O aguadeiro feito rei por um dia que renuncia

Budismo · Temporada 16 · Episódio 5 de 10 — em ordem cronológica

Em 24 horas, ele virou rei e abdicou do trono. Você seria capaz de abrir mão do maior poder do mundo sem piscar?

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Transcrição

Imagina que, num único dia, você passa de um homem pobre, que carrega potes de água pela cidade para o trono de um reino inteiro. Coroa na cabeça, exército na sua mão, o tesouro real aberto para você. E imagina que, no fim desse mesmo dia, você devolve tudo isso de bom grado, sem mágoa, sem peso no coração. Você conseguiria, a maioria de nós passaria a vida inteira tentando segurar com unhas e dentes o que esse homem largou em poucas horas. Deixa eu te contar, esse é um dos de atacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda estava se tornando Buda, vida após vida juntando virtude.

Às vezes ele nascia rico, às vezes pobre, às vezes era um animal na floresta. Nesse aqui, ele começa bem lá embaixo, como um simples aguadeiro, um homem que vivia de carregar água para quem pagasse. O nome dele era Gangamala. Ele morava numa cidade grande, e a vida dele era das mais humildes que dá para imaginar. De manhã cedo ele pegava os potes, descia até o rio, enxia, e ia oferecendo água fresca pelas ruas. Cada gole que ele vendia rendia uma moedinha, às vezes nem isso. No fim do dia, juntava o pouco que ganhava e guardava, era um homem de pouco, mas repara, era um homem que não desperdiçava nada e que tinha o coração inteiro.

Acontece que Gangamala era diferente dos outros trabalhadores da cidade. Ele observava os dias santos, os dias que a gente chama de Uposatha, dias de retiro e contenção, naqueles dias ele jejuava, guardava os preceitos e mantinha a mente limpa, sem raiva, sem cobiça, sem mentira. Mesmo sendo pobre, ele praticava a generosidade com o pouquíssimo que tinha, onde ele conseguia juntar uma moeda a mais, ele dava. Era um homem que entendia uma coisa que muito rico nunca entende, que a riqueza de verdade não é o quanto você acumula, é o quanto você consegue soltar. Um dia, e isso é importante, num desses dias de jejum, Gangamala tinha juntado um punhado de moedas com muito sacrifício, e ele pensou em comprar uma guirlanda de flores perfumadas, dessas que os ricos usam, só pra sentir, uma vez na vida, o cheiro de uma flor cara.

Mas, no caminho, ele cruzou com um homem sábio, um parcer cabuda, um daqueles que despertam sozinhos e vivem de esmola, e o coração de Gangamala se virou. Em vez de comprar o perfume pra si, ele ofereceu tudo o que tinha juntado aquele homem santo. Deu sem hesitar, deu com alegria, e aqui está o segredo do conto. Foi esse ato de dana, de generosidade pura feita por um homem que quase nada possuía, que plantou a semente do que viria depois, porque a roda das coisas gira de um jeito que a gente não controla. Naquela cidade havia um costume antigo, quando o rei morria sem deixar herdeiro, soltavam o carro real puxado pelos cavalos sagrados, e quem o carro escolhesse, esse seria o novo rei.

E o rei daquele reino tinha acabado de morrer, soltaram o carro, ele andou pelas ruas, deu voltas e parou. Parou exatamente diante de Gangamala, o aguadeiro, parado ali com seus potes vazios e suas mãos calejadas, os ministros se aproximaram e fizeram a reverência, "Senhor", disseram eles, "o reino é seu". E assim, num único dia, o homem que de manhã vendia água, gole a gole, foi ungido o rei, vestido de ceda, sentado num trono de ouro, com o reino inteiro aos seus pés. Agora, escuta o que ele fez com esse poder. Gangamala não enlouqueceu, ele não mandou prender ninguém, não saiu se vingando dos que tinham rido dele, não se afogou nos prazeres do palácio.

Pelo contrário, ele governou com justiça, com bondade, com a mesma serenidade do aguadeiro que era, e o reino prosperou sob as mãos dele. Mas aqui vem a virada de verdade. Mesmo no auge, mesmo cercado de tudo o que um ser humano pode desejar, Gangamala olhava pra dentro de si e via que nada daquilo era permanente. Ele tinha sido pobre, agora era rei, e sabia com clareza que a coroa também passaria, e o trono é tão impermanente quanto o pote de água que se esvazia, e um dia, quando seu coração já estava maduro, ele simplesmente largou tudo, abriu mão do reino, da coroa, do tesouro, e partiu pra vida de renúncia, em busca da paz que nenhum trono é capaz de dar.

Devolveu o reino inteiro com a mesma leveza com que tinha dado aquelas moedas ao homem santo lá no começo. Sem mágoa, sem peso, livre, agora repara no que esse conto está dizendo. A gente vive numa época que mede o valor de uma pessoa pelo tamanho do que ela acumulou. Quanto você tem, quanto você ganha, quanto seguidores, quantas coisas. E a gente passa a vida correndo pra subir, com um medo enorme de descer. A ideia de soltar, de abrir mão, de devolver, soa quase como um fracasso pra nós, mas o conto inverte isso por completo. O que torna Gangamala grande não é o dia em que ele virou rei, é o dia em que ele conseguiu deixar de ser.

A grandeza dele estava na mão aberta, não na mão fechada. Ele entendeu, lá no fundo, que tudo o que a gente segura com força um dia escorre por entre os dedos, e que a única coisa que sobra de verdade é o coração que aprendeu a dar e a soltar. A gente acumula achando que segurança é ter mais. Gangamala mostra que a liberdade é precisar de menos. E que a riqueza que conta não é a que enche o cofre, é a que esvazia o apego. Aqui vai uma coisa pra hoje. Olhem em volta de você agora, no lugar onde você está, e escolhe uma coisa, uma só, que você guarda há muito tempo sem usar, sem precisar de verdade, segurando só por segurar.

Hoje, dá essa coisa pra alguém que precise dela. Não jogue fora, dê, e, enquanto entrega, repara no que acontece dentro de você, aquele pequeno aperto de quem solta, e logo depois, a leveza, esse é o gesto do aguadeiro que virou rei. Comece pequeno, com uma coisa só. É assim que a mão aprende a se abrir.