Imagina um homem que largou tudo, largou o palácio, largou o ouro, largou a cama macia e a comida farta, e foi morar no meio da floresta só com uma túnica e uma tigela, anos de silêncio, de jejum, de meditação, e aí num único instante, por causa de uma coisa pequena, de um simples olhar, tudo isso começa a desmoronar. Como é que alguém tão forte cai tão fácil? A resposta a essa pergunta é o coração inteiro desse conto, porque ele não fala de gente fraca. Ele fala de gente muito forte que esqueceu de cuidar de uma porta. Deixa eu te contar, esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, quando ele ainda estava se tornando o Buda, vida após vida, às vezes como pessoa, às vezes como bicho.
E nessa aqui ele aparece como um grande mestre a seta, daqueles que dominaram a si mesmos a ponto de viver acima dos desejos do mundo. Conta a história que havia, naquele tempo, um sábio chamado Narada, ele tinha sido um homem rico, de família importante, mas largou a vida da cidade e foi viver na floresta como eremita. Lá ele desenvolveu uma calma tão profunda, uma concentração tão limpa, que alcançou os estados elevados da meditação. A gente diz, na linguagem dos contos, que ele ganhou os poderes, conseguia entrar e sair daquela criatude como quem entra e sai de casa. E ao redor dele se juntou um grupo grande de acetas, todos buscando o mesmo, e entre eles, mais velho, mais sereno, mais sábio que todos, estava o Bodhisatta.
O futuro Buda, o líder daquela comunidade de eremitas, por um bom tempo viveram assim, na paz da floresta, comendo raízes e frutas, bebendo da fonte, em silêncio. Até que veio a estação das chuvas. E como era costume, quando as trilhas alagavam, alguns acetas desciam até as terras dos homens, até uma cidade, para passar aquele período e recolher um pouco de sal e tempero. Narada foi um dos que desceram, lá embaixo ele foi acolhido na casa de uma família, e nessa casa havia uma jovem, conta o conto que ela era de uma beleza rara. E um dia, ao se levantar do banho, ela apareceu diante dele meio desalinhada, os cabelos soltos, a roupa em desordem.
E Narada olhou, olhou e não desviou, e naquele instante repara. Naquele único instante em que os olhos pousaram e a mente se agarrou ao que viu, anos e anos de prática começaram a rachar por dentro. Ele voltou para a floresta, mas voltou doente, não doente do corpo, doente daquele desejo que tinha entrado pelos olhos e não saía mais da cabeça, parou de comer direito, parou de meditar, ficava deitado, o rosto virado para a parede suspirando, seus poderes, aquela concentração tão custosa foram embora, escorregaram pelos dedos, os outros acetas vieram ver o que tinha acontecido. "Mestre, o que é isso, você que era nosso exemplo, o que te tomou?" e aí entra o Bodhisatta.
O velho líder veio, sentou-se ao lado dele, e não gritou, não humilhou, não fez sermão de fogo. Ele falou com a calma de quem entende o quanto isso dói, olhou nos olhos do companheiro caído e disse, mais ou menos assim, eu sei o que aconteceu, os teus sentidos te dominaram, os cinco sentidos irmãos são como cinco portas, e pela porta dos olhos entrou uma imagem, e a tua mente abriu a porta e deixou ela morar dentro, não foi a moça que te derrubou, foi a tua mente que não guardou a entrada, e continuou, repara como é, dizia o sábio, o olho corre atrás das formas, o ouvido atrás dos sons, o nariz atrás dos cheiros, a língua atrás dos sabores, o corpo atrás do toque macio, os sentidos são cavalos puxando uma carruagem, se ninguém segura as rédeas, eles te levam para o precipício, pois tu não és os cavalos, tu és quem segura as rédeas, tu apenas esqueceste, por um instante, que a rédea estava na tua mão, e o Bodhisatta lembrou nárada de tudo o que ele já tinha conquistado, da paz que ele já tinha provado, e perguntou com duçura, você vai jogar fora um tesouro desses por causa de uma fome que, se você não alimentar passa, porque o desejo é assim, quanto mais você dá de comer, mais faminto ele fica, não se apaga jogando lenha, ele apaga parando de soprar, e aquela voz, aquela firmeza gentil, alcançou nárada, ele se sentou, respirou, voltou a olhar para dentro em vez de para fora, e aos poucos, com esforço, com aquilo que os budistas chamam de viria, a energia paciente de quem recomeça, ele reconquistou a quiatude que tinha perdido, levantou-se da cama, voltou para a floresta de verdade, voltou para a prática, caiu sim, mas se levantou, agora repara no que esse conto está dizendo pra gente, aqui, hoje, ele não está dizendo que olhar é pecado, nem que o mundo é uma armadilha que a gente tem que odiar, ele está dizendo uma coisa muito mais útil e muito mais difícil, que a porta de entrada do sofrimento são um sentido sem guarda, e olha onde a gente vive, a gente vive numa época que faz o oposto exato do que o sábio ensinou, a gente arrancou as portas das dobradiças, o dia inteiro é uma enxurrada entrando pelos olhos e pelos ouvidos, uma tela que rola sozinha, uma notificação atrás da outra, um vídeo que já emenda no próximo, um anúncio desenhado por gente muito esperta justamente para fisgar o teu olhar e não soltar, tudo no nosso tempo foi feito para capturar os sentidos, e a gente, sem perceber, vai ficando igualzinho ao narada deitado, suspirando, querendo uma coisa que viu numa imagem, sem mais saber meditar, sem mais conseguir ficar dois minas em silêncio com a própria cabeça, a diferença é que o narada percebeu que tinha caído, e essa é a parte que importa, não é nunca ser fisgado, isso ninguém consegue, é reparar quando foi e voltar a pegar a rédea, os budistas chamam isso de indria sanvara, a guarda dos sentidos, não é fechar os olhos para o mundo, é escolher com consciência o que entra e o que você deixa morar dentro, aqui vai uma coisa para hoje, escolhe uma das tuas portas, vou sugerir a mais escancarada, que é a dos olhos no celular, hoje, uma vez só, quando a tua mão for pegar o telefone no automático, sem motivo, só pelo puxão, para por 3S e repara o que está te puxando, não precisa nem largar o aparelho, só repara que existe uma rédea e que ela está na tua mão, esse pequeno instante de perceber, repetido é exatamente o que o velho sábio fez por narada, é você sentando do seu próprio lado e dizendo "Com gentileza, a porta é minha e eu decido quem entra".