O elefante que sustenta a mãe cega

Budismo · Temporada 19 · Episódio 1 de 9 — em ordem cronológica

Um gigante capaz de esmagar um exército escolhe a fome pela mãe cega. Você trocaria sua liberdade por essa caverna?

▶ Ouvir o episódio

Transcrição

Imagina um animal tão grande, tão forte, que poderia derrubar uma árvore inteira só apoiando a testa nela. Um animal que reescobiçam, que exércitos querem montar para ir à guerra, e imagina que esse animal, tendo tudo isso, escolhe ficar quieto na floresta, sem comer direito, definhando aos poucos, por uma única razão, lá no escuro de uma caverna tem uma mãe velha e cega que vai morrer de fome se ele não voltar. Você largaria a sua liberdade por isso? Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, quando ainda estava trilhando o longo caminho para se tornar desperto, nessas histórias, o Bodhisatta, o futuro Buda, às vezes nasce como rei, às vezes como sábio, e muitas vezes como animal.

E nesse aqui ele nasce como elefante, um elefante todo branco, do tamanho de uma montanha, vivendo nas profundezas dos Himalayas. Esse elefante era diferente dos outros. Os elefantes da manada viviam em bando, disputando comida, disputando espaço, fazendo barulho que elefante faz. Mas o nosso Bodhisatta tinha uma preocupação que nenhum outro tinha, a mãe dele estava velha, e não era só velha, estava cega, os olhos dela tinham se apagado com o tempo, e ela já não enxergava o capim mais verde, nem a água mais limpa, nem o caminho de volta para a sombra. Uma elefanta cega no meio da floresta é uma elefanta condenada, porque os outros não esperam.

Os outros não guiam, os outros seguem em frente atrás do alimento e deixam para trás quem não acompanha. Então o elefante branco tomou uma decisão. Ele saiu da manada, saiu de vez, levou a mãe para longe, para uma região tranquila do monte, onde havia uma caverna fresca ao lado de um lago de águas calmas, com lotos boiando na superfície que capim macio nas margens. E ali ele se instalou para ser, sozinho tudo o que a mãe precisava. Os olhos dela, as pernas dela, o sustento dela, repara como era a rotina. De manhã, ele ia buscar a fruta mais doce, o broto mais tenro, e trazia na tromba até a boca dela.

Levava ela com cuidado até a beira do lago, jogava água fresca nas costas dela para refrescar do calor, e na hora de descansar a conduzia de volta para a caverna, andando devagarinho para que ela não tropeçasse, sentindo o corpo dela encostado no dele para que ela soubesse o caminho. Dia após dia, sem reclamar, sem pressa, sem esperar nada em troca, porque ela não tinha nada para dar em troca, ela só tinha a fome e o escuro, e ele dava o resto. Um dia, um guarda florestal que vivia em Benares se perdeu na mata, andou em círculos, gritou de medo, e foi justamente o elefante branco que o encontrou.

O homem entrou em pânico ao ver aquele bicho enorme, mas o elefante, com toda a calma, perguntou por que ele chorava, e o pôs sobre as costas, carregou ele com gentileza por dias até a borda da floresta e mostrou o caminho de volta para a cidade. Só que o coração humano nem sempre devolve bondade com bondade. Esse homem chegou em Benares bem na hora em que tinha morrido o elefante de batalha do rei, e saiu um pregão pela cidade, quem souber de um elefante digno de um rei que avise. E o homem pensou na sua salvação, pensou na recompensa, e foi correndo contar ao rei que tinha visto, lá no fundo da mata, um elefante branco perfeito, manso magnífico.

O rei mandou os domadores, e eles foram e acharam o elefante dentro do lago, comendo lotos em paz. Agora presta atenção no que aconteceu, porque é o coração do conto. O elefante viu os homens chegando com cordas e ganchos, ele que poderia ter esmagado todos eles com uma só investida, que tinha força para espalhar aquele grupo inteiro como folhas no vento. Não fez nada, ele pensou assim, se eu reagir, posso matar centenas, mas se eu me deixar levar sem violência, ninguém se machuca. E ficou parado, deixou que o amarrassem, deixou que o levassem para Benares, para o estábulo real, enfeitado com guirlandas, oferecido com a melhor comida do reino.

E ele não tocou em nada. Posto diante dos manjares mais finos, do capim mais doce, da cana mais fresca, o elefante recusou tudo. O rei, intrigado, foi até ele, e o elefante então falou, ele disse, eu não como o rei. Porque lá na floresta, sozinha numa caverna ao pé da montanha, está a minha mãe. Ela é cega, e sem mim ela não bebe, não come, não encontra sombra. Enquanto ela passa fome no escuro, como é que eu vou comer a sua cana? O rei de Benares ouviu aquilo e algo se quebrou dentro dele. Um rei, acostumado a tomar, acostumado a possuir, ficou diante de uma criatura que tinha tudo pra desejar a liberdade só pra si, e que só queria voltar pra cuidar de uma mãe cega.

E o rei disse, vai, solta esse elefante. Um filho que não come o pão da fartura, enquanto a mãe tem fome, vale mais do que qualquer exército, e libertou ele com honras. O elefante voltou voando pela floresta, encheu a tromba de água, correu até a caverna, e a mãe, ouvindo os passos, achou que era a chuva chegando, mas não era a chuva. Era o filho que tinha voltado. E ela, de tanta alegria, abençoou o rei que tinha devolvido seu menino. Agora, repara no que esse conto está dizendo. A virtude central aqui tem nome em palí, é a gratidão, o reconhecimento da dívida que a gente tem com quem nos criou, os budistas chamam de Katanyuta, o coração que se lembra do que recebeu, e o conto coloca isso num lugar incômodo de propósito.

A mãe é cega, é velha, não pode dar nada de volta, não é útil, e é exatamente por isso que cuidar dela é tão puro, não tem cálculo, não tem retorno. E olha como isso bate de frente com o nosso tempo. A gente vive numa época que mede tudo pela utilidade, pelo desempenho, pelo quanto a pessoa rende. A gente terceiriza o cuidado, agenda 15 mil pros pais entre uma reunião e outra, manda mensagem no aniversário e acha que cumpriu. E quando alguém envelhece, fica lento, fica dependente, a gente trata isso quase como um inconveniente de logística, o elefante tinha a floresta inteira, tinha a força de mil homens, tinha a liberdade na palma da tromba, e escolheu a caverna, escolheu a lentidão, escolheu carregar o peso de quem não conseguia mais andar sozinha, não por obrigação rabugenta, por amor que se lembra, aqui vai uma coisa pra hoje, pensa em alguém que cuidou de você quando você não podia retribuir nada, quando você era só fome e escuro precisando de tromba, pode ser um pai, uma mãe, uma avó, alguém, e hoje, ainda hoje, faz um gesto que não rende nada e não resolve nada de prático, liga só pra ouvir a voz, vai sentar do lado sem pressa, leva a fruta doce na mão, não pra cumprir tabela, só pra que essa pessoa saiba, no escuro dela, que os seus passos ainda voltam pra caverna.