Imagina que você fez uma promessa no escuro, pra alguém que não enxergava o seu rosto, sem nenhuma testemunha, sem ninguém pra cobrar depois. Anos passam, a pessoa reaparece, e ninguém no mundo saberia se você quebrasse a palavra. Você cumpre mesmo assim? A resposta a essa pergunta, nesse conto separa um rei de verdade de um homem que só está usando uma coroa, deixa eu te contar. Esse é um dos atacas. Dos contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era Buda, ainda estava trilhando o caminho vida após vida, como Bodhisatta. Às vezes ele aparece como um animal, às vezes como um homem simples, e às vezes, como nesse como um jovem príncipe chamado Junha.
Repara na cena, Junha era estudante numa cidade distante, longe do palácio onde tinha nascido. Como muitos jovens da época, ele tinha sido mandado pra estudar com um grande mestre, e ali ele vivia como qualquer outro aprendiz, sem regalia, sem ninguém o tratando como filho de rei. Estudava de dia, e à noite caminhava de volta pro lugar onde dormia, pois numa dessas noites, sem lua, o céu fechado, a rua umbreu só, Junha vinha andando depressa, a cabeça cheia das lições do dia, e sem ver nada à frente, ele esbarrou em alguém. Um esbarrão forte, o outro homem caiu, e, no chão junto com o homem, caiu também tudo que ele carregava, a tigela de esmolas que se espatifou, e a comida que ele tinha juntado o dia inteiro que se espalhou na terra, era um brama nível, um homem pobre, daqueles que vivem só do que as pessoas lhes dão, e ali, no escuro, ele começou a se lamentar.
Não com raiva, repara, com aquela tristeza mansa de quem está acostumado a perder. Meu filho, ele disse, tateando o chão, você derrubou a minha refeição, a tigela quebrou, e eu sou cego, não tenho como juntar de novo o que se perdeu, o que vai ser de mim hoje. Junha parou, ele podia ter pedido desculpas e seguido em frente, a noite estava escura, ninguém tinha visto, e quem ia saber, mas o coração do jovem se apertou, ele se ajoelhou ali na terra, ajudou o velho a se levantar, e disse, pai, fui eu, e a culpa é minha, me perdoa, não tenho aqui comigo o que te devolver agora, mas escuta o que eu vou te dizer, e então Junha fez uma promessa, eu não sou daqui, eu sou filho do rei de Benares, e um dia, se o destino quiser, eu vou voltar para casa e vou me sentar no trono do meu pai.
Quando esse dia chegar, você vem me procurar, você pergunta pelo rei Junha, e eu prometo, eu juro para você, que vou cuidar de você, você nunca mais vai passar fome, pensa na situação, um estudante qualquer, no meio da noite, jurando coisa de rei para um mendigo cego, que garantia o velho tinha, nenhuma, que testemunha existia, nenhuma, era só a palavra de um rapaz no escuro, o Bramani agradeceu, meio sem acreditar, e os dois seguiram seus caminhos, os anos passaram, Junha terminou seus estudos, voltou para Benares, e o tempo trouxe o que tinha que trazer, o velho rei morreu, e o jovem subiu ao trono, Junha agora era de fato o rei, e como todo rei recém-coroado, ele saía em processão pela cidade, montado num elefante magnífico, todo enfeitado, o povo se acotovelando nas ruas para ver o novo soberano passar, e foi aí, no meio daquela multidão, daquele barulho todo, que um velho cego ergueu a voz, vitória ao rei, vitória ao rei Junha, ele gritava, gritava, tentando furar o muro de gente e de soldados, quem ia ligar para um mendigo gritando, era só mais uma voz no meio de mil de cem, os guardas iam empurrar o velho para trás, como sempre se faz, mas o rei, lá do alto do seu elefante, ouviu, ouviu aquela voz, e alguma coisa nele reconheceu, Junha mandou parar a processão inteira, mandou trazer o velho até ele, e aqui está o coração da história, o rei poderia ter feito de conta que não era nada, quem se lembraria de uma promessa feita anos atrás, no escuro, sem ninguém por perto, o próprio velho mal acreditava, mas Junha desceu, mandou aproximar o homem, e perguntou, você é o brâmane com quem eu esbarrei naquela noite, lá longe, quando eu era só um estudante, e o velho tremendo, disse que sim, então o rei se virou pros seus ministros, na frente de toda a cidade, e contou, contou do esbarrão, da tigela quebrada, da comida no chão, da promessa que tinha feito, e disse, eu dei a minha palavra a esse homem quando eu não era nada, quando ele não tinha como me cobrar, agora eu sou rei, e um rei que não honra a palavra que deu no escuro não merece a coroa que carrega a luz do dia, e ali mesmo ele deu ao velho casas, terras, gados, servos, tudo o que ele ia precisar pelo resto da vida, o brâmane que tinha perdido uma única refeição numa noite sem lua, ganhou um futuro inteiro, agora, repara no que esse conto está dizendo, a virtude aqui tem nome, é a saca, a verdade, a integridade da palavra dada, mas tem um detalhe que muda tudo, a promessa não foi feita num contrato, confirma reconhecida, diante de testemunhas, foi feita no escuro, pra alguém que jamais poderia provar nada, e é justamente aí que ela vale mais, porque o caráter de uma pessoa não é o que ela faz quando todo mundo está olhando, é o que ela faz quando ninguém está, e a gente vive num tempo que aprendeu a fazer o contrário, sabe, a gente cumpre o que está no contrato, o que tem cláusula, o que dá processo, mas a palavra solta, o depois eu te ajudo, o pode contar comigo, aquilo que a gente diz no impulso de um momento generoso, isso a gente trata como descartável, quem ia cobrar mesmo, quem ia lembrar, a gente terceiriza a própria honestidade pra fiscalização dos outros, e quando ninguém está fiscalizando a gente afrocha, junha faz o oposto, pra ele a promessa feita quando ele não era nada vale tanto quanto qualquer decreto real, talvez mais, porque foi dada de coração livre sem cálculo, aqui vai uma coisa pra hoje, pensa numa promessa pequena que você fez e deixou escorregar, aquele te ajuda a mudar, te ligo essa semana, depois a gente resolve, algo que você falou de boa fé e que a outra pessoa lá no fundo talvez nem espere mais que você cumpra, escolhe uma só, e cumpre hoje sem que ninguém te peça, sem aviso, não pra ficar bem na foto, mas pra você se tornar, um pouquinho esse tipo de pessoa, a que honra a palavra que deu no escuro.