Você já ficou com raiva porque o sinal ficou vermelho? Pensa bem, o sinal ficou vermelho, uma luz, uma luz ficou da cor errada no momento errado e deu raiva. Por quê? Buda passou anos estudando exatamente essa pergunta de onde vem esse incômodo, de onde vem a raiva, a ansiedade, a frustração, o ciúme, a sensação de que a vida não está do jeito certo e ele encontrou a resposta. É mais simples do que você imagina. O sofrimento não vem de fora, não vem do sinal vermelho, não vem da pessoa que te ignorou, não vem do emprego ruim ou do trânsito ou da chuva no dia errado. O sofrimento vem do querer.
Em palí, a língua de Buda, isso tem um nome, tanha, que significa sede, como aquela sede de quem não bebe água há horas, uma vontade que não para, que sempre quer mais, que nunca está completamente satisfeita. Tanha tem três formas. A primeira é querer o que você não tem. O celular novo, o corpo diferente, o relacionamento que o outro tem, a vida que você imagina que seria melhor do que a sua. A segunda é não querer o que você tem, o trabalho que você odeia mais precisa. A dor de cabeça que não passa, a pessoa difícil que você não escolheu conviver. O sinal vermelho, a terceira é querer que o que você ama dure para sempre, querer que a pessoa que você ama nunca mude, que o momento bom não acabe, que você não envelheça, que nada se perca.
As três formas têm uma coisa em comum, você está em guerra com a realidade. A realidade diz, o sinal ficou vermelho, você diz não deveria ter ficado, a realidade diz, essa fase boa vai acabar, você diz não pode acabar. A realidade diz, as coisas mudam, você diz eu não quero que mudem, e nessa guerra você sempre perde, porque a realidade não negocia, agora uma coisa importante. A muda não estava dizendo que você não pode ter desejos, não estava dizendo que querer coisas é errado, não estava mandando você largar tudo e virar monge. Ele estava dizendo algo mais sutil, tem uma diferença entre gostar de algo e depender de algo para ser feliz, você pode gostar muito de sorvete de chocolate, isso é simples, é bonito, é humano, mas se você precisar do sorvete para seu dia estar bom, aí começa o problema, porque o sorvete vai acabar.
A sorveteria vai fechar, o sabor preferido vai sair de linha, e quando isso acontece você sofre, não por causa do sorvete, por causa do quanto você precisava dele, tanha é a necessidade, não o gosto, como usar isso hoje. Hoje quando você notar que está irritado ou ansioso ou frustrado com alguma coisa, faça uma pergunta simples para si mesmo, o que eu estou querendo que seja diferente do que é, só essa pergunta, sem tentar resolver, sem tentar parar de querer, só identificar o querer, às vezes só de nomear ele, ele perde um pouco da força, como quando você acende a luz num quarto escuro e percebe que o monstro era só uma mochila pendurada na cadeira, o querer ainda vai estar lá, mas você vai estar olhando para ele, em vez de ser ele.