José e a túnica de muitas cores · Gênesis 37:1–36

A Biblia · Temporada 1 · Episódio 30 de 37 — em ordem cronológica

Você se acha imune ao ciúme? Cuidado: ele não explode, ele rasteja, justificando a escuridão que te leva a fazer o impensável.

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Transcrição

Imagina ser o filho preferido, o mais amado de todos. E descobrir que isso, em vez de te proteger, é justamente o que quase te mata. Essa é a história de um menino chamado José. E começa com um presente, um presente lindo, que vira uma das maiores tragédias do começo da Bíblia. Deixa eu te contar. José era filho de Jacó. Aquele mesmo Jacó que lutou à noite inteira e ganhou o nome Israel, algumas histórias atrás. Jacó teve 12 filhos, de mulheres diferentes, e entre todos esses filhos, tinha um que ele amava mais que os outros, José. E ele amava José por um motivo simples e meio triste.

José tinha nascido quando Jacó já era velho, era o filho da velhice, e era filho da mulher que Jacó mais tinha amado na vida. Agora, o problema não é amar um filho, o problema é deixar todo mundo ver que você ama um mais que os outros. E Jacó não escondia. Pelo contrário, ele fez uma coisa que botou fogo em tudo. Ele mandou fazer uma túnica especial para José, uma roupa cumprida, bonita, diferente, o tipo de roupa que ninguém mais na família tinha, uma roupa que dizia sem precisar falar. Este aqui é o meu favorito, e os irmãos viram. O texto é bem direto sobre isso. Diz que quando os irmãos perceberam que o pai amava José mais do que a todos eles, eles passaram a odiar José, a ponto de não conseguirem falar com ele de forma amigável.

Nenhuma palavra boa pensa nesse clima dentro de casa, 11 irmãos olhando torto para um todo dia, por causa de uma roupa que não era nem culpa do menino. E aí José faz uma coisa que só piora tudo. Ele tem um sonho e conta o sonho para os irmãos. Ele diz, olha, eu sonhei que a gente estava no campo amarrando feixes de trigo, e aí o meu feixe se levantou e ficou em pé, e os feixes de vocês ficaram em volta e se curvaram para o meu, para e imagina a cara dos irmãos ouvindo isso. Eles responderam furiosos. Então é isso? Você vai reinar sobre nós? Você vai mandar na gente? E o texto diz que eles passaram a odiar José ainda mais, por causa dos sonhos, por causa das palavras, e José nem aprende com a reação.

Ele tem outro sonho e conta de novo. Dessa vez ele diz que sonhou com o sol, a lua e 11 estrelas se curvando para ele. E agora até o país estranha. Jacó pergunta, que sonho é esse? Eu, a sua mãe e os seus irmãos, vamos chegar e nos curvar até o chão diante de você? Os irmãos ficaram com inveja, mas o pai, o pai guardou aquilo no coração, como quem anota uma coisa que ainda não entende, mas pressente que importa, e aí chega o dia. Os irmãos tinham ido cuidar dos rebanhos longe de casa, e Jacó chamou José e disse, vai lá ver como os seus irmãos estão e me traz notícia. Então José vestiu aquela túnica claro que vestiu e foi atrás dos irmãos, e quando os irmãos viram ele chegando de longe, antes mesmo dele se aproximar, eles começaram a conspirar para matá-lo.

Eles disseram um para o outro, olha lá o sonhador chegando, vamos matar ele, jogar num poço e dizer que um animal selvagem devorou, aí a gente vai ver no que dão os sonhos dele. É de arrepiar. 11 irmãos planejando matar o caçula, por causa de ciúme, mas teve um deles, o mais velho, chamado Ruben, que não quis ir até esse ponto. Ruben falou, não gente, não vamos derramar sangue, joga ele no poço aqui do deserto, mas não põe a mão nele. Ruben falou isso pensando em voltar depois, escondido, e tirar José do poço para devolver ao pai. Os irmãos concordaram com a parte do poço, então, quando José chegou, eles arrancaram a túnica dele, aquela túnica linda, a túnica que era o símbolo de tudo, e jogaram o menino num poço seco, sem água no fundo, e aí, repara nessa imagem, porque ela é cruel.

Depois de jogar o próprio irmão no fundo de um buraco, eles sentaram para comer, sentaram e comeram, como se nada estivesse acontecendo, e enquanto eles comiam, viram uma caravana de mercadores passando ao longe, comerciantes indo para o Egito, com camelos carregados de especiarias, e aí um dos irmãos o judar teve uma ideia, ele disse, qual a vantagem de matar o nosso irmão e esconder o sangue dele, vamos vender ele para os mercadores. Afinal, ele é nosso irmão, nossa própria carne, e os outros concordaram. Então eles tiraram José do poço e venderam ele, para um bando de estranhos, por 20 moedas de prata, o preço de um escravo, e os mercadores levaram José embora, para o Egito, para longe de tudo o que ele conhecia.

Quando Ruben voltou ao poço, depois, para resgatar o menino em segredo, o poço estava vazio. Ele rasgou as próprias roupas de desespero, e disse, o menino sumiu, e agora o que eu vou fazer? E aí, vem a parte mais fria de toda a história. Os irmãos pegaram aquela túnica, mataram um bode, e mergulharam a túnica no sangue do animal. Levaram a roupa ensanguentada para o pai e disseram, a gente achou isso. Olha bem, é a túnica do seu filho? Já corre e conheceu na hora, e concluiu o que eles queriam que ele concluisse. Um animal selvagem devorou o José, meu filho foi despedaçado, e o velho rasgou as próprias roupas, se vestiu de luto, e chorou pelo filho por muitos e muitos dias.

Os outros filhos vinham tentar consolar, mas eram exatamente eles que tinham causado a dor. Olha o tamanho da mentira que tiveram que carregar, e já codisse uma frase que parte o coração. Ele disse, vou descer até a sepultura chorando pelo meu filho. Enquanto isso, lá longe, no Egito, José estava sendo vendido de novo, para um homem importante, um oficial do faraó. E é aí que o capítulo para, com o pai chorando um filho que não morreu, e o filho, vivo, escravizado num país estranho. Eu fico pensando muito nessa história, porque é fácil olhar pros irmãos e dizer, que monstros. E eles fizeram uma coisa monstruosa, sem dúvida.

Mas repara como tudo começou, não começou com ódio, começou com uma comparação. Um pai que amou um filho de um jeito que fez os outros se sentirem menos. O ciúminão nasceu grande. Ele foi crescendo, em silêncio, alimentado todo dia por uma túnica, um olhar, um tratamento diferente, até virar uma coisa capaz de jogar um irmão num buraco. E o que mais me toca é perceber como ninguém ali achava que era um monstro. Eles achavam que tinham um motivo, eles se sentiam preteridos, esquecidos, em segundo lugar. Quando a gente se sente assim, é assustador o que a gente é capaz de justificar para si mesmo.

O ciúmino tem isso. Ele não bate de uma vez. Ele se acomoda devagar e vai te convencendo aos pouquinhos de que a sua amargura é justa. Aqui vai uma coisa para hoje. Pensa numa pessoa que, sem querer, você anda comparando com você, alguém que tem algo que você queria ter, um reconhecimento, um talento, uma vida que parece melhor. E hoje, só por hoje, em vez de alimentar essa comparação, repara numa coisa boa de verdade nessa pessoa. Uma só. E se der, fala para ela. Não para ser santo, mas porque o ciúmino cresce no escuro, no silêncio de quem só fica olhando e remoendo. E uma palavra sincera, dita em voz alta, é uma das poucas coisas que conseguem cortar esse ciclo antes dele crescer.

Os irmãos de Josef ficaram anos só remoendo. E olha onde isso foi parar.