O rei Cetiya, a primeira mentira e a queda

Budismo · Temporada 16 · Episódio 6 de 10 — em ordem cronológica

A primeira mentira do mundo não veio de um vilão, veio de um rei. Um homem tão íntegro que flutuava no ar – até que sua verdade se desfez.

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Transcrição

E se a primeira mentira contada no mundo tivesse sido dita por um rei, não por um ladrão, não por um trapaceiro de beira de estrada, mas por alguém que todos amavam, que flutuava no ar de tão íntegro, que vivia cercado de Benson só porque nunca jamais tinha torcido a verdade? E se essa mentira, essa primeira de todas, tivesse custado a ele tudo o que tinha? Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda estava no longo caminho de se tornar Buda, vida após vida, às vezes como homem, às vezes como bicho, sempre aprendendo alguma coisa sobre como a gente deveria viver.

Só que nesse conto aqui tem uma diferença, e uma diferença importante. Dessa vez, o futuro Buda não é o protagonista. Dessa vez, ele observa, e quem ocupa o centro da história é um rei chamado Setia, um homem que tinha tudo, e que escolheu, num instante, jogar tudo fora por causa de uma frase. Porque o detalhe é bonito e meio assustador ao mesmo tempo. Diz à tradição que, naqueles tempos muito antigos, os homens viviam muitíssimo mais do que vivem hoje. E viviam assim porque havia uma coisa simples no meio deles. Ninguém mentia. A palavra mentira existia, mas era como uma palavra de uma língua estrangeira, dessas que você ouve falar mas nunca viu acontecer de verdade.

As pessoas não sabiam o gosto de uma mentira na boca, não conheciam aquela pequena torção. Aquele momentinho em que a gente decide dizer o que é conveniente em vez do que é verdadeiro. E o rei Setia reinava numa cidade chamada Sotivat, e era o mais admirado de todos os homens justos, tão justo que, conta a história, ele tinha quatro poderes maravilhosos. Ele frutuava no ar, sustentado pela própria retidão. Quatro guardiões celestes ficavam ao seu redor, de espada em punho protegendo-o. Um perfume de sandalo saía do seu corpo, e da sua boca saía o aroma do lotus. Quatro dádivas, todas elas brotando de uma única raiz, a verdade.

Enquanto ele fosse verdadeiro, ele se erguia. Literalmente, os pés dele não tocavam o chão. Agora, o rei tinha um sacerdote, um brâmane, um homem mais velho que o servia. E esse sacerdote tinha um irmão mais novo, chamado Korakalamba. Pelo costume daquele tempo, quando o sacerdote ficasse velho demais, quem deveria herdar o cargo, por direito de nascimento, era esse irmão mais novo. Mas o rei Cetia gostava de outro homem, um sujeito mais jovem e mais hábil, e queria pôr esse no lugar. E o sacerdote velho foi até o rei e disse, com toda tranquilidade de quem confia, meu Senhor, quando eu me for, é meu irmão Korakalamba quem deve assumir.

Esse é o costume, e o rei concordou, concordou de boca, mas no coração ele já tinha decidido o contrário. O tempo passou, o velho sacerdote morreu, e chegou o dia da escolha. E aí o rei, querendo agradar o seu favorito, resolveu simplesmente trocar a ordem das coisas. Ele ia dizer, na frente de todo mundo, que o irmão mais velho nunca tinha dito aquilo, que o costume era o contrário, que o cargo, na verdade, pertencia ao mais jovem por nascimento e não ao Korakalamba. Repara, ele ia mentir. Pela primeira vez na história, um homem ia abrir a boca e dizer, de propósito, o que sabia ser falso.

E Korakalamba, esperto, sentiu que vinha. Foi até o rei, na véspera, e implorou, meu Senhor, não diga uma coisa que não é. O Senhor sabe que o cargo é meu, não troque a verdade pela vontade. E o rei leve, sorridente e respondeu. A verdade vai me sustentar, como sempre sustentou. Como se a verdade fosse uma propriedade dele, uma posse, e não uma coisa que a gente precisa honrar a cada palavra. Veio o dia, reuniu-se a corte inteira. E o rei setia, frutuando no ar, como sempre, perfumado de sândalo e de lotos, abriu a boca para anunciar a sucessão. E disse a mentira, disse que o irmão mais velho jamais havia falado em favor de Korakalamba.

Disse que o costume favorecia o outro. E foi nesse instante exato que o mundo mudou. No segundo em que a primeira mentira deixou os lábios dele, os pés do rei tocaram o chão. Ele afundou. As quatro espadas dos guardiões celestes desapareceram. O perfume de sândalo virou um cheiro ruim. O aroma de lotos secou na boca dele. E a terra, conta o conto, se abriu, foi se abrindo aos poucos, engolindo o rei, primeiro até os tornozelos. E ele teve uma chance. Os sábios em volta gritaram, "Senhor, diga a verdade ainda dá tempo, mas o orgulho já tinha tomado conta." Ele mentiu de novo, mais fundo.

A terra subiu até os joelhos, até a cintura, até o peito, a cada nova mentira, mas ele afundava. E a cada vez que recusou voltar atrás, mais a terra reivindicava aquele homem que tinha trocado o que era eterno por um capricho de um dia. E assim o rei setia, o homem que voava, desapareceu na terra que ele mesmo tinha rachado com a língua. Ele era aqui, na multidão silenciosa que assistiu a tudo, que estava o futuro Buda, aprendendo, gravando dentro de si essa lição sobre o peso de uma palavra. Agora, repara no que esse conto está dizendo, porque ele é muito mais sutil do que parece. Ele não está falando de um mentiroso, setia não era um vilão, ele era, antes daquele dia, o homem mais íntegro do mundo.

E é exatamente por isso que a história é tão dura, ela mostra que a retidão de ontem não te segura no ar hoje. A verdade não é uma medalha que você ganha uma vez e pendura no peito, ela é uma coisa viva, que você refaz em cada frase que diz. O rei achou que era verdadeiro por natureza, por essência, e que poderia se dar ao luxo de uma exceçãozinha. E foi a exceção que o engoliu, e olha como a gente vive hoje. A gente tem mil nomes carinhosos para a primeira mentira do rei, a gente chama de mentirinha branca, de exagero, de amas é só pra não magoar, de todo mundo a redom da verdade.

A gente construiu uma cultura inteira em volta da ideia de que existe mentira pequena, mentira sem peso, mentira que não conta. E o conto de setia vem e diz, com toda a gentileza e toda a firmeza, não existe. A terra que se abriu sob os pés do rei se abriu na primeira frase, não na sêmima. O dano começa no instante em que você decide que a verdade é negociável. Na linguagem budista, isso tem nome. É a saca, a veracidade, e a sila, a conduta correta. Não como regras impostas de fora, de cima pra baixo, mas como chão que sustenta a sua própria paz, porque o que afundou o rei não foi um castigo de fora, foi a perda de uma sustentação interna.

Quem mente perde, antes de qualquer coisa, o lugar firme de onde se olha o mundo. Você passa a viver gerenciando versões, e gerenciar versões é cansativo, é pesado, é uma terra que sobe devagar pelo seu joelho sem você nem perceber, aqui vai uma coisa pra hoje. Hoje, em algum momento, você vai chegar num pequeno cruzamento daqueles que duram um cês dizer o que é verdade ou dizer o que é confortável. Vai ser uma coisa miuda, adorei, quando você não adorou. Tô quase chegando, quando você nem saiu. Não, imagina, não me incomodou, quando incomodou. Quando esse instante chegar, lembra do rei que voava, e em vez de soltar a mentirinha branca por reflexo, escolhe uma verdade gentil.

Não precisa ser brutal, a verdade não pede crueldade, mas seja real, porque cada frase verdadeira que você diz é um pé que continua no ar, e cada uma delas te mantém de pé num chão que não se abre.