Imagina que alguém entra correndo na sua casa e grita, sai, sai agora e está tudo pegando fogo. O que você faz? Você fica ali parado, abraçado às suas coisas, ou você pega o que consegue e leva para fora antes que vire cinza. Esse conto diz uma coisa estranha, que a sua casa já está pegando fogo neste exato momento, e você só não está sentindo o calor ainda. Deixa eu te contar. Esse é um dos játakas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, ainda estava se tornando Buda, vida após vida. A gente chama essa pessoa de Bodhisatta, o ser que caminha rumo ao despertar.
E nessas histórias ele aparece de muitos jeitos, às vezes como um bicho, às vezes como um rei, às vezes como um homem simples. Nesse aqui, ele aparece como um rei, um rei que descobriu uma coisa que quase ninguém quer olhar de frente. Diz a história que o Bodhisatta tinha nascido numa família de muita riqueza. Cofres cheios, terras, celeiros transbordando de grão, criados que iam e vinham o dia inteiro. E ele não era um homem mesquinho, não. Ele dava, mandava abrir salões de doação nos quatro portões da cidade e mais um no centro. Pão para quem tinha fome, roupa para quem tinha frio, remédio para quem adoecia.
Todo dia, sem falta. Os pobres da cidade inteira sabiam, na porta daquele homem, a mão nunca volta vazia. Mas a generosidade dele tinha uma raiz funda. Não era só costume, não era só para ficar bem visto. Ele tinha entendido uma coisa, e essa coisa o assombrava de um jeito bom. Numa certa noite, dizem, dois seres celestes desceram para testar a fé dele. Apareceram no salão, e em vez de elogiar a doação, começaram a provocar. Para que dar tanto, disseram, guarda para ti, a riqueza é tua, junta, acumula, deixa para os teus filhos, porque distribuir aos quatro ventos o que custou tanto a juntar? E o Bodhisatta olhou para eles, calmo, e respondeu com uma imagem que ficou.
Ele disse, mais ou menos assim, reparem, quando a casa de um homem está em chamas, qual é o objeto que ele consegue salvar? Aquele que ele carrega para fora. O que fica dentro, o fogo come, não sobra nada. E aí ele completou. O mundo inteiro está em chamas. Em chamas de envelhecer. Em chamas de adoecer. Em chamas de morrer. Tudo o que eu tenho mais cedo ou mais tarde, o fogo vai consumir. Então o que eu faço? Eu carrego para fora. E a única coisa que dá para carregar para fora dessa casa que arde, é aquilo que eu dou. Aquilo que eu doei já está a salvo. O fogo não alcança mais. Você reparou no que ele fez? Ele pegou a coisa mais óbvia do mundo.
Que a gente vai envelhecer, adoecer e morrer. Que tudo o que a gente acumula um dia vai sumir. E em vez de ficar paralisado com isso, em vez de fingir que não é verdade, ele transformou isso em pressa. Não uma pressa ansiosa. Uma pressa generosa. Uma pressa de fazer o bem enquanto a mão ainda alcança. Enquanto o coração ainda bate. Enquanto há tempo. Porque é isso que o conto quer dizer com tudo está em chamas. Não é uma ameaça. É um lembrete. A casa está queimando devagar. Num fogo tão lento que a gente esquece que ele existe. E o que a gente faz com esse esquecimento? A gente guarda.
A gente adia. A gente diz. Depois eu ajudo. Depois eu visito. Depois eu dou. Quando eu tiver mais. Quando sobrar. Quando for a hora certa. E os seres celestes no fundo eram exatamente essa voz. A voz que diz guarda. Segura. É teu. O Bodhisatta não caiu nela. Ele entendeu que segurar é justamente deixar o fogo levar. Os dois seres, dizem, ficaram tão tocados com a sabedoria daquela resposta que abandonaram a provocação. Reconheceram que estavam diante de alguém que tinha visto a verdade das coisas sem se desesperar com ela. E foram embora, deixando o homem continuar o que fazia. Dar. Com as mãos abertas e o rosto sereno sabendo exatamente por que dava.
Agora, repara no que esse conto está dizendo para a gente. Aqui, hoje. A gente vive numa cultura que faz o contrário exato do Bodhisatta. A gente é treinado para acumular. Junta dinheiro, junta seguidores, junta coisas, junta planos para um futuro que a gente trata como se fosse garantido. E o tempo todo a gente adia a generosidade para esse futuro. Quando eu estiver mais estável, aí eu ajudo. Quando as crianças crescerem, aí eu visito meus pais. Quando der, eu ligo para o amigo que sumiu. A gente vive como se a casa não estivesse pegando fogo. Como se desse tempo. Como se o depois fosse um lugar real onde a gente vai chegar com calma.
E o conto, com toda a gentileza, vira para você e diz, a casa está queimando, não para te assustar, para te lembrar do que importa, daquilo que ainda dá para carregar para fora. Porque tem coisa que, se você adiar demais, o fogo leva e não tem depois que devolva. A visita que você não fez, a palavra de carinho que você engoliu, a ajuda que você podia ter dado quando a mão alcançava. Isso no budismo tem um nome bonito, dana a virtude de dar. Não é só dar dinheiro, é dar atenção, dar tempo, dar perdão, dar presença. E dana é a primeira das virtudes justamente porque ela abre a mão, ela quebra o reflexo de segurar tudo, que é o reflexo que mais nos faz sofrer.
Aqui vai uma coisa para hoje. Pensa numa coisa boa que você vem adiando para dar a alguém. Pode ser pequena, uma ligação para quem você ama, um agradecimento que você nunca disse em voz alta, uma ajuda que você tem condição de oferecer e vem empurrando com uma barriga. Escolhe uma só. E faz hoje, ainda hoje, antes de dormir. Não amanhã, não quando der. Hoje, porque essa, dentre todas as coisas que você tem, é uma das únicas que você consegue carregar para fora da casa em chamas e, uma vez dada, o fogo não alcança mais.