Imagina que você é o filho mais velho de um rei. O trono é seu por direito. Todo mundo te ama. A cidade inteira espera o dia da sua coroação. E aí numa única tarde, por causa de uma promessa que o seu pai fez anos atrás, você é mandado embora, para a floresta, por 12 anos. E você não grita, não chora, não amaldiçoa ninguém. Você faz as malas, beija a mão do pai e vai. Por que alguém faria isso? E, mais difícil ainda, como alguém recebe uma notícia dessas com o rosto em paz, deixa eu te contar. Esse é um dos de atacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, quando ainda estava trilhando o longo caminho, vida após vida, juntando virtude.
Nessas histórias ele aparece às vezes como bicho, às vezes como gente, e nessa aqui ele aparece como um príncipe, o filho mais velho de um grande rei. Você talvez conheça uma versão muito famosa dessa história por outro nome, os budistas contam ela do jeito deles, e o coração dela é diferente, era uma vez o rei da Zarata, que governava uma cidade grande e próspera, ele tinha três filhos com a primeira rainha, o mais velho era o Bodhisatta, o futuro Buda, e os irmãos dele. E tinha também uma filha, a rainha mais velha, mãe do Bodhisatta, morreu, e o rei com o tempo tomou uma rainha mais nova, que lhe deu um outro filho, o Kassula, que para que o rei amava muito essa rainha nova, tanto que no dia em que o Kassula nasceu, ele ficou tão feliz que disse a ela, te dou o presente que você quiser, pede, a rainha esperta respondeu, eu guardo esse presente, vou te pedir quando chegar a hora, e ficou guardando aquela promessa como quem guarda uma carta na manga, os anos passaram, os meninos viraram homens.
O Bodhisatta cresceu sábio, justo, do tipo que a cidade inteira olhava e pensava, esse vai ser um rei bom, e foi exatamente aí que a rainha nova foi cobrar a velha promessa, ela chegou ao rei e disse, lembra do presente que você me deve, agora eu quero, dá o reino para o meu filho, o rei ficou arrasado, aquilo era injusto, ele sabia, o trono pertencia ao mais velho, mas ele tinha dado a palavra, e um rei que volta atrás na palavra não é rei de nada, pior, ele conhecia o coração humano, sabia que se ele morresse e deixasse o trono para o mais velho como era de direito, a rainha nova, com ciúme e ambição, poderia querer fazer mal aos outros filhos, numa corte essas coisas terminam em sangue, então o rei chamou o Bodhisatta e os outros dois irmãos da primeira rainha, e com o coração apertado explicou tudo, filhos, eu fiz uma promessa tola num momento de alegria, e agora ela me cobra, eu temo pela vida de vocês se ficarem aqui enquanto eu vivo, vão para a floresta, vivam lá, e quando eu morrer voltem, e o reino que é de vocês por direito será de vocês de novo, agora presta atenção no que o Bodhisatta faz, porque é o centro de tudo, ele não discute, não diz isso é injusto, não pega em armas, não junta soldados, não divide a cidade em dois lados para brigar pelo que era dele, ele simplesmente concorda, ele e os dois irmãos e a irmã se despedem, e vão para a floresta, para as montanhas, viver como eremitas, sem rancor, calma no rosto, e lá eles ficaram, ano após ano vivendo de frutas, de raízes em silêncio, longe do barulho do poder, aí veio a parte que parte o coração, o velho rei da Zarata, lá longe de saudade e de tristeza pelo que tinha feito, adoeceu e morreu antes da hora, e a rainha nova quis logo colocar o caçula dela no trono, mas os ministros do reino não aceitaram, disseram, o trono pertence ao filho mais velho do rei, vamos buscá-lo na floresta, e o próprio caçula, o filho da rainha ambiciosa repara só, era um rapaz de bom coração, ele não quis o trono roubado, pegou o exército inteiro e foi até a floresta, não para lutar contra o irmão, mas para implorar que ele voltasse e fosse rei, quando chegaram, contaram ao Bodhisatta que o pai tinha morrido, e aqui está a cena mais célebre de todo o conto, o irmão do meio e a irmã, ao ouvir a notícia da morte do pai, desabaram em choro, em soluços, mas o Bodhisatta o mais velho ficou sereno, não derramou uma lágrima, não fez um gesto de desespero, os outros olharam para ele quase ofendidos, como você não chora pelo nosso pai, você não o amava? e ele respondeu, mais ou menos assim, eu amava nosso pai mais do que tudo, mas me digam, de que adianta eu chorar, quem pode trazer um morto de volta com lágrimas, ninguém, nem o sábio, nem o tolo, escapam da morte, tudo o que nasce, morre, aquilo que é assim por natureza, eu não posso mudar chorando, eu não me consumo de tristeza por algo que não pode ser de outro jeito, eu cuidei do meu pai enquanto ele viveu, agora ele se foi pelo caminho que todos vão percorrer, chorar não o alimenta, não o aquece, não o devolve, e com palavras assim ele acalmou o coração dos irmãos, ele não estava sendo frio, repara na diferença, ele amava profundamente, só que ele tinha olhado de frente para a verdade de que tudo passa, e por isso a dor não virou desespero dentro dele, ele chorava por dentro com amor mas não se afogava nesse choro, no fim, depois de cumprido o tempo, o Bodhisatta voltou, foi coroado o rei, governou com justiça por muitos anos, e deu ao caçula a parte que ele cabia, sem vingança nenhuma contra a madrasta, a casa que quase se rasgou em ódio se fechou de novo em paz, agora, repara no que esse conto está dizendo, tem duas virtudes andando juntas aqui, a primeira é a kanti, a paciência, o aguentar com dignidade uma injustiça sem revidar com mais injustiça, o Bodhisatta tinha todo o direito de brigar pelo trono, e escolheu a floresta em vez da guerra, porque a paz da casa valia mais do que o seu direito ferido, a segunda virtude é encarar a impermanência sem se despedaçar, para a morte e a perda como parte da própria respiração da vida, e amar do mesmo jeito, só que sem o veneno do desespero, e olha como isso bate diferente do nosso tempo, a gente hoje foi treinado a achar que qualquer coisa que nos é tirada, é um insulto que exige resposta imediata, levou a vaga, levou o crédito, levou a herança, falou comigo torto, tem que revidar, tem que postar, tem que processar, tem que ter razão na frente de todo mundo, e quando a vida nos tira alguém ou algo que amamos, a gente trata a dor como um inimigo a ser anestesiado o mais rápido possível, com distração, com notificação, com qualquer ruído, o Bodhisatta faz o oposto das duas coisas, ele cede o que pode ceder sem brigar, e encara a perda que não dá para evitar sem fugir dela, ele não anestesia e não explode, ele fica de pé sereno, no meio das duas tempestades, aqui vai uma coisa para hoje, pensa em uma briga que está te puxando agora, alguma coisa que você sente que te foi tirada injustamente, e que está pedindo revanche, antes de revidar, faz uma pergunta simples, o que vale mais, ter razão nessa, ou ter paz com as pessoas que vão ficar do meu lado no fim, às vezes ir para a floresta por um tempo, abrir mão da briga não é fraqueza, é a coisa mais forte que existe, e se a sua dor de hoje for de uma perda, e não de uma briga, então faz o contrário do que o mundo manda, não corre da tristeza, senta com ela um instante, em silêncio, e lembra, com gentileza, que tudo o que você ama é emprestado, é precioso justamente por isso, e que amar de verdade não é ausência de dor, é continuar de pé, com o coração inteiro, mesmo dentro dela.