O ciclo dos juízes — desobediência e libertação · Juízes 2:6–3:6

A Biblia · Temporada 4 · Episódio 8 de 13 — em ordem cronológica

Você está preso em uma roda que te arrasta e faz esquecer. O mais perigoso é que você já esteve nela, mas não se lembra.

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Transcrição

Tem uma roda que gira, e gira, e gira, sempre do mesmo jeito, e quem está dentro dela quase nunca percebe que já passou por ali antes. A pessoa esquece, faz uma besteira, se dá mal, pede socorro, é salva, fica bem. E aí, depois de um tempo bom, esquece de novo, e recomeça tudo. É exatamente essa roda que eu quero te mostrar hoje, porque um povo inteiro ficou preso nela por muito tempo, e talvez você reconheça essa roda, porque ela não é só deles. Deixa eu te contar. Lembra do Josué, o líder que levou o povo de Israel para dentro da terra prometida. Ele tinha morrido, e junto com ele, foi morrendo toda a geração que tinha visto, com os próprios olhos, as coisas grandes que Deus tinha feito.

Essas pessoas tinham visto o mar abrir, tinham visto as muralhas caírem, tinham visto as batalhas serem ganhas, elas sabiam, na pele, de onde tinha vindo tudo que elas tinham. Mas aí veio a geração seguinte, os filhos, e os netos. E o texto diz uma coisa muito triste, diz que cresceu uma nova geração que não conhecia Deus, nem o que Ele tinha feito por Israel. Repara nisso, não é que eles eram pessoas más, é que eles não viveram aquilo, eles ouviram falar, mas não viram, e o que a gente só ouve falar é muito mais fácil de esquecer do que o que a gente viveu. E aí começa a roda, vou te mostrar ela girando, porque depois você vai ver que ela sempre repete o mesmo desenho.

Primeira parte, o povo esquece e se desvia, eles olham para os povos em volta, que adoravam estátuas, ídolos, outros deuses, e começam a fazer igual, largam o caminho dos pais e vão atrás dessas outras coisas, devagar, pelas beiradas, igual o Josué tinha avisado que ia acontecer, segunda parte, as coisas dão errado, sem aquela proteção, eles ficam fracos, e os povos vizinhos começam a atacar, a dominar, a oprimir, a vida fica dura, eles perdem a paz, perdem a segurança, perdem o sossego, viram presa fácil. Terceira parte, no fundo do poço, eles gritam por socorro, quando o aperto fica insuportável, eles lembram de Deus, e choram, e pedem ajuda, aquele povo que tinha virado as costas, de repente na dor, se vira de novo para ele.

Quarta parte, vem o resgate, e aqui entra a palavra que dá nome a essa parte da história, Deus levanta um juiz, agora, atenção, porque juiz aqui não é o que a gente pensa hoje, não é uma pessoa de toga, sentada num tribunal, batendo um martelo, naquele tempo, um juiz era um líder, quase um herói, uma pessoa que Deus escolhia e dava força, coragem e sabedoria para libertar o povo, para juntar a galera, enfrentar o inimigo, e devolver a liberdade, e funcionava, o juiz aparecia, o povo era salvo, o inimigo era derrotado, e vinha um tempo de paz, anos e anos de sossego, e aí, vem a quinta parte, que é a mais triste de todas, o juiz morre, e o povo, depois de um tempo de paz, esquece de novo, e faz tudo de novo, se desvia, se dá mal, sofre, grita, é salvo, fica bem, e esquece outra vez, a roda gira, sempre igual, esquecer, sofrer, gritar, ser salvo, e esquecer de novo, e o texto conta que isso aconteceu várias e várias vezes, por muitos e muitos anos, foi o mesmo desenho, como se o povo não conseguisse aprender de vez, como se cada geração precisasse cair no mesmo buraco para lembrar que o buraco existia, e tem um detalhe interessante, o texto explica que alguns povos e inimigos foram deixados ali de propósito, por perto, e uma das razões era para testar o povo, para ver se eles iam, ou não, seguir o caminho, como uma prova que se repetia em cada geração nova, vocês vão escolher lembrar, ou vão esquecer de novo, e é aqui que eu paro pra pensar, porque essa roda não é só deles, eu olho pra ela e me reconheço, e acho que você talvez também, a gente faz isso, a gente passa por uma dor, aprende uma lição na marra, jura que nunca mais, e por um tempo a gente lembra, a gente muda, a gente fica bem, e aí a vida melhora, e quando a vida melhora, a gente afrouxa, a gente esquece o aperto que passou, volta pros velhos hábitos, e sem perceber, tá girando de novo na mesma roda, indo pro mesmo buraco que jurou nunca mais cair, quantas vezes você já disse nunca mais, sobre alguma coisa, e se viu, meses depois, exatamente no mesmo lugar, e o que mais me pega é porque isso acontece, repara que o problema do povo começou na memória, a geração que viveu as coisas grandes não esqueceu, quem esqueceu foi a geração que só ouviu falar, a dor a gente esquece rápido quando ela passa, o aperto quando alivia, vira a história distante, e é aí, no conforto, que a roda recomeça, não é na crise que a gente se perde, é na bonança, quando baixa guarda, aqui vai uma coisa pra hoje, aqui vai uma coisa pra hoje, pensa numa lição que a vida já te ensinou na dor, uma daquelas que você aprendeu apanhando, um nunca mais que você prometeu pra si mesmo num momento difícil, e só por hoje, em vez de esperar a próxima queda pra lembrar, pergunte uma coisa, será que eu não estou começando a girar de novo, será que, agora que está tudo mais tranquilo, eu não estou deixando voltar bem aquilo que me machucou, você não precisa se cobrar, só perceber a roda enquanto ela ainda está no começo do giro, porque a roda é mais fácil de parar no começo do que lá embaixo, no fundo do poço, e lembrar do aperto, mesmo quando ele já passou, talvez seja a única forma de não precisar passar por ele de novo.