Um homem foge no meio da noite, com a família inteira, os filhos, os animais, tudo, e ele não tá fugindo de um estranho, tá fugindo do próprio sogro. E pior, lá na frente do caminho, esperando por ele, tá o irmão que jurou matá-lo, vindo na direção dele, com 400 homens armados. Ele tá entre dois perigos. E não tem pra onde correr? Deixa eu te contar como isso terminou. Você lembra do Jacó, aquele que fugiu de casa, foi morar com o tio Labão, trabalhou 14 anos, casou com as duas irmãs e teve um monte de filhos. Pois é, passaram mais alguns anos. E o Jacó ficou rico, muito rico, rebanhos enormes, criados, camelos, jumentos, tudo isso ele construiu trabalhando pro Labão.
Só que o Labão era esperto, aquele mesmo que tinha trocado as filhas no escuro. Durante todos esses anos, ele mudou o salário do Jacó umas dez vezes, sempre puxando pro lado dele, sempre tentando levar vantagem. E os filhos do Labão começaram a falar mal do Jacó. Diziam, esse aí ficou rico em cima do que era do nosso pai. E o próprio Labão começou a olhar pro Jacó com cara feia. O clima na casa asedou. E foi aí que Deus falou com o Jacó, disse, volta pra terra dos seus pais, pra sua família, eu vou estar com você. A mesma promessa de sempre. Eu estou com você. Então Jacó chamou as duas esposas, a Raquel e a Lia, conversou com elas, e elas concordaram, disseram, nosso pai já nos tratou como estranhas mesmo.
Vamos embora. E eles fugiram. Aproveitaram o momento em que o Labão tinha viajado pra tosquear as ovelhas, juntaram tudo e partiram as escondidas. Toda a família, todos os animais, tudo o que tinham, atravessando o deserto na direção de casa, levou uns dias pro Labão descobrir. Quando soube, ele juntou os homens dele e saiu no encalço correndo atrás. Levou sete dias pra alcançar, mas na noite antes de alcançar, Deus apareceu pro Labão num sonho e avisou, cuidado com o que você vai dizer pro Jacó, nem pra bem, nem pra mal, não encosta nele. Então quando o Labão finalmente chegou, ele tava bravo, mas de mãos atadas.
Ele reclamou, por que você fugiu escondido, por que não me deixou nem beijar meus netos e minhas filhas pra me despedir? E os dois tiveram uma discussão grande, anos de mágoa vindo à tona. Mas no fim, em vez de brigar até o sangue, eles fizeram uma coisa diferente. Eles fizeram um acordo de paz, juntaram um monte de pedras, levantaram ali no meio do caminho como um marco, e combinaram. Essa pilha de pedras é a fronteira entre nós dois. Eu não passo pro seu lado pra te fazer mal, e você não passa pro meu, que Deus vigia entre você e eu quando a gente estiver longe um do outro. E de manhã, o Labão beijou os netos e as filhas, abençoou todo mundo e voltou pra casa.
O perigo resolvido, mas tinha o outro, porque agora o Jacó seguia em frente. E em frente, na terra pra onde ele estava indo, morava o Ezaú, o irmão, aquele que tinha jurado matá-lo. Vinte anos tinham passado desde a benção roubada. Mas vinte anos cicatrizam o ódio, o Jacó não sabia. Então ele mandou mensageiros na frente pra avisar o Ezaú que ele tava voltando e pra tentar fazer as pazes. Os mensageiros voltaram com uma notícia que gelou o coração dele. Disseram, o seu irmão Ezaú tá vindo te encontrar. E ele tá com quatrocentos homens, quatrocentos homens. O Jacó ficou apavorado, com medo de verdade.
Ele dividiu a família e os rebanhos em dois grupos, pensando, se o Ezaú atacar um grupo, pelo menos o outro escapa. E aí ele fez uma coisa que eu acho linda. Ele orou. Ele falou com Deus uma oração honesta, sem fingir ser melhor do que era. Ele disse, Senhor, eu não mereço nada de toda a bondade que você teve comigo. Eu atravessei esse rio só com um cajado na mão. E hoje eu voltei com tudo isso. Me livra da mão do meu irmão, porque eu tenho medo dele. Tenho medo que ele venha e mate as mães e os filhos. E ele preparou um presente. Um presente enorme. Centenas de animais cabras, ovelhas, camelos, vacas, jumentos.
E mandou na frente, em grupos separados, um atrás do outro. A ideia era que quando o Ezaú fosse chegando, ele ia encontrando presente e atrás de presente. E o coração dele ia amolecendo aos poucos. E aí chegou o dia. O Jacó olhou para frente. E lá vinha o Ezaú, com os quatrocentos homens. O Jacó pôs a família atrás dele e foi na frente. E fez uma coisa de quem estava com medo e arrependido. Ele se curvou até o chão, sete vezes, indo na direção do irmão. Imagina a tensão dessa cena. Os dois irmãos, separados por vinte anos de mágoa e medo, se aproximando no campo. Um esperando, talvez, a espada.
E aí o texto descreve o que o Ezaú fez. O Ezaú correu. Mas não correu para atacar. Ele correu para abraçar. O texto diz. Ezaú correu ao encontro dele e o abraçou e se lançou no pescoço dele e o beijou. E os dois choraram. Os dois irmãos, abraçados, chorando no meio do campo. O ódio de vinte anos atrás tinha ido embora. O Ezaú perguntou sobre as crianças, sobre as esposas. Quis até recusar o presente. Diz-se. Eu já tenho muito, irmão. Guarda o que é seu. Mas o Ezaú insistiu. E disse uma frase que mostra como ele estava se sentindo. Ele disse. Ver o seu rosto foi como ver o rosto de Deus.
De tão bem que você me recebeu. Os dois se reconciliaram. E depois cada um seguiu o seu caminho em paz. O Ezaú atravessou. Chegou o são e salvo numa terra. Comprou um pedaço de campo, armou as tendas e construiu ali um altar. Estava em casa, vivo, com a família inteira e em paz com o irmão. Eu fico pensando muito nessa história, porque o Jacob passou a vida inteira fugindo. Fugiu do irmão. Fugiu do sogro. Sempre escapando. Sempre por baixo. Sempre com medo de alguém vir cobrar. E o que mais me marca é o medo dele antes de reencontrar o Ezaú. Aquele medo é tão real. Ele passou anos imaginando o pior, imaginando o irmão chegando com a espada, 400 homens.
A família morta, ele tinha certeza de que ia ser uma catástrofe. E aí o irmão chega correndo para abraçar. Tem uma coisa silenciosa e poderosa aqui. Quantas vezes a gente carrega por anos o medo de uma conversa, de um reencontro, de um perdão que a gente acha que nunca vai vir? A gente ensaia o pior na cabeça. A gente quase já sente a espada e às vezes nem sempre, mas às vezes quando a hora chega, a pessoa do outro lado também já cansou de carregar aquilo. E em vez da briga que você esperou por anos, vem um abraço, o reencontro que o Jacob mais temia, virou o momento em que ele disse que viu o rosto de Deus.
Aquilo que ele achou que seria o fim foi na verdade uma cura. Aqui vai uma coisa para hoje. Pensa numa pessoa de quem você está meio afastado. Alguém com quem ficou uma mágoa antiga, uma coisa mal resolvida. E pensa em como você talvez já tenha imaginado o pior sobre como seria falar com ela de novo. E hoje dá um passo pequeno na direção dessa pessoa. Não precisa resolver tudo, só um gesto, uma mensagem curta, um "oi" faz tempo, como o Jacob, que mandou os presentes na frente e foi se curvando com medo, mas foi. Às vezes o abraço que você acha impossível está te esperando do outro lado.
E a única forma de descobrir é dar o primeiro passo.