José no Egito — da escravidão à prisão · Gênesis 39:1–40:23

A Biblia · Temporada 1 · Episódio 31 de 37 — em ordem cronológica

Fazer a coisa certa deveria garantir uma vida boa. Mas e se a recompensa por sua virtude for a traição, a prisão e o esquecimento?

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Transcrição

Tem uma coisa que ninguém te conta sobre fazer a coisa certa. Às vezes você faz tudo certo e a vida te pune mesmo assim. Essa é a história de um homem que foi honesto, fiel, trabalhador e que justamente por causa disso foi parar na prisão. O nome dele é José. Deixa eu te contar onde a gente parou. José tinha sido o filho preferido do pai. E por causa disso, os próprios irmãos venderam ele como escravo. Ele foi levado para o Egito, um país estranho, longe de tudo, sem família, sem nada. E é nesse fundo do poço que a história continua. No Egito, José foi comprado por um homem importante, um oficial chamado Potifar, capitão da guarda do faraó.

José virou escravo na casa desse homem. Agora repara no que o texto diz. Logo de cara, ele diz que o senhor estava com José e que por isso tudo o que José fazia dava certo. E o detalhe é lindo, o dono da casa, o Potifar, percebeu isso. Não que ele entendesse de Deus, mas ele via com os próprios olhos que aquele rapaz tinha alguma coisa diferente. Tudo o que José tocava prosperava. Então Potifar foi confiando. Primeiro uma tarefa, depois mais, até que entregou a casa inteira nas mãos de José. Tudo, as contas, os bens, os outros servos. Potifar nem se preocupava com nada, só com a comida que ele mesmo ia comer.

O resto José cuidava. Olha a virada. Um escravo, vendido pelos irmãos, agora administrava a casa de um dos homens mais poderosos do Egito. E o texto faz questão de dizer uma coisa sobre José. Ele era bonito, bem apessoado, atraente. E é exatamente aí que o problema começa. A esposa de Potifar reparou em José e começou a insistir com ele. Dia após dia, ela dizia a mesma coisa. Deita comigo. E José dizia não, mas não dizia um não qualquer. Ele explicava. Ele dizia, olha, o meu senhor confia em mim a ponto de me entregar tudo o que ele tem. Ele não me negou nada nesta casa, a não ser você, porque você é a esposa dele.

Como é que eu poderia fazer uma maldade dessas e pecar contra Deus? Repara na cabeça desse homem. Ele não pensa só, eu vou ser pego. Ele pensa na confiança que receberam e pensa em Deus. Mesmo sozinho, longe da família, escravo num país estranho. Ele se segura por uma coisa que ninguém estava vendo, mas a mulher não desistia. Todo santo dia, a mesma pressão. E José todo dia dava um jeito de não ficar nem perto dela. Até que um dia José entrou na casa para trabalhar e por acaso não tinha mais ninguém ali dentro. Só os dois. E ela agarrou ele pela roupa e disse de novo, deita comigo.

E José fez a única coisa que dava para fazer. Ele largou a roupa na mão dela e correu, correu para fora de casa. Mas a roupa ficou. E aquela mulher humilhada com a roupa de José na mão virou tudo de cabeça para baixo. Ela chamou os outros servos e mentiu, disse, olha o que esse escravo veio fazer. Ele veio me atacar. E quando eu gritei, ele fugiu e deixou a roupa aqui. Ela guardou a roupa. E quando Potifar chegou em casa, contou a mesma mentira para ele. Olha o que o seu escravo tentou fazer comigo. Potifar ficou furioso e mandou José para a prisão, a prisão onde ficavam os presos do rei.

Olha e pensa no que aconteceu aqui. José foi vendido pelos irmãos, recomeçou do zero, foi honesto, foi fiel, recusou fazer o errado mesmo quando ninguém ia saber. E a recompensa por tudo isso foi a cadeia, é de revoltar. E o texto não esconde isso, mas olha a frase que aparece de novo no meio da masmorra. A mesma frase do começo, o texto diz, mas o senhor estava com José, de novo, no fundo da prisão. A mesma frase e de novo acontece a mesma coisa. O carcereiro, o homem que cuidava da prisão, foi reparando em José, viu que tudo o que ele fazia dava certo e foi confiando até que entregou os outros presos todos nas mãos de José.

O carcereiro não se preocupava com nada que estivesse sob a responsabilidade de José. Olha que coisa. Na casa de Potifar, José subiu de escravo a administrador. Agora na prisão, ele faz a mesma coisa de novo. Do fundo do buraco ele volta a se levantar, e aí entram dois personagens novos, dois funcionários importantes do faraó, o chefe dos copeiros, o homem que servia à bebida do rei e o chefe dos padeiros, o homem que cuidava do pão do rei. Os dois tinham caído em desgraça e foram parar na mesma prisão de José, e numa mesma noite os dois tiveram sonhos, sonhos estranhos, vívidos que os deixaram angustiados.

De manhã José reparou nos dois cabis baixos e perguntou "por que essa cara hoje?" Eles disseram "a gente sonhou, e não tem ninguém aqui para explicar o que os sonhos significam", e José respondeu uma coisa importante. Ele disse "as interpretações não pertencem a Deus, conta os sonhos para mim, repara, ele não disse eu sou genial, eu descifro os sonhos", ele apontou para cima, disse que quem dá o sentido é Deus. O copeiro contou primeiro, ele sonhou com uma videira de três ramos, que brotou, floresceu e deu uvas, e ele espremeu as uvas no copo do faraó. José disse "os três ramos são três dias, em três dias o faraó vai te restaurar ao seu cargo e você vai servir a bebida para ele de novo como antes", e aí José fez um único pedido.

Ele disse "quando isso acontecer, quando você estiver bem de novo, lembra de mim, fala de mim para o faraó, me tira desta prisão, porque eu fui tirado à força da minha terra, e aqui também não fiz nada para merecer ser jogado nesta masmorra". O padeiro, vendo que a interpretação tinha sido boa, contou o dele também. Sonhou que carregava três cestos de pão na cabeça, e as aves vinham comer o pão do cesto de cima, mas o sonho do padeiro não tinha um final bom. José contou a verdade, mesmo sendo difícil. Ele disse "os três cestos são três dias, mas em três dias o faraó vai tirar a tua cabeça e o teu corpo vai ficar exposto e as aves vão comer a tua carne, imagina ter que dizer uma coisa dessas para um homem".

E aconteceu exatamente como José falou. Três dias depois era o aniversário do faraó, ele fez uma grande festa e no meio da festa mandou chamar os dois, restaurou o copeiro ao cargo e mandou matar o padeiro, tudo certinho. Como José tinha dito, e aí vem a última frase do capítulo, uma das frases mais tristes dessa parte toda da Bíblia. O texto diz "mas o chefe dos copeiros não se lembrou de José, esqueceu dele, esqueceu, José tinha pedido uma única coisa, lembra de mim". E o homem que ele ajudou, assim que voltou à boa vida, esqueceu dele completamente, e José ficou na prisão, esquecido, por mais dois anos.

E aí que o capítulo pará, eu fico pensando muito nessa história, porque ela mexe com uma coisa que machuca de verdade, a ideia de que ser bom deveria te garantir uma vida boa, de que se eu fizer tudo certo, o universo me deve uma recompensa, e José fez tudo certo, e foi vendido, mentido, preso e esquecido, mas tem um detalhe que muda o jeito de olhar para tudo isso. Aquela frase que volta e volta e volta, o senhor estava com José na casa do potifar, na prisão, no esquecimento, o texto não diz que a vida do José ficou fácil, não diz que ele foi poupado da injustiça, diz uma coisa diferente e mais funda, que ele nunca esteve sozinho dentro dela, e olha o que José fez com isso, em todo lugar onde ele caiu, ele não ficou amargo esperando a vida melhorar, ele se levantou e fez o melhor ali mesmo, cuidou da casa, cuidou da prisão, ajudou dois estranhos, mesmo sem garantia nenhuma de que ia dar em alguma coisa, e não deu, pelo menos não na hora, o homem esqueceu dele, mas José plantou mesmo sem ver a colheita, e isso lá na frente vai mudar a história de um país inteiro, só que ele ainda não sabe disso.

Aqui vai uma coisa pra hoje, pensa numa situação na sua vida em que você fez a coisa certa, ou se dedicou de verdade e ninguém reconheceu, ninguém agradeceu, talvez até te prejudicaram por isso, e hoje, em vez de usar isso como motivo pra parar de se importar, faz uma coisa pequena bem feita, sem ninguém pra ver, sem ninguém pra aplaudir, não porque vão te recompensar, talvez não recompensem mesmo, mas porque o tipo de pessoa que você se torna fazendo o certo no escuro, isso ninguém tira de você, José não sabia que o esquecimento dele ia durar só mais dois anos, ele só continuou sendo quem era, mesmo na cela, mesmo esquecido.