O Justo e o Injusto: o conflito entre o Dharma e o mal

Budismo · Temporada 19 · Episódio 3 de 9 — em ordem cronológica

Dois irmãos, uma estrada estreita. Quem tem que sair do caminho?

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Transcrição

Imagina dois irmãos andando pela mesma estrada estreita. Um deles passou a vida inteira fazendo o bem, dizendo a verdade e cuidando das pessoas. O outro passou a vida levando vantagem, mentindo, espremendo cada um que cruzava o seu caminho. E agora num ponto em que a estrada só comporta um, eles se encontram cara a cara. Quem é que tem que sair do caminho? Quem sede? A resposta que esse conto dá talvez te surpreenda. Porque não é a que a gente costuma esperar. Deixa eu te contar, esse é um dos jatacas. Os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda estava se tornando Buda. Vida após vida, juntando virtude como quem junta gota a gota até encher um oceano.

Às vezes ele aparecia como rei, às vezes como bicho, às vezes como nesse aqui, como uma força do próprio mundo. E nesse conto, repara, ele aparece como justo, como Dharma em pessoa, andando entre os homens. Conta-se que, lá no alto, na roda das existências, viviam dois seres muito antigos. Um se chamava Dharma, a Justiça, o caminho do bem. O outro se chamava Dharma, a Injustiça, o caminho do mal. E os dois desciam, de tempos em tempos, ao mundo dos humanos, cada um do seu jeito, para ver com os próprios olhos como andavam os corações das pessoas. O Bodhisatta, o futuro Buda, era o justo.

Ele descia numa carruagem que brilhava como amanhã, cercado de seres luminosos, e ia de aldeia em aldeia, de cidade em cidade, parando nas praças e dizendo, com aquela voz que entra fundo, sejam generosos, falem a verdade, honrem os pais e os mais velhos, cuidem de quem é fraco, não tomem o que não é seu, não machuquem o que vive. Este é o caminho que leva à paz, este é o caminho dos céus. E onde ele passava, as pessoas se acalmavam, se reconciliavam, se lembravam de quem queriam ser. O Injusto fazia o oposto. Ele também descia numa carruagem, mas a dele cheirava a fumaça e a sangue.

E ele dizia, peguem o que puderem, mintam, se a mentira render, pisem em quem estiver embaixo. Quem é esperto leva vantagem, e o resto que se vire. E havia gente claro que ouvia. Sempre há, pois aconteceu que, num certo dia, os dois desceram ao mesmo tempo, na mesma região, pela mesma estrada. E essa estrada, num trecho, apertava entre uma encosta de pedra de um lado e um barranco fundo do outro. Cabia só uma carruagem. E foi exatamente ali que as rodas dos dois chegaram, frente a frente, e tiveram que parar. O Injusto, cheio de si, gritou primeiro, saia do meu caminho, recuia sua carruagem e me deixe passar.

O Justo respondeu. Bom dia, amigo. Eu sou o Dharma, a Justiça. O caminho é meu por direito, porque eu bem tenho precedência sobre o mal. Recui você. E o Injusto deu uma risada. Eu sou a Dharma. Eu sou forte. Eu sou temido. Eu venço. Forte é quem manda. Eu nunca recuei pra ninguém na minha vida. E não vou começar por você. Saia, ou eu te arranco daí. Aí o Justo fez uma coisa que, à primeira vista, não parece coisa de herói. Ele olhou para o Injusto sem raiva nenhuma e disse, tudo bem, eu vou ceder o caminho. Eu vou recuar a minha carruagem, e você passa. E começou a recuar. Repara que estranho.

O bem se curvando diante do mal. Mas espera, porque tem mais, enquanto recuava. O Justo falou, e a voz dele agora encheu o vale inteiro. Escuta o que eu vou te dizer. Eu te dou a passagem, porque é próprio do bem ceder, não brigar, não disputar. O sábio cede o lugar de fora, e mesmo cedendo continua inteiro por dentro. Mas escuta, quem deixa o mal passar por cima de si por covardia, esse a funda. Quem deixa o mal passar por sabedoria, sabendo o que faz, esse permanece. E você, que se gaba de nunca ter cedido, que vive de pisar nos outros, você acha que está subindo. Mas a estrada que você pega só desce.

E no instante em que o injusto soberbo passou por cima da gentileza alheia tratando-a como fraqueza. Dizem que a própria terra se abriu sob a carruagem dele, o chão cedeu como sede a paciência de quem foi enganado vezes demais, e o injusto despencou, de cabeça pelo barranco fundo e foi parar lá embaixo, no escuro, onde colhem o que plantaram os que vivem fazendo mal aos outros. E o Justo, o Justo seguiu o seu caminho. Sereno, sem ter levantado a mão, sem ter gritado, sem ter odiado ninguém. Ele tinha cedido a estrada de pedra, mas não tinha cedido um milímetros de quem ele era. Agora, repara no que esse conto está dizendo, porque é mais fino do que parece.

A gente vive numa época que confunde duas coisas que não são a mesma. A gente confunde ceder com perder. Confunde gentileza com fraqueza. Confunde não revidar com ser passado pra trás. Olha como a coisa funciona hoje. Alguém te corta no trânsito, te responde mal, te passa na frente, e uma voz dentro da gente já grita. Não deixa barato. Revida. Se você ceder, você é otário. A cultura inteira sopra isso no nosso ouvido. Igualzinho ao injusto na carruagem. Forte é quem nunca abaixa a cabeça. Experto é quem leva vantagem. E quem cede é trouxa. Só que o conto vira essa lógica do avesso.

O Justo cede a estrada, sim. Ele recua a carruagem, sim. Mas ele não cede o caráter. Não troca de natureza, não vira o injusto pra vencer o injusto. Essa é a virtude que os budistas chamam de kanthi, a paciência, a tolerância, que não é a paciência murcha de quem aguenta calado por medo, é a paciência firme de quem é tão inteiro por dentro que pode ceder por fora sem se perder. E é a meta também, a bondade que não precisa do mal do outro pra se manter de pé, e tem o detalhe mais importante. O Justo não derruba o injusto. Ele nem encosta nele. Quem derruba o injusto é o próprio caminho do injusto.

O mal cava o próprio buraco. A gente acha que precisa ser o carrasco da maldade alheia, que precisa botar cada um no seu lugar com as próprias mãos. O conto diz, com toda a calma, não precisa, cuida da tua estrada. A estrada deles desce sozinha, aqui vai uma coisa pra hoje. Hoje em algum momento alguém vai te empurrar para fora do seu caminho. Pode ser literal, um carro, uma fila, pode ser uma palavra atravessada, uma grosseria, uma provocação, e você vai sentir aquele puxão de revidar, de provar que você também é forte, de descer pro nível de quem te provocou. Quando sentir isso faz como Justo, ceda a estrada, mas não ceda o caráter, recui um passo de fora, se for o caso, dê a passagem, não compre a briga, mas por dentro, fique exatamente quem você é, porque ceder o caminho não te diminui, o que te diminui é virar aquilo que você despreza só pra não parecer fraco.

E lembra, você não precisa empurrar ninguém pro barranco, a estrada de quem vive empurrando os outros já desce por conta própria.