A pantera que sempre acha um pretexto

Budismo · Temporada 16 · Episódio 10 de 10 — em ordem cronológica

Sua vontade é uma pantera faminta. Você vai continuar inventando motivos nobres para alimentá-la?

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Transcrição

Imagina que você já decidiu fazer uma coisa. Já decidiu mesmo, lá no fundo. E agora você só está procurando um motivo que pareça bonito o suficiente para fazer. Você repara como, quando a gente quer muito, sempre acham um pretesto, esse conto é sobre uma pantera que tinha fome. E que para satisfazer a fome, não precisava de razão nenhuma. Mas mesmo assim ficava procurando uma, fingindo que importava. Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, ainda estava no longo caminho de se tornar desperto, nascendo hora como homem, hora como animal, sempre aprendendo, sempre apurando o coração.

E dessa vez o futuro Buda nasceu como uma cabra, uma cabra esperta, miuda, dessas que pastam sozinhas longe do rebanho. Era fim de tarde numa floresta. O sol já estava baixo, comprido entre as árvores, daqueles que deixam tudo cor de mel. E a nossa cabra, depois de um dia inteiro de pasto, percebeu que tinha se afastado demais. O caminho de volta para casa cruzava uma clareira, e na borda dessa clareira, deitada sobre uma pedra, estava uma pantera. Grande, de olhos amarelos, com a fome estampada no jeito de respirar. A cabra parou. O coração dela disparou, como seu dispararia. E aí ela fez uma coisa que muita gente não faz quando o medo bate.

Ela pensou. Pensou rápido, mas pensou. Se eu correr, ela me alcança em três saltos. Se eu fingir que não via, ela me pega de surpresa. A minha única chance é a fala. Vou cumprimentá-la com toda a educação do mundo. Talvez se eu for gentil de verdade ela se desarme. Então a cabra respirou fundo, levantou a cabeça e disse, com a voz mais calorosa que conseguiu reunir. "Tia, que bom encontrar você por aqui. Como vai a sua saúde hoje?" A pantera abriu um olho. Estava com fome, já tinha decidido o que ia fazer. Mas sabe como é, queria que a coisa parecesse justa. Queria um pretesto.

Então respondeu áspera, "Você, você pisou no meu rabo. Veio chegando e pisou bem na ponta da minha calda. Por isso vou te comer." A cabra olhou. A pantera estava ali na frente dela. O rabo enrolado todo do lado de lado o corpo, longe e longe dos cascos dela. Era mentira escancarada. Mas a cabra não brigou, não levantou a voz. Disse só, com doçura. "Tia, perdão, mas eu vim chegando pela frente, do seu lado de cara. O seu rabo está atrás de você. Eu não teria como pisar nele nem se quisesse. Olha você mesma." A pantera olhou. Era verdade. O pretesto desmanchou na hora. Mas a fome continuava lá e a vontade continuava lá.

Então ela só trocou de desculpa, sem nem corar. "Ah," disse, mas mesmo assim, no mês passado, quando você passou correndo por aqui, você gritou e me assustou. Estragou a minha caçada. Por isso vou te comer." E a cabra, de novo mansa, de novo sem perder a calma. "Tia, no mês passado eu nem tinha nascido ainda. Eu sou nova. Não tem como eu ter passado por aqui." Você deve estar confundindo com outra cabra. A pantera olhou para o tamanho da cabrinha. Era verdade outra vez. Pequena, jovem, novinha. O segundo pretesto caiu por terra igual ao primeiro. E foi aí que a pantera fez o que esse tipo de criatura sempre faz quando fica sem desculpa.

Ela parou de fingir. Levantou-se da pedra, esticou as garras e disse. E agora sem nenhum disfarce na voz. "O que que importa o motivo? Eu estou com fome. Você é o jantar." Acabou a conversa. E a história conta que, nesse instante, antes que a cabra pudesse dar mais uma resposta gentil, a pantera saltou. Porque a verdade é que nunca tinha sido sobre o rabo nem sobre o susto do mês passado. As acusações eram fumaça. O que estava embaixo era a fome. E a fome não negocia com o argumento. Agora repara no que esse conto está dizendo. Ele não está dizendo, em primeiro lugar, que ser gentil não adianta, viu.

A cabra fez o que era certo. Respondeu o ataque com calma, com verdade, sem agressão. E isso é cante, a paciência, uma das grandes virtudes. O coração dela ficou limpo até o fim. Mas o conto está olhando, com muita honestidade, para o outro personagem. Está fazendo um retrato da pantera, e a pantera, meu amigo, mora dentro da gente. Porque a pantera é aquela parte nossa que já decidiu que quer e só fica caçando uma justificativa que soe bem. Você já reparou nisso em você? Você já decidiu que vai comprar aquilo? E aí inventa. Mas é que eu mereço. Mas é que está na promoção.

Mas é que o meu antigo já estava velho. Você já decidiu que vai cortar relações com alguém? E aí vai colecionando pequenas ofensas. Ela fez isso. Ele disse aquilo, construindo um dossiê inteiro para justificar o que o seu desejo já tinha resolvido sozinho. A gente faz isso o tempo todo. A gente raramente age pela razão que diz. A gente age pelo querer, e depois contrata a razão como advogada. O mundo de hoje é uma fábrica gigante de pretestos. As redes te dão um motivo nobre para cada raiva que você já estava sentindo. O algoritmo te entrega a desculpa sob medida do tamanho exato do seu apetite.

E aí a gente acha que está sendo justo, racional, principista, quando na verdade está só sendo a pantera de olhos amarelos, trocando de acusação até cansar de fingir. A virada do conto não é tome cuidado com as panteras lá fora. É olha a pantera aqui dentro. Olha a hora em que você troca de desculpa sem corar, porque a anterior não colou. Esse é o sinal. Quando o motivo cai por terra e a vontade continua intacta, é porque o motivo nunca foi o motivo. Aqui vai uma coisa para hoje. Pega uma decisão que você está prestes a tomar e que mexe com outra pessoa, ou com seu dinheiro, ou com a sua paz.

E faz com ela o teste da pantera. Imagina que a sua primeira justificativa foi desmentida. Sumiu, provou-se falsa, pergunta-se mesmo, com sinceridade de monge. Se essa razão cair se eu desistiria, ou eu já estaria procurando a próxima. Se você perceber que ia só trocar de desculpa, então você descobriu uma coisa preciosa. Descobriu que não era a razão nenhuma que estava te movendo. Era só fome. E fome a gente não precisa obedecer. A gente pode, pela primeira vez, simplesmente ficar deitado na pedra, com fome, e deixar a cabra seguir o caminho dela em paz.