Imagina que alguém chega pra você jurando que viu o impossível acontecer, que o rio começou a correr morro acima, que a lua desceu do céu e pousou na palma da mão, que o corvo virou branco e o ganso virou preto, o que você responderia. Será que tem coisa que simplesmente não acontece, por mais que a gente queira? E se eu te dissesse que existe uma coisa ainda mais impossível do que rio subindo a montanha, e que essa coisa mora bem perto da gente, no jeito como o coração se apega, deixa eu te contar. Esse é um dos de atacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, ainda estava no longo caminho de se tornar desperto.
Nessas histórias ele aparece ora como rei, ora como mestre, ora como animal na floresta, sempre carregando uma virtude que a gente pode levar pra vida. E nesse aqui ele aparece como um homem sábio, daqueles que enxergam o coração das pessoas com clareza, naquele tempo na cidade viviam um jovem rico herdeiro de uma fortuna grande. E esse jovem tinha se apaixonado, mas não de um jeito calmo, sereno, era uma paixão que tomava conta dele inteiro como fogo que pega no capim seco, a mulher que ele amava, porém, não retribuía da mesma forma. Ela gostava dele do jeito morno de quem aceita o conforto, recebia os presentes, sorria nas horas certas, mas o coração dela estava em outro lugar, e ele sabia disso lá no fundo.
Sabia, mas não queria saber. Então ele fazia o que tanta gente faz, enchia a mulher de joias, de sedas, de festas, gastava sem medir, pensava, repara nisso, que se desse o suficiente, se fosse generoso o bastante, a paixão dela ia nascer igual a dele. Ele tratava o amor como se fosse uma compra, como se houvesse um preço que, uma vez pago, garantisse o sentimento do outro. E a coisa foi piorando. Ele descuidou dos negócios, descuidou dos amigos, descuidou de si mesmo, vivia ansioso, medindo cada gesto dela, sofrendo com cada silêncio. Quando ela ria de longe para outro, ele ardia. Quando ela demorava, ele imaginava o pior.
Aquilo virou uma prisão, e ele mesmo segurava a chave sem perceber. Foi aí que ele procurou o homem sábio, o Bodhisatta. Chegou abatido, com olheiras de quem não dorme, e despejou tudo. Mestre, eu dou a ela tudo o que tenho, tudo, e ela não me ama de volta. O que eu faço? Como eu conquisto esse coração? O sábio olhou para ele com gentileza, sem pressa. E então falou uma coisa que ficou conhecida. Disse mais ou menos assim. Meu rapaz, tem coisas neste mundo que jamais acontecerão. Por mais que a gente espere, por mais que a gente force, elas não vêm. E começou a listar, quase como uma cantiga.
O rio que corre para o mar, um dia, talvez você o veja voltar para a nascente. A abóbada do céu, com todas as suas estrelas, talvez um dia você a veja enrolada como um pano. No oceano inteiro, talvez um dia você o veja secar. Mas, saiba, mais difícil do que tudo isso, mais impossível do que rio que sobe e céu que enrola, é fazer florescer, a força, o amor num coração que não quer amar você. O jovem ficou em silêncio, doía ouvir aquilo, mas era uma dor diferente, sabe? Era a dor de quem finalmente solta um peso que carregava sem saber. O sábio continuou, mais baixo agora. Você não está sofrendo por ela.
Você está sofrendo pelo que você quer que ela seja. Você inventou um amor na sua cabeça e está tentando obrigar uma pessoa de carne ou sua caber nele. Isso é querer o impossível, e quem persegue o impossível só colhe cansaço. E aí veio a parte que curou. O sábio disse, "largue isso, não com raiva, não com mágoa. Largue como quem abre a mão e deixa a água escorrer. A água não era sua, nunca foi." E repare numa coisa, o dia em que você parar de mendigar o amor dela, você vai descobrir que tinha um monte de amor seu, guardado, que você andou desperdiçando aos pés de quem não pedia.
O jovem foi embora mais leve, levou tempo, mas se curou, e dizem viveu de um jeito mais sereno dali em diante, sem mais correr atrás de rio que sobe a montanha. Agora repara no que esse conto está dizendo, porque ele é mais atual do que parece. A gente vive numa época que vendeu pra gente a ideia de que tudo se consegue com esforço, com técnica, com a estratégia certa, tem manual pra tudo, como fazer fulano gostar de você em dez passos, como reconquistar, como manipular um pouquinho aqui, insistir um tanto ali. A gente trata os sentimentos dos outros como fechaduras, e fica a vida inteira procurando a chave certa, sem aceitar que algumas portas simplesmente não são pra gente.
E tem mais. Não é só no amor romântico, é o reconhecimento de um pai que nunca vai te elogiar do jeito que você queria, é a aprovação daquele chefe que nunca vai te ver, é a amizade de quem decidiu ir embora. A gente fica batendo, batendo, batendo numa porta fechada, e chama isso de persistência, de não desistir. Mas tem hora que insistir no impossível não é coragem, é só não saber soltar. O budismo tem uma palavra pra raiz disso, tanha, assede, o apego que se agarra e não larga, e o sofrimento, ensina o Buda, brota justamente daí, de querer que o mundo seja diferente do que ele é.
A virtude desse conto é a sabedoria de distinguir, distinguir o que está nas suas mãos do que nunca esteve. Você pode regar uma semente, mas não pode obrigar a flora a nascer no dia que você marcou. Você pode oferecer o seu amor, mas não pode comprar o do outro. E reconhecer isso não é fraqueza nem desistência, é o começo da paz, porque a mão que solta o impossível fica livre pra segurar o que é possível, o que é real, o que está bem aqui. Aqui vai uma coisa pra hoje, pensa numa porta que você anda batendo faz tempo, esperando que alguém finalmente abra um afeto, um reconhecimento, uma mudança em alguém que você ama.
E faz a pergunta do sábio, isso que eu quero é como o rio voltando pra nascente, é algo que depende inteiramente da escolha do outro e que nenhum esforço meu pode forçar. Se for, experimenta hoje, só por hoje, abri a mão, não com água, mas com gentileza, como quem deixa a água escorrer. E repara no espaço que se abre quando você para de carregar o que jamais ia acontecer.