Imagina que, no meio da noite, oito gritos cortam o silêncio do seu palácio. Não são gritos quaisquer, são oito vozes, oito sons que vêm do escuro, cada um carregando uma dor que você não entende. E na sua cabeça, sem que ninguém te explique, nasce uma certeza, alguma coisa terrível vai acontecer. O que você faz com medo desse tamanho? A resposta a essa pergunta, nesse conto, separa o rei que perde a cabeça do sábio que enxerga claro. Deixa eu te contar. Isso é um dos jatacas. Os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, mas estava no longo caminho de se tornar um.
Em muitas dessas histórias, ele aparece como Bodhisatta, o ser desperto em formação, às vezes como pessoa, às vezes como bicho. E aqui ele vem na figura de um jovem mestre, um daqueles que ensinava sabedoria a quem quisesse aprender. Pois então, havia um rei que reinava na cidade de Benares, e esse rei tinha tudo o que um rei podia querer. Tinha o trono, tinha os tesouros, tinha o sono tranquilo de quem se acha seguro, até uma certa madrugada, naquela madrugada, no terceiro toque da noite, quando a cidade inteira dormia. O rei foi acordado de repente. Ele ouviu o vindo de fora dos muros do palácio um som, e logo o outro, e outro, oito sons ao todo, oito gritos lançados no escuro, um atrás do outro, cada um mais aflito que o anterior.
São vozes estranhas, que pareciam ao mesmo tempo humanas e não-humanas, carregadas de uma angústia que fazia a pele arrepiar. O rei se sentou na cama com o coração disparado, aquilo não era normal. E o medo sabe como é o medo, ele não espera a explicação. O medo já vem pronto, já vem inteiro, e enche a gente de certezas que não tem base nenhuma. O rei se convenceu, ali no escuro, de que aqueles oito sons eram um presságio, um aviso de morte, ele teve certeza de que ia morrer, que ia perder o trono, que alguma desgraça enorme estava chegando pra ele. Quando o sol nasceu, o rei mandou chamar os seus brâmanes, os conselheiros que entendiam de sinais e de rituais, contou tudo, tremendo, os oito sons, o terror que sentiu, a certeza da morte, e perguntou o que aquilo significava.
Agora repara no que esses conselheiros fizeram, eles não sabiam, não faziam a menor ideia do que eram aqueles sons, mas em vez de admitir que não sabiam, eles viram ali uma oportunidade. Fizeram cara de grave, balançaram a cabeça e disseram majestade. Isso é gravíssimo, é o pior dos presságeos, a sua vida corre perigo, e logo emendaram a receita, para afastar o desastre, era preciso um grande sacrifício, centenas de animais de cada espécie teriam que ser mortos num ritual, quatro de cada bicho, depois mais e mais, num matadouro que ia atingir a cidade de sangue, veja você o que o medo faz quando encontra gente sem escrúpulo.
O rei, apavorado, mandou recolher os animais, logo haviam cercado o imenso, cheio de criaturas amarradas, esperando para morrer por causa de oito sons que ninguém tinha entendido. O choro dos bichos se misturava ao choro das pessoas que os amavam. Foi quando uma das rainhas, mulher de bom coração, foi falar com o rei. Ela disse, "Meu Senhor, antes de derramar todo esse sangue, por que não procurar quem realmente saiba? Há na cidade um jovem mestre, sábio acima da idade dele." Manda perguntar a ele o que os sons querem dizer. E o rei, no fundo querendo mesmo uma saída, concordou, trouxeram o Bodhisatta diante do trono.
Ele ouviu o rei descrever cada um dos oito sons, com calma, sem pressa, sem aquele tremor do medo, e então sorriu de um jeito sereno e disse, "Majestade, pode ficar tranquilo, esses sons não anunciam morte nenhuma, cada um deles tem uma causa simples deste mundo, e nenhuma delas é sobre você." E aí ele explicou, um por um, "aqueles gritos vinham de seres que sofriam, sim, mas por motivos próprios, motivos que não tinham relação alguma com o destino do rei. Eram criaturas presas em consequências dos seus próprios atos passados, criaturas penando suas próprias dores, lançando no escuro o lamento de quem carrega o peso do que fez.
Cada som era a voz de um sofrimento alheio, antigo, que por acaso chegou aos ouvidos do rei naquela noite. Nenhum deles era uma seta apontada para o coração dele. O Senhor, disse o Bodhisatta, ouviu a dor dos outros e a transformou em medo de si mesmo, e os seus conselheiros, que não entendiam nada, usaram esse medo para mandar matar inocentes. Não há mérito nenhum em tirar a vida de quem não fez nada. Solte os animais, mande embora o sacrifício. O que esses sons pedem não é sangue, é compreensão. O rei sentiu o peso cair dos ombros, mandou abrir os cercados na mesma hora. Centenas de criaturas voltaram livres para a vida, e a cidade que ia conhecer o sangue conheceu o alívio.
O rei aprendeu, naquele dia, que entender vale mais que reagir, e que a sabedoria quando aparece dissolve o medo como sol dissolve a neblina. Agora repara no que esse conto está dizendo para a gente. Aqui, tantos séculos depois. A gente vive cercado de oito sons na noite, só que os nossos chegam pela tela. É a notícia alarmante, o comentário ameaçador, o número que despencou, o aviso de catástrofe que pisca no celular às três da manhã. E, igualzinho ao rei, a gente acorda no escuro, e o medo já vem pronto, já vem com a certeza embutida de que é sobre nós, de que é o fim, de que algo terrível está vindo na nossa direção.
E, então, a gente faz o que o rei quase fez. Reage, toma decisão no susto, espalha o pânico, sacrifica o que não devia. Quantas vezes a gente já derramou energia, paz, relação, dinheiro, num altar de medo que nem entendia direito. E sempre tem, por perto, um conselheiro interesseiro pronto a dizer que a única saída é o pânico, é gastar, é cortar, é atacar, porque o medo dos outros sempre rende para alguém. A virtude desse conto é uma que os budistas chamam de panhar, a sabedoria que enxerga as coisas como elas de fato são, e não como o medo as pinta. O Bodhisatta não negou que havia dor no mundo, ele só recusou a mentira de que toda a dor que a gente ouve é uma ameaça contra a gente.
Há sofrimento, sim, mas o sofrimento dos outros pede a nossa compaixão, não o nosso desespero. Aqui vai uma coisa para hoje, na próxima vez que um som da noite te acordar, aquela notícia, aquela mensagem, aquele medo súbito que diz é o fim, não reaja na hora. Respira. E faz a pergunta do jovem sábio, eu realmente sei o que isso significa, ou só me contaram o que devo temer. Procura entender a causa antes de aceitar a sentença. Quase sempre você vai descobrir que o grito que te assustou não era sobre você, e que entre o som e a desgraça que você imaginou havia só uma coisa, a falta de compreensão.
Encontra a compreensão, e você solta os animais que ia sacrificar a toa.