Jacó, Lia e Raquel — amor, trabalho e rivalidade · Gênesis 29:1–30:24

A Biblia · Temporada 1 · Episódio 27 de 37 — em ordem cronológica

E se a pessoa que você mais quer não te enxergasse? Essa é a história de uma mulher que parou de implorar por amor e descobriu ser vista por Outro.

▶ Ouvir o episódio

Transcrição

Um homem trabalha sete anos para poder casar com a mulher que ama. Sete anos inteiros, de graça, só para terela. Chega o dia do casamento. A festa, a noite, tudo. E na manhã seguinte ele acorda, olha para o lado e percebe que casou com a mulher errada. Essa história tem amor, trapaça e uma rivalidade entre duas irmãs que vai partir o seu coração. Deixa eu te contar. Você lembra do Jacó fugindo, sozinho, com o irmão querendo matá-lo? Ele estava indo para a terra do tio, um homem chamado Labão, bem longe. E ele chega numa região e encontra um poço no meio do campo com os pastores e rebanhos em volta.

Ele pergunta para os pastores, vocês conhecem o Labão? E eles dizem, conhecemos? Olha, aquela ali que vem chegando com as ovelhas é a Raquel, filha dele. E aí o Jacó via Raquel. E o texto não esconde o que aconteceu com ele. Ele se apaixonou na hora. Ele sozinho rolou a pedra enorme que tampava o poço, uma pedra que normalmente vários homens moviam juntos só para dar água ao rebanho dela. E aí ele beijou a Raquel e chorou alto de emoção. Labão recebeu o sobrinho de braços abertos. Jacó ficou morando com ele e trabalhando para ele. Depois de um mês Labão disse, você não vai trabalhar de graça só porque é meu parente.

Diz qual vai ser o seu salário. E o Jacó já sabia o que queria. Ele disse, eu vou te servir sete anos e em troca me deixa casar com a Raquel. Sete anos, por uma mulher. E o texto diz uma coisa linda. Diz que esses sete anos pareceram para ele só uns poucos dias de tanto que ele amava. Sete anos passaram voando porque ele estava trabalhando por amor. Chegou o dia. Jacó foi até o Labão e disse, cumpri o combinado. Me dá a minha esposa. Labão fez uma grande festa de casamento. Juntou todo mundo e a noite repara, a noite no escuro, com a noiva coberta por um véu. Como era o costume, Labão levou a moça para o Jacó.

Eu, o Jacó, dormiu, a chandoqueira, a Raquel. Mas de manhã, quando o sol nasceu, ele olhou para o lado. E não era a Raquel, era a Lia, a irmã mais velha. Labão tinha trocado as filhas no escuro. Jacó correu para o Labão revoltado. O que é isso que você fez comigo? Eu não trabalhei sete anos pela Raquel. Por que você me enganou e agora segura essa? Porque tem uma justiça meio assustadora aqui. Labão respondeu, aqui na nossa terra não se faz isso de dar a filha mais nova antes da mais velha. Pensa no que está acontecendo. O Jacó, lá no episódio passado, tinha se passado pelo irmão mais velho para roubar o que era do mais velho.

Tinha enganado o pai no escuro, fingindo ser outra pessoa. E agora ele mesmo é enganado, no escuro, por causa de um irmão mais velho que vem na frente do mais novo. O enganador foi enganado, com a mesma moeda. Aí Labão fez uma proposta, disse, cumpre essa semana de festa com a Lia e depois eu te dou a Raquel também, mas você vai me servir outros sete anos por ela. E o Jacó aceitou, trabalhou mais sete anos, no total, quatorze anos de trabalho, e acabou casado com as duas irmãs ao mesmo tempo. E aqui começa a parte que dói, porque Jacó amava a Raquel, mas a Lia ele não amava. Imagina ser a Lia, você é casada com um homem que só queria sua irmã, que trabalhou anos por ela, não por você, que dorme na mesma casa que você, mas com o coração na outra.

E é aqui que entra uma das coisas mais comoventes do texto. Deus viu que a Lia era desprezada, que ela não era amada, e o texto diz que por isso Deus deu filhos a ela. A Lia teve um filho, e ela disse com esperança, agora com certeza o meu marido vai me amar. Teve outro filho, e disse, Deus ouviu que eu sou desprezada, por isso me deu mais este. Teve um terceiro, e disse, agora dessa vez o meu marido vai se apegar a mim. Repara na dor disso. Cada filho que ela tinha, ela colocava nele a esperança de finalmente ser amada, como quem tenta de todo jeito conquistar um coração que não se vira para ela.

E aí ela teve o quarto filho, e olha como ela mudou. Dessa vez ela não falou nada sobre o marido. Ela só disse, dessa vez eu vou louvar a Deus, como se ela tivesse finalmente parado de esperar o amor dele, e encontrado outro lugar para descansar. Não foi mais, será que agora ele me ama. Foi só gratidão. Enquanto isso, a Raquel, a amada, a preferida, vivia o drama oposto. Ela tinha o amor do Jacó, mas não conseguia ter filhos. E naquele tempo para uma mulher, isso era uma dor enorme. E aí virou uma guerra silenciosa entre as duas irmãs. A Raquel, desesperada, foi até o Jacó e gritou, me dá filhos, se não eu morro.

E o Jacó se irritou, por acaso eu sou Deus, eu não posso fazer isso. As duas começaram a usar até as servas para ter filhos no lugar delas. Uma competindo com a outra, filho após filho. Ali a tinha um, a Raquel respondia com outro. Cada nome que elas davam aos meninos era quase um recado para a irmã. Uma forma de dizer, ó, eu também. Era uma casa cheia de crianças, e cheia de disputa. Até que lá no fim, Deus se lembrou da Raquel, e ela finalmente teve um filho. E ela disse, aliviada, Deus tirou a minha vergonha. O nome desse filho foi José, guarda esse nome. Porque esse menino, filho da mulher mais amada e que mais esperou, vai ser o centro de uma das maiores histórias que ainda vem por aí.

No fim das contas, dessas duas irmãs, dessas servas, dessa casa toda misturada de amor e ciúme, nasceram os filhos que iam dar origem ao povo inteiro de Israel. As 12 tribos, tudo começou nessa casa bagunçada. Eu fico pensando muito nessa história, porque ela é tão humana que chega a doer. Não tem família de revista aqui, tem ciúme, tem comparação. Tem gente amada e gente preterida debaixo do mesmo teto. Tem duas irmãs que viraram rivais por causa de um amor que não deu para dividir direito. Mas o que mais me toca é a Alia. A Raquel era bonita, a amada, a escolhida. E mesmo assim sofria.

Alia era a não escolhida, a que ninguém queria. E o texto faz questão de dizer uma coisa. Foi para ela que Deus olhou primeiro. Deus viu que ela era desprezada. Tem uma ideia silenciosa e linda aqui. Numa casa onde uma irmã tinha toda a atenção e o amor do marido, o olhar de Deus se voltou justamente para quem ninguém estava olhando. E tem o caminho que Alia percorre. No começo, cada filho dela era uma tentativa de ser amada pelo marido. Agora ele vai me amar. Até que num certo ponto ela para. E só diz, dessa vez eu vou louvar a Deus. É como se ela tivesse aprendido a parar de implorar amor de quem não dava.

E descoberto que ela já era vista por outro. Que ela não precisava me indigar para ter valor. Aqui vai uma coisa para hoje. Pensa se tem alguém na sua vida de quem você fica esperando uma aprovação, um carinho, um muito bem que nunca vem. E como isso te deixa correndo atrás tentando provar. E hoje, experimenta só por um instante imaginar o que Alia descobriu. Que talvez você já tenha valor sem precisar arrancar isso de ninguém. Que existe quem te vê, mesmo quando a pessoa que você queria não te vê. Alia passou metade da vida tentando ser escolhida. E começou a respirar no dia em que parou de implorar e só agradeceu pelo que já era.