Imagina que você está no navio, no meio do oceano aberto, sem nenhuma terra à vista. O céu fechou, a noite caiu, e o homem em quem todo mundo confia para encontrar o caminho de volta para casa é um homem que não enxerga. Cego, você confiaria a sua vida a ele? Nesse conto, essa é exatamente a aposta que setecentos mercadores precisam fazer. E a resposta deles separa quem volta vivo de quem some para sempre no mar. Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, quando ainda estava se tornando aquilo que viria a ser.
Nessas histórias ele aparece às vezes como bicho, às vezes como gente, dessa vez ele aparece como um homem do mar, um navegador chamado Suparaka. E para só, Suparaka tinha sido, em sua juventude, o melhor capitão de toda a costa. A gente fala capitão, mas era mais que isso, ele era o homem que lia o oceano, pela corda água ele sabia onde estava, pelo cheiro do vento ele sabia o que vinha, pelo jeito que as ondas batiam no casco, ele sabia a profundidade embaixo dos pés, conhecia os perigos de cada mar, as correntes, os bancos de areia, os lugares onde o navio entra e não sai, nenhuma embarcação que ele guiou jamais se perdeu, nenhuma, mas o tempo passou, como passa para todo mundo.
E o sal, o sol e os anos foram tirando dele à vista. Suparaka ficou cego e sem os olhos ele se aposentou, achou que sua vida no mar tinha acabado, foi viver quieto, numa cidade do litoral, ganhando o pão como conselheiro de assuntos pequenos, ele que um dia tinha atravessado oceanos inteiros, aí um dia chegam a sua porta a uns mercadores, setecentos deles juntando dinheiro para uma grande viagem atrás de riqueza em terras distantes, e eles tinham ouvido falar do velho Suparaka, mesmo cego diziam entre si, um navegador guiado por esse homem nunca na ofraga, ele sabe as coisas que os olhos não veem, e foram pedir.
Suparaka ouviu o pedido e foi honesto, como o sábio é honesto, meus amigos, eu sou cego, eu não consigo mais navegar como antes, mas eles insistiram, disseram que não queriam os olhos dele, queriam o que estava dentro dele, a experiência, o discernimento, a calma, aquilo que os anos no mar tinham deixado depois que a vista foi embora, e o velho aceitou, subiu a bordo, e o navio partiu, por muitos dias correu tudo bem, mas então o tempo virou, um vento estranho pegou o navio e, em vez de levá-lo pela rota conhecida, empurrou para fora de todo o mapa, para mares onde nenhum mercador ali jamais tinha estado, mares de fim de mundo, e aqui começa a parte mais bonita do conto, porque o navio passa, um depois do outro, por oceanos terríveis, cada um com seu próprio perigo, e em cada um deles, os homens, apavorados, correm até Suparaka, o que é isso, que mar é esse, num deles a água ferve e brilha como se fosse prata derretida, espumando branca por toda parte, os homens gritam de medo, Suparaka sentado sente o calor, escuta o som, e diz com a voz tranquila, esse é o mar onde as criaturas têm corpos de prata, não há perigo aqui, com tanto que ninguém pare para cobiçar o que vê, sigam em frente, no outro, a água parece de ouro, raiando luz, no outro, fica vermelha como rubi, no outro, escura, com um som de tambores e vozes que enlouquecem os marinheiros de pavor, a cada novo mar, os homens entram em pânico, e a cada vez, o homem que não enxerga nada, é o único que enxerga tudo, ele identifica o oceano só pelo som, pelo cheiro, pelo gosto de uma gota d'água que pedem que tragam até ele, e, conhecendo o lugar, ele conhece o que fazer, não toquem nada, não desviem, mantenham o rumo, vamos passar, e passavam, mar após mar, o velho cego os trazia inteiros pelo outro lado, até que chegam ao último, o mais terrível de todos, um mar de onde, segundo se dizia, navio nenhum jamais voltou, os homens estavam certos de que iam morrer, e suparaca, então, fez uma coisa que a gente precisa guardar, ele se levantou, pediu que o lavassem, que o vestissem com roupas limpas, e de pena a proa do navio, voltado pra aquele mar de morte, ele fez um ato de verdade, falou, em voz alta, diante de todos, desde que eu me lembro de mim, desde que cheguei a razão, eu não me recordo de jamais ter, de propósito, feito mal a nenhum ser vivo, por essa verdade, que este navio volte em segurança, e pela força daquela vida vivida com retidão, dizem que o navio se virou, e em poucos dias, atravessou de volta todos os mares, e chegou em casa, carregado de tesouros que os homens tinham recolhido pelo caminho, agora, repara no que esse conto está dizendo, ele faz uma distinção que a gente hoje vive confundindo, a diferença entre ter informação e ter sabedoria, entre enxergar e compreender, suparaca não tinha mais os olhos, que são a informação bruta, o dado, a imagem na tela, mas ele tinha o panhar, o discernimento, aquilo que sobra quando a experiência se assenta e vira entendimento de verdade, e a gente vive o contrário disso, a gente tem mais olhos do que qualquer geração já teve, telas que mostram o mundo inteiro, mapa de tudo, resposta para qualquer pergunta a um toque de distância, nós enxergamos demais, e mesmo assim a gente se perde, entra em pânico no primeiro mar estranho da vida, um diagnóstico, uma demissão, uma briga, e não sabe segurar o leme, porque ter a informação na mão não é a mesma coisa que ter a calma e o juízo de saber o que fazer com ela, o velho cego do conto era sereno no meio do horror não porque via menos, mas porque tinha mastigado a vida até ela virar sabedoria, e a sabedoria, diferente da vista, não te abandona com a idade, ela cresce e tem mais, repara de onde veio a salvação final, não de uma manobra genial, veio do ato de verdade, de uma vida inteira sem ter ferido ninguém de propósito, a competência abriu o caminho, mas foi o caráter que trouxe todo mundo para casa, a gente investe tanto em ficar bom no que faz, em acumular habilidade e investe tão pouco em ser, simplesmente uma pessoa que coloca dano, e é essa segunda coisa que no fim, vira chão firme debaixo dos pés quando a tempestade chega, aqui vai uma coisa para hoje, pensa numa decisão que está te apavorando, um daqueles mares estranhos que você não conhece, antes de mergulhar em mais informação, em mais telas, em mais opiniões, faz o que suparaca fazia, para, fica em silêncio, e pergunta o que você já sabe por dentro, a sua presença assentada, não ao barulho de fora, e ao longo do dia de hoje, escolha de propósito não ferir ninguém, nem com a palavra, nem com o gesto, pode parecer pouco, mas é exatamente esse tipo de coisa aqui, lá na frente, num mar de onde parece que ninguém volta, segura o seu navio e te traz de volta para casa.