Imagina dois jovens que cresceram lado a lado, foram colocados num mesmo trono, dividiram cada dia de uma vida inteira, e mesmo assim nunca, nenhuma única vez, se tocaram com desejo. Um rei e uma rainha que dormiam sob o mesmo teto e guardaram, por escolha, um voto de pureza até o último suspiro. Você consegue imaginar uma promessa tão forte que nem a morte consegue desmanchar? A pergunta desse conto é justamente essa, o que segura duas pessoas juntas quando o corpo já não está mais ali para segurar, deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, e estava percorrendo, vida após vida, o longo caminho de se tornar um desperto.
Nesses contos ele aparece às vezes como bicho, às vezes como gente comum, e às vezes, como nesse aqui, como um rei. O futuro Buda, o Bodhisatta, diz a história que numa cidade chamada Surundana reinava um casal muito especial, ele, o rei Udaia, era o Bodhisatta, ela, a rainha Udaia Bada, era sua companheira de trono, e o detalhe que faz esse conto ser o que é, é esse, os dois tinham feito, ainda jovens, um voto de castidade, não por frieza, repara, não porque um não amasse o outro, era o contrário, eles se amavam de um jeito tão grande, tão sereno, que decidiram juntos viver puros, dedicando aquela vida inteira à virtude, à generosidade, ao cuidado como o povo, dormiam no mesmo quarto e nunca quebraram a promessa, nem no momento de cansaço, nem no momento de fraqueza, a gente costuma achar que paixão é a coisa mais forte do mundo, esse casal tinha descoberto uma coisa mais forte ainda, um amor que não precisava possuir o outro pra ser inteiro, os anos foram passando, como os anos passam, e chegou o dia em que o rei Udaia adoeceu e morreu, a rainha ficou, e aqui vem a parte mais bonita, antes de partir, ou no espírito de tudo o que tinham vivido, ficou no ar entre eles um acordo silencioso, quem fosse primeiro, se tivesse nascido num lugar bom, voltaria pra confirmar ao outro que a virtude tinha valido a pena, que o caminho era verdadeiro, o bodhízata, por causa da vida limpa que tinha levado, renasceu como uma divindade luminosa, num dos céus dos deuses, mas ele não esqueceu, lá de cima ele olhou pra baixo e viu Udaia abada, ainda sozinha no palácio, vivendo com a mesma firmeza de sempre, governando com justiça, sem se entregar a nenhum prazer fácil, guardando a memória do voto deles, e ele quis testar uma coisa, não o amor dela, isso ele já sabia, ele quis ver se a serenidade dela era de verdade, se aguentava a tentação, então a divindade desceu disfarçada, tomou a forma de um homem moço e deslumbrante, com as mãos cheias de uma bacia de ouro transbordando de moedas reluzentes, entrou nos votos da rainha no meio da noite, parado ali, brilhando na penumbra, e ofereceu o ouro a ela em troca de uma noite, em troca de que ela abandonasse a castidade que mantinha, repara na cena, uma viúva, sozinha, com poder, sem ninguém pra cobrar nada dela, ninguém saberia, e na frente dela, riqueza e beleza, as duas coisas que o mundo mais usa pra dobrar a gente, quantos votos não se desfazem novamente assim, no escuro, quando parece que ninguém está vendo, mas a rainha nem hesitou, ela olhou pra aquele estranho cintilante e respondeu com uma calma de quem está em paz consigo, disse que tinha amado um único homem na vida, o rei Udaia, e que a esse amor ela permanecia fiel mesmo agora que ele tinha partido, disse que nenhuma montanha de ouro valia mais do que a palavra que ela tinha dado, que o prazer de uma noite era fumaça, e a integridade dela era a única que ninguém podia tirar nem comprar, e mandou o homem embora, foi aí que a divindade revelou quem era, a luz se abriu, o disfarce caiu, e ali estava ele, o próprio Udaia, agora um ser celeste, sorrindo pra ela, não tinha vindo pra seduzir, tinha vindo pra cumprir o velho acordo, e pra dizer a ela que sim, que a virtude deles tinha florescido, que a vida casta e generosa que levaram juntos os tinha levado a um bom destino, e pediu a ela que continuasse no caminho, que fizesse o bem, que fosse generosa, porque aquilo e só aquilo atravessava a morte.
Os dois trocaram palavras serenas, dois corações que se reconheciam pra além das formas, e então ele tornou a subir, deixando a rainha em paz, mais firme do que nunca. Agora, repara no que esse conto está dizendo. A virtude central aqui é a silla, a integridade, a fidelidade e a própria palavra, e junto dela a gente, a paciência firme diante da tentação. Mas tem uma camada mais funda, esse conto está falando de um amor que não é fome. A gente hoje foi ensinado a medir o amor pela intensidade do desejo, pela posse, por quanto a gente quer agarrar o outro. E aí vivemos numa época em que tudo é descartável, em que a fidelidade virou quase uma piada antiga, em que é o primeiro tédio, ou a primeira oferta mais brilhante e a gente troca, desliza pro próximo, busca a sensação seguinte, o conto, com toda a gentileza está cutucando isso, está dizendo que existe um tipo de constância que não depende de a outra pessoa estar presente, nem de ninguém estar olhando, nem de haver recompensa imediata, uma fidelidade que é, no fundo, fidelidade a quem a gente decidiu ser.
E olha que interessante, a rainha não foi fiel por medo, nem por culpa, nem porque alguém ia descobrir. Ela foi fiel porque tinha paz, a integridade dela não era um peso, era um canso. Esse é o segredo que a gente costuma perder. A gente acha que manter a palavra é prisão, e o conto mostra que é exatamente o contrário, é a única liberdade que o ouro não compra. Aqui vai uma coisa pra hoje. Pensa numa promessa pequena que você fez a si mesmo, dessas que ninguém mais sabe que existe, e que ninguém vai cobrar de você. Pode ser ligar pra alguém, pode ser não ceder a um hábito, pode ser uma palavra que você deu, hoje, quando aparecer a oferta brilhante de quebrá-la, só porque é mais fácil ou mais gostoso, faz como a rainha, não por culpa, mas por paz.
Cumpra essa promessa quando ninguém estiver vendo. É ali, no escuro, sem plateia e sem recompensa, que a gente descobre de que material a gente é feito.