um homem muito velho junta o povo inteiro. Ele sabe que vai morrer logo, e em vez de falar das próprias vitórias, ele faz uma pergunta. Uma pergunta que cada pessoa ali ia ter que responder sozinha. A pergunta foi mais ou menos essa. Escolham hoje a quem vocês vão servir. Deixa eu te contar essa porque é uma das despedidas mais bonitas da Bíblia inteira. O homem se chamava Josué. Ele era o líder do povo de Israel. Foi ele que levou o povo pra dentro da terra prometida, depois que o Moisés morreu. Atravessou o rio, ganhou batalha, dividiu a terra entre as famílias. Fez tudo que tinha pra fazer.
E agora ele estava velho, muito velho, e sentiu que o fim estava chegando. Então ele juntou o povo. Os líderes, os anciãos, os chefes de família, todo mundo que importava. E começou a falar a última vez. E repara como ele começa. Ele não fala de si mesmo. Não diz olha tudo que eu fiz por vocês. Ele fala de Deus. Ele diz mais ou menos, vocês viram com os próprios olhos tudo o que Deus fez. Não fui eu que ganhei essas batalhas pra vocês. Foi ele. Eu só estava junto. E ele faz um aviso forte. Um aviso de quem ama o povo e tem medo do que pode acontecer com eles depois que ele não estiver mais ali.
Ele diz, vocês têm a terra. Tem casa, tem vinha, tem tudo. Mas tome muito cuidado. Não se misturem com os povos em volta de um jeito que faça vocês esquecerem de Deus e começarem a adorar os ídolos deles. Aquelas estátuas, aqueles outros deuses. Porque é assim que o coração se perde. Devagar. Pela beiradas. E aí ele usa uma imagem muito forte. Ele diz, do mesmo jeito que todas as coisas boas e prometidas se cumpriram pra vocês, também as coisas ruins podem vir. Se vocês abandonarem o caminho, não dá pra ter os dois. Não dá pra servir a Deus e aos ídolos ao mesmo tempo. E então vem o momento mais famoso.
O povo todo reunido num lugar chamado Sikém. E o Josué faz uma espécie de viagem no tempo, contando a história do povo do começo. Ele começa lá atrás. Diz olha, antigamente, os antepassados de vocês moravam do outro lado do Rio e adoravam outros deuses. E Deus chamou o Abraão, tirou ele de lá e fez dele uma grande família. E depois vieram o Isaac, o Jacó. E depois o povo foi parar no Egito, virou escravo. E Deus mandou o Moisés. Tirou todo o mundo de lá, abriu o mar, sustentou no deserto e trouxe vocês até aqui pra essa terra que vocês não plantaram. Pra comer de árvores que vocês não plantaram.
Ele recontou tudo. Pra mostrar isso só. Nada disso vocês fizeram sozinhos. Tudo foi dado. E aí, no fim de toda essa história, ele chega na pergunta. A pergunta que ele queria fazer desde o começo, ele diz então agora, escolhem. Escolhem hoje a quem vocês vão servir. Se vão servir aos deuses antigos, lá de trás, ou aos deuses dos povos onde vocês moram agora, escolhem. Mas eu já escolhi. E aí ele fala a frase da história. Ele diz eu e a minha casa. Nós vamos servir a Deus. Para um ser nessa frase. Eu e a minha casa. Ele não disse e espero que vocês escolham certo. Ele não tentou obrigar ninguém.
Ele só disse, olha, eu não controlo o que vocês vão fazer. Mas a minha parte, a minha casa, a minha família, isso aqui eu decido. E a gente vai por esse caminho. Ele assumiu a escolha dele em voz alta, na frente de todo mundo, sem esperar os outros decidirem primeiro. E o povo respondeu. Ele disse não. A gente também escolhe Deus. Depois de tudo que a gente viu, como é que a gente ia abandonar? E aí o Josué faz uma coisa surpreendente. Em vez de comemorar, ele desafia. Ele diz, cuidado com o que vocês estão falando. Vocês têm certeza. Porque é fácil dizer sim num dia de emoção.
Difícil é cumprir depois quando ninguém está vendo. E o povo insistiu. Diz-se de novo, a gente escolhe Deus. A gente vai obedecer. Então o Josué fez um acordo com eles ali mesmo. E pegou uma pedra grande, enorme, e colocou debaixo de uma árvore num lugar sagrado. E disse, essa pedra vai ficar aqui como testemunha. Ela ouviu tudo o que vocês falaram hoje. Se um dia vocês esquecerem, essa pedra vai estar aqui, lembrando, uma pedra, para guardar a memória de uma promessa. E depois disso, o Josué mandou o povo embora, cada um para a sua terra. E pouco tempo depois, ele entendeu, com 110 anos, e enterraram ele na terra que tinha sido dada a ele.
E é aqui que eu paro para pensar. O que mais me pega nessa história é a coragem daquela frase. Eu e a minha casa. Porque é muito fácil ficar esperando os outros decidirem primeiro. A gente faz isso o tempo todo. A gente quer ver para onde a maioria vai, para depois ir junto. A gente não quer escolher antes, sozinho, porque dá medo de escolher errado, ou de escolher sozinho. E o Josué fez o contrário. Ele escolheu primeiro. Em voz alta. Sem saber se alguém ia escolher junto. Ele disse, olha, não sei o que vocês vão fazer. Mas a minha casa, isso aqui eu decido. E tem outra coisa que me toca.
A pedra. Ele sabia que as pessoas esquecem. Que a gente promete numa emoção e depois a vida segue e a gente afrouxa. Então ele deixou uma marca. Uma coisa física no mundo. Para lembrar do que foi combinado. A gente também esquece o que decide. As promessas que a gente faz para si mesmo em poucas semanas. Talvez a gente precise das nossas pedras também. Alguma coisa que lembre. Aqui vai uma coisa para hoje. Pensa numa escolha que é só sua. Não dos outros. Uma direção que você sabe que quer dar para sua vida, para sua casa, para quem depende de você. Uma coisa que não adianta ficar esperando o mundo decidir por você.
E só por hoje, faça como Josué. Escolha primeiro. Não se vê para onde os outros vão. Diga para você mesmo, com clareza. A minha casa vai por aqui. E se você quiser, deixe a sua pedra. Pode ser um bilhete. Uma frase anotada. Um lembrete. Qualquer coisa que daqui a alguns meses, quando a vida tiver te empurrado para longe, esteja ali em silêncio lembrando. Olha num certo dia você escolheu isso.