O príncipe que renuncia ao ver o orvalho secar

Budismo · Temporada 19 · Episódio 6 de 9 — em ordem cronológica

Você tem tudo: poder, luxo, um futuro garantido. Mas o que acontece quando uma simples gota de orvalho, desaparecendo ao sol, revela que nada disso vale a pena?

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Transcrição

Imagina que você tem tudo, o reino inteiro vai ser seu, os jardins, os elefantes enfeitados, os músicos que tocam até você dormir, a comida que chega antes mesmo da fome. E aí, numa manhã qualquer, você olha para uma folha de grama e vê uma gota de orvalho secando ao sol, em poucos segundos ela some. E essa coisa pequena, essa gota que ninguém repararia, vira o motivo pelo qual você larga o trono. Será que uma coisa tão miuda pode mudar uma vida inteira? Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, mas estava no longo caminho de se tornar.

Nesses contos ele aparece às vezes como bicho, às vezes como gente, e aqui, nessa história, ele nasce príncipe. O nome dele é Yuvanjaya, o pai dele era rei, um rei justo de uma cidade próspera, e Yuvanjaya era o filho mais velho, o que ia herdar tudo. Desde pequeno, o menino tinha aquilo que a gente chama de coração bom, dava esmola, tratava bem os servos, ouvia os mais velhos, mas era um príncipe como qualquer outro, cercado de luxo, de festa, de gente dizendo o tempo todo que ele era especial. A vida dele era um dia se encostando no outro, todos parecidos, todos confortáveis, até uma manhã era cedo, bem cedo, e Yuvanjaya tinha mandado preparar a carruagem daquelas puxadas por cavalos bonitos, porque ele queria dar uma volta no jardim real antes do sol esquentar.

Repara na cena, o ar ainda fresco, o orvalho cobrindo tudo, cada folha, cada flor, cada fio de teia de aranha pendurado entre os galhos. Era como se a noite tivesse deixado o mundo todo bordado de prata. Cada gotinha brilhava como se fosse uma pérola, ou uma joia daquelas que enfeitavam o próprio palácio. Yuvanjaya, encantado, virou para o cocheiro e perguntou que joias são essas, espalhadas por toda a parte. Quem foi que enfeitou o jardim assim com tanta riqueza? O cocheiro, um homem simples, sorriu de leve e respondeu. Não são joias, meu príncipe, é só o orvalho, a água que a noite fria deixa cair sobre as plantas, daqui a pouco o senhor vai ver.

Yuvanjaya achou bonito mesmo assim, continuou o passeio, olhando aquele brilho todo, achando que era a coisa mais linda do mundo, e ele ficou ali, contemplando, deixando o tempo passar. Conversou, riu, andou pelos caminhos do jardim, quando voltou, já era outra hora. O sol tinha subido, e o príncipe procurou de novo aquelas joias, aquele brilho de prata em cada folha. E não tinha mais nada, as gotas tinham secado, a teia de aranha estava ali, seca, sem nenhuma pérola pendurada, as flores comuns, o jardim inteiro comum, cocheiro, ele disse, onde foram parar todas aquelas joias, secaram meu príncipe, o sol veio e levou, o orvalho é assim, aparece com o frio e some com o calor, não dura, e foi aí, nesse instante, que uma coisa funda mexeu dentro de Yuvanjaya, não foi tristeza, não exatamente, foi como se ele tivesse visto de repente uma verdade que estava na frente dele, a vida toda, e ele nunca tinha enxergado, e ele pensou, aquelas gotas eram lindas, e sumiram num piscar de olhos, e aí a pergunta veio sozinha, como vem quando a gente menos espera, e eu, e essa minha vida, e esse meu corpo, essa minha amocidade, esse trono que vão me dar, não é tudo orvalho também, não vai tudo secar do mesmo jeito na primeira manhã de sol que chamam de velhice, de doença, de morte, repara que ele não viu nada de novo, o orvalho seca todo dia, na frente de todo mundo, a diferença é que, naquela manhã, ele olhou de verdade, e o que ele viu numa gota d'água, ele viu na vida inteira, e Yuvanjaya voltou pro palácio com o coração já decidido, foi até o pai e a mãe, se ajoelhou diante deles, e pediu permissão pra deixar tudo, pra virar uma seta, um daqueles que largam a casa e vão viver no silêncio da floresta, buscando o que não seca, o que não acaba, o rei ficou em choque, filho, você vai herdar o reino, você tem tudo, porque largar, Yuvanjaya respondeu com uma calma que assustava, pai, eu vi o orvalho secar esta manhã, e entendi que a minha vida é igual, eu não quero gastar o que me resta de tempo correndo atrás de coisas que vão sumir no primeiro sol, me deixa ir buscar o que fica, os pais choraram, imploraram, ofereceram mais riqueza, mais prazer, mais tudo, mas quando viram que ele não voltaria atrás, fizeram uma coisa rara, largaram junto, o rei, a rainha, o irmão mais novo, e atrás deles uma multidão da cidade inteira, todos comovidos, deixaram a vida de palácio e foram viver a vida simples no contentamento, na atenção, no que não se perde.

Agora, repara no que este conto está dizendo, a virtude aqui tem nome, é o ver com clareza em permanência, os budistas chamam de Anika, a verdade de que tudo passa, tudo muda, nada fica parado, e o que o Vanjaia faz não é ficar deprimido com isso, é o contrário, é acordar, e olha como isso bate na gente hoje, a gente vive como se o orválio fosse durar pra sempre, a gente acumula, posta, guarda, compara, persegue, quer mais seguidores, mais conquistas, mais coisas pra colocar na estante da vida, e faz isso correndo sem parar pra olhar, porque parar pra olhar dá medo, a gente até sabe, lá no fundo, que vai tudo secar, mas finge que não, e enche a agenda pra não pensar, o príncipe fez o oposto, ele parou, olhou a gota secar, e em vez de fugir do que viu, deixou aquilo reorganizar a vida dele do avesso, não é que a gente precise largar tudo e ir pra floresta, nem é esse o ponto, o ponto é a clareza, é lembrar que cada coisa que a gente segura com tanta força, um dia escorrega da mão, e que sabendo disso, a gente pode parar de viver no piloto automático, e começar a escolher melhor o que merece o nosso tempo curto, aqui vai uma coisa pra hoje, a manhã de manhã, antes de pegar o celular, antes de mergulhar na correria, escolhe uma coisa pequena e passageira pra olhar de verdade por um mim, pode ser o vapor subindo do seu café, a luz entrando pela janela, o rosto de alguém que você ama dormindo, olha sabendo que aquilo não vai durar, que é orválio, e deixa essa lembrança te fazer uma pergunta simples, do jeito que eu estou gastando o meu dia, eu estou correndo atrás de joias de verdade, ou de gotas que vão secar antes do almoço.