O príncipe humilde que conquista o reino pela bondade

Budismo · Temporada 19 · Episódio 8 de 9 — em ordem cronológica

Noventa e nove irmãos disputam um trono com força. Como o caçula, sem armas ou um único grito, sentou nele e fez o reino inteiro se ajoelhar por amor?

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Transcrição

Imagina que você é o filho mais novo entre 100 irmãos, todos disputando o mesmo trono. Você não é o mais forte, nem o mais bonito, nem o que teve a melhor educação. E, mesmo assim, quando o velho rei morre, é o seu nome que sobe sozinho a boca de todo mundo. Como? Como é que o menos provável vira o escolhido sem dar um único golpe sem afiar uma única espada? A resposta não está em nada que esse príncipe tomou. Está em tudo o que ele deu. Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda estava se tornando Buda, vida após vida, juntando virtude como quem junta gotas até encher um pote.

Às vezes ele aparece como um animal, às vezes como um rei, às vezes como mais simples dos homens. Nesse aqui, ele nasce príncipe, mas a história não é sobre ter sangue real, é sobre o que se faz com a pessoa que a gente é. O nome dele era Samvara, e ele era o caçula de 100 filhos do rei de Benares, sem, repara só no que isso significa, 99 irmãos na frente dele na fila do trono, cada um com seus aliados, seus professores, suas ambições. O rei sábio fez uma coisa interessante, entregou cada filho a um mestre diferente, um conselheiro que ia formar aquele príncipe, e o mestre que coube a Samvara era um homem chamado Bodhisatta nas outras vidas, um sábio de verdade desses que ensinam menos com a boca e mais com o jeito de viver.

Quando Samvara terminou os estudos, ele foi até esse mestre e perguntou, com humildade, mestre se um dia eu receber alguma parte do reino, como devo me conduzir? Olha que pergunta bonita, ele não perguntou como vencer os irmãos, não perguntou como tomar o que era dos outros, perguntou como se conduzir, e o sábio respondeu, mais ou menos assim, meu filho, não inveje o que pertence aos seus irmãos, não guarde rancor de ninguém, trate os mais velhos com o respeito que se dá a um pai, e os mais novos com o carinho que se dá a um filho, aos ministros do reino, mostre consideração, aos sábios, escute com humildade, aos servos, fale com gentileza, e não com desprezo, vença não pela força do braço, mas pela força da bondade, seja como a água, ocupa o lugar mais baixo, e mesmo assim é ela que todos procuram.

E Sambara fez exatamente isso, não como uma estratégia, repara, não era cálculo, ele simplesmente passou a viver assim, os ministros, ele tratava com deferência genuína, os pobres, ele recebia, quando alguém vinha com um problema, ele escutava até o fim, sem pressa, sem aquela cara de quem já está pensando na próxima coisa, ele dava do seu, dava do seu tempo, dava da sua atenção, e foi acontecendo uma coisa silenciosa, as pessoas começaram a gostar dele, não com aquele gostar barulhento que se compra com favores, era o gostar fundo de quem se sente, enfim, tratado como gente. Os outros 99 irmãos, cada um construía seu poder do jeito que sabia, mostrando músculo, fazendo alianças, marcando território, e Sambara, lá no canto, sem disputar nada, sem subir a voz, só sendo decente dia após dia.

Aí o velho rei adoeceu, sentindo que ia partir, chamou os ministros e perguntou, quando eu morrer, quem deve sentar no trono? E os ministros, esses homens que viam tudo de perto, que conheciam cada um dos sem filhos pelo que cada um fazia e não pelo que cada um prometia, responderam sem hesitar. Sambara, o cassula, o humilde, por que disseram eles, é a ele que o reino inteiro já obedece de coração. Os outros a gente serviria por dever, a ele, a gente serve por amor, o rei morreu, e Sambara foi coroado, e os noventa e nove irmãos, que tinham todo o motivo do mundo pra revolta, juntaram seus exércitos e cercaram a cidade.

Era a hora da guerra, era a hora em que, em qualquer outra história, o sangue ia correr, e Sambara fez de novo a única coisa que ele sabia fazer. Em vez de mandar a tropa, ele mandou recado, irmão por irmão. A herança do nosso pai é de vocês também, venham, tome o que é de vocês, eu não quero o trono contra vocês, eu quero o trono com vocês. E foi distribuindo tesouros, terras, honras, sem mesquinhas, sem aquele medo de que o outro tenha um pedaço maior. Os irmãos chegaram pra lutar e encontraram um homem que os abraçava, e um deles, espantado, fez a pergunta que estava na boca de todos.

Como? Você é o mais novo, o que tinha menos. Como foi que justo você ficou contudo, e ainda nos recebe assim, de braços abertos? E Sambara respondeu com a lição do velho mestre, ele não tinha envejado ninguém, não tinha desprezado ninguém, tinha honrado os sábios e cuidado dos pequenos, o reino não foi tomado, foi confiado a ele, as armas dos irmãos caíram no chão sozinhas, porque não há o que combater em quem não te ataca. Agora, repara no que esse conto está dizendo. A gente foi criado pra acreditar que se chega ao topo passando por cima, que humildade é fraqueza, que bondade é ingenuidade, que quem não a cotovela fica pra trás, e o mundo de hoje grita isso o tempo todo, marque sua posição, defenda seu território, mostre que você é mais.

A gente confunde ser ouvido com falar mais alto, e confunde ser respeitado com ser temido. Esse conto vira tudo do avesso com uma calma quase irritante, ele diz que a autoridade mais firme do mundo é aquela que ninguém precisa impor. Os budistas chamam isso, em parte, de meta, a bondade amorosa e de hante, a paciência que não revida. Samvara não venceu apesar de ser gentil, ele venceu porque foi gentil e porque foi gentil quando ninguém estava cobrando isso dele lá atrás, quando era só o caçula sem chance nenhuma, e tem uma coisa fácil de não enxergar, ele não foi bom pra ganhar.

Se fosse cálculo teria desmoronado na primeira frustração, ele foi bom porque tinha se tornado uma pessoa boa, por dentro, na sordina dos dias comuns. O trono foi só a consequência, a virtude veio primeiro, sozinha sem plateia. Aqui vai uma coisa pra hoje, pensa numa situação em que você está competindo com alguém, em casa, no trabalho, até numa conversa boba de família, e onde a sua vontade é provar que você é mais, hoje, só por hoje, faz o contrário de Samvara, naquilo que ninguém vai ver. Você escuta a pessoa até o fim sem te interromper por dentro, dá um crédito que você poderia guardar pra si.

Trate quem está abaixo de você com o mesmo cuidado que você daria a quem está acima, não pra ganhar nada, porque aí já não vale. Faça só pra ir virando, devagar, a pessoa que um dia o reino confia, a água ocupa o lugar mais baixo, lembra? E é dela que todo mundo mais cedo ou mais tarde vai sentir sede.