"E se eu te dissesse que existe um botão de pausa para o sofrimento? Não estou falando de ignorar os problemas. Não estou falando de fingir que está tudo bem quando não está. Não estou falando de meditação por dez ais por dia numa caverna. Estou falando de algo que Buda descobriu naquela noite debaixo da árvore bode. Existe saída. Nos dois últimos episódios a gente viu duas coisas, que o sofrimento existe, e que ele vem do querer, dessa sede que nunca para de pedir mais. Mas Buda não parou aí. Porque se você descobre que um problema existe e descobre de onde ele vem, a próxima pergunta é óbvia.
Dá para parar. E a resposta de Buda foi sim. Isso é a terceira nobre verdade. Em pale se chama niroda, que significa cessação. Fin. Como quando você fecha uma torneira que estava pingando? O barulho para, mas o que para exatamente? Não é a vida que para. Não é o sentimento que para. Você ainda vai sentir alegria, tristeza, amor, saudade. Você ainda vai ter vontades e preferências. Você ainda vai ser humano. O que para é a guerra. Lembra que no episódio passado a gente viu que o sofrimento vem de estar em guerra com a realidade. De querer que as coisas sejam diferentes do que são.
Niroda é quando essa guerra termina. Não se desistiu. Mas porque você entendeu que nunca fez sentido brigar com a realidade? Pensa assim. Imagine que você está segurando um cubo de gelo com força. Com toda a força que você tem. Porque você quer que ele não derreta. Quanto mais você aperta, mais rápido ele derrete. E mais a sua mão dói. Niroda é quando você abre a mão. O gelo ainda vai derreter. Mas a sua mão para de doer. Você não perdeu nada que fosse possível guardar. Você só parou de machucar a própria mão tentando segurar o impossível. Agora, uma coisa que confunde muita gente.
Buda chamou o estado de niródia completo de nibana. As pessoas traduzem como iluminação ou como paraíso budista. Como se fosse um lugar distante que você só alcança depois de muitas vidas de prática. Mas nos próprios textos Buda descreveu nibana como algo que pode ser tocado agora. Não permanentemente, não de uma vez, não de forma perfeita. Mas tocado. Você já teve um momento assim? Um momento em que você estava tão presente, tão inteiro no que estava fazendo, que a sensação de que algo está faltando simplesmente sumiu? O de ter sido brincando com uma criança? Pode ter sido no meio de uma música? Pode ter sido olhando o mar? Pode ter sido numa conversa que fluiu de um jeito que você não esperava? Aquele momento de completude.
Sem querer que dure. Sem querer que seja diferente. Só sendo o que é. Buda diria que você tocou nibana. Não é magia. Não é sobrenatural. É o que acontece quando a guerra para. Mesmo que por alguns segundos, como usar isso hoje. Hoje, tenta encontrar um momento assim. Pode ser pequeno. Pode ser de trintas hoje. Escolha uma coisa simples que você vai fazer durante o dia. Tomar um café. Lavar a louça. Caminhar da sala até a cozinha. E durante aquela coisa. Só aquela coisa. Tente largar o cubo de gelo. Não pense no que precisa fazer depois. Não pense no que aconteceu antes. Não queira que aquele momento seja diferente do que é.
Só abra a mão e note o que aparece quando você para de apertar.