com quem ele passou a noite inteira lutando. Não foi com um bandido qualquer no escuro, foi com Deus. Esse nome novo Israel quer dizer mais ou menos aquele que luta com Deus, aquele que persiste com Deus. Não é mais o enganador, é o que segurou firme e não soltou. E repara, esse vai ser o nome do povo inteiro que nasce desse homem, Israel.
O povo carrega no próprio nome a marca de uma noite de luta. O Jacó perguntou, "Me diz o teu nome". Mas o homem não respondeu. Só o abençoou ali mesmo. E foi embora. E o Jacó deu um nome aquele lugar, um nome que quer dizer o rosto de Deus, porque ele disse, "Eu vi a Deus face a face e mesmo assim a minha vida foi poupada". E aí vem o último detalhe, o detalhe que para mim diz tudo. O texto diz que o sol nasceu sobre ele enquanto ele atravessava o rio, e ele estava mancando. Por causa do quadril, pensa nessa imagem. O sol nascendo, uma noite inteira terminada, um homem novo com um nome novo, indo encontrar o irmão.
E ele está mancando. Ele saiu daquela luta com uma benção e com uma ferida. As duas coisas, no mesmo corpo, para sempre. Ele não saiu inteiro, ele saiu marcado, mas saiu abençoado. Eu fico pensando muito nessa história, porque ela é estranha demais para ser uma fábula bonitinha. Deus aparece e luta, corpo a corpo, a noite inteira, e não vence fácil um homem. E eu acho que é exatamente aí que mora a beleza dela. Repara, o Jacob passou a vida fugindo e enganando, sempre dando um jeitinho, sempre escapando, sempre por baixo, e chega uma noite em que ele não foge. Ele fica sozinho e enfrenta.
A noite inteira, sem soltar, tem uma ideia silenciosa e fundo aqui, tem coisas na vida da gente que a gente não resolve fugindo. Tem noites, uma dor, uma decisão, um medo, uma verdade sobre quem a gente é que a gente só atravessa ficando, encarando, mesmo machucado, mesmo sem entender quem é o outro lado. E o que me toca é que o Jacob saiu daquela luta de dois jeitos ao mesmo tempo, com um nome novo, um homem transformado, e com um manco mamarca que ele ia carregar para sempre. Como se o texto dissesse, as lutas mais importantes da sua vida talvez não te deixem inteiro, mas é nelas, e só nelas, que você vira outra pessoa.
A bênção e a ferida vieram da mesma noite, do mesmo abraço, não dá para separar uma da outra, e olha uma coisa linda. Logo de manhã, depois dessa noite, é que o Jacob vai encontrar o irmão, e o reencontro vai ser de abraço e choro, não de guerra. É como se ele só tivesse conseguido encarar o irmão de frente depois de encarar a si mesmo. E adeus, naquela noite no escuro, aqui vai uma coisa para hoje. Pensa numa coisa que você vem evitando, uma conversa difícil, uma verdade sobre você que você não quer olhar, um medo que, toda vez que aparece, você muda de assunto na sua própria cabeça.
E hoje, em vez de fugir, fica com ela, só cinco minutos, senta em silêncio e deixa essa coisa difícil aparecer, sem desviar, sem resolver na marra, só ficar, encarar. O Jacob virou Israel na noite em que parou de fugir e ficou. E saiu mancando, é verdade, mas saiu com um nome novo, e pela primeira vez na vida pronto para olhar o irmão nos olhos.