A água bebida sem permissão e o despertar moral

Budismo · Temporada 19 · Episódio 5 de 9 — em ordem cronológica

Você pegaria um gole de água que não é seu, sem que ninguém visse? Prepare-se, porque a resposta a essa pergunta esconde uma revolução interna.

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Transcrição

Imagina que você está com sede daquela sede de boca seca e na sua frente tem um pote de água que não é seu, o dono não está olhando, ninguém está olhando. Você bebe um gole, só um. Quem é que se importaria com um gole de água? Pois é justamente esse gole, esse golezinho de nada, que vira o começo de uma das histórias mais bonitas sobre como a consciência da gente acorda. Deixa eu te contar. Esse é um dos játacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda estava se tornando Buda, percorrendo vida após vida, às vezes como rei, às vezes como mestre, às vezes como um homem simples, sempre aprendendo a virtude que um dia faria dele o desperto.

E nesse aqui o Bodhisatta aparece como um homem comum, um lavrador, alguém que você poderia cruzar na rua sem reparar. Conta-se que havia dois amigos, dois companheiros de aldeia, que viviam de trabalhar a terra. Um dia os dois saíram juntos para o campo, com suas enchadas, para preparar o solo antes do plantio, trabalho duro, sol forte, aquele tipo de manhã que faz a camisa grudar nas costas. Para aguentar eles tinham levado um pote de água e cada um cuidava do seu, beberam, descansaram, voltaram a cavar, só que um deles, num momento de descuido, sem pensar muito, esticou a mão e bebeu da água do amigo, bebeu da água que não era dele, sem pedir, sem avisar.

Coisa pequena, você concordaria que é coisa pequena? Os dois eram amigos, dividiam tudo e ninguém ali ia brigar por um gole de água num dia de calor, mas reparou no que aconteceu? Quando a tarde chegou e os dois sentaram a sombra para descansar, aquele homem ficou inquieto, tinha uma coisa remoendo por dentro, ele lembrava do gole, lembrava que tinha bebido sem permissão, e pensou consigo, eu tomei da água do meu companheiro sem que ele me oferecesse, isso foi uma coisa não dada que eu tomei para mim, se eu deixar isso passar, hoje foi um gole de água, amanhã vai ser outra coisa, e o hábito vai crescer dentro de mim como mato no terreno que a gente não capina, repara na delicadeza disso, ninguém o acusou, o amigo nem percebeu, não havia testemunha, não havia juiz, não havia castigo nenhum à vista, a única pessoa que viu foi ele mesmo, lá dentro, e foi o suficiente, então ele se levantou e foi falar com o amigo, disse meu irmão, eu preciso te confessar uma coisa, hoje no campo eu bebido a sua água sem te pedir, foi pouco mesmo, mas foi uma coisa que não me foi dada e eu tomei, isso me pesa, eu não quero carregar nenhum fio dessa falta, eu vim te pedir perdão, o amigo claro rio, disse que aquilo era bobagem, que a água entre amigos não se cobra, que estava tudo bem, mas o homem balançou a cabeça, pra ele não era bobagem, ele tinha entendido uma coisa que muita gente passa a vida inteira sem entender, que o caráter da gente não se constrói nas grandes ocasiões, nas horas em que todo mundo está olhando, o caráter se constrói exatamente ali, no gole de água que ninguém viu, na hora em que sair em Pune seria a coisa mais fácil do mundo, e conta a história que esse homem, depois desse dia, levou aquele cuidado com ele pra sempre, virou uma pessoa de uma honestidade tão fina, tão atenta, que cuidava de não tomar pra si nem o que parecia menor que um grão, não por medo de ser pego, por respeito a si mesmo, a sua própria paz, porque ele tinha descoberto que cada vez que a gente passa por cima de uma coisinha pequena, a gente faz um calo na consciência, e consciência calejada é consciência que para de avisar, agora repara no que esse conto está dizendo pra gente, hoje nesse nosso tempo, a virtude no centro dessa história tem nome, os budistas chamam de ire, que é aquele senso interno de vergonha sadia, a voz lá de dentro que se incomoda com a própria falta antes que qualquer um de fora aponte o dedo, e tem também a sila, a conduta ética, esse preceito antigo de não tomar o que não foi dado, não foi dado, olha que expressão exata, não é só não roube, é não pegue o que ninguém te ofereceu, e a gente vive num tempo que aprendeu a desprezar o gole de água, a gente se acostumou a dizer é só um pouquinho, é só um pouquinho do tempo da empresa que eu uso pra mim, é só um detalhezinho que eu omito pra levar vantagem, é só uma resposta que eu copio, um crédito que eu não dou, um arredondamento a meu favor, e a gente justifica dizendo que ninguém se machuca, que ninguém nem percebe, e é verdade, muitas vezes ninguém percebe, mas você percebe, e é a soma desses goles invisíveis que vai decidindo, devagarzinho, que tipo de pessoa você está virando, o conto não condena aquele homem por ter bebido a água, qualquer um beberia, o conto celebra a coragem rara de ele ter parado, olhado pra dentro, e dito, isso não, isso eu não deixo passar, num mundo que aplaude quem leva vantagem e chama de esperto quem dá um jeitinho, esse homem do campo é uma espécie de revolução silenciosa, ele decidiu ser inteiro mesmo quando ninguém ia conferir, e tem uma generosidade nisso sabe, porque quem cuida assim de não tirar nenhum grão dos outros é alguém em cuja presença a gente relaxa, a gente confia, a gente sabe que ali, do lado daquela pessoa, a nossa água está segura, aqui vai uma coisa pra hoje, pensa na sua última semana e procura o seu gole de água, aquela coisinha pequena que você pegou, usou ou levou sem que fosse realmente sua, e que você já estava deixando isso porque foi só um pouquinho, achou? Então faz o que o lavrador fez, vai lá e acerta, devolve, confessa, paga, peça desculpa, corrige o número, pode parecer ridículo de tão pequeno, e é exatamente por isso que importa, porque a pessoa que você quer ser não nasce do gesto grandioso que todo mundo vê, ela nasce do cuidado com o gole de água que só você sabe que existiu.