A velha que fez o funeral da Gratidão

Budismo · Temporada 16 · Episódio 1 de 10 — em ordem cronológica

Uma mulher foi ao cemitério para um funeral sem corpo. Ela queria queimar a Gratidão, mas acabou fazendo-a renascer.

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Transcrição

Imagina uma mulher idosa cansada num cemitério juntando lenha para acender uma fogueira. Não para cozinhar, não para se aquecer. Ela acendeu aquele fogo para fazer um funeral, mas não tinha corpo nenhum ali, o que ela queria queimar não era uma pessoa. Era uma ideia, ela queria enterrar, de uma vez por todas, uma coisa chamada gratidão. E o estranho é que no fim, foi justamente esse gesto desesperado que fez a gratidão voltar à vida. Deixa eu te contar. Aqui é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, e estava percorrendo o longo caminho para se tornar um.

Nessas histórias ele aparece às vezes como um homem, às vezes como um bicho, às vezes, como nessa aqui, numa posição que a gente nem imagina. Presta atenção porque essa é uma das mais bonitas. Brumin havia, numa certa cidade, uma mulher que se chamava Kakane. Ela tinha uma vida simples, mas tinha uma coisa que valia mais que ouro, um filho, um único filho, que ela criou sozinha, com todo o sacrifício do mundo, lavou roupa dos outros, carregou água, passou fome pra ele comer, e o menino cresceu bom, cresceu forte, e quando virou o homem se casou. A Nora veio morar com eles. No começo tudo ia bem.

A casa tinha movimento, tinha risada, mas reparem numa coisa que acontece quieto, devagar, dentro das casas. A Nora começou a olhar pra velha Kakane a ver, não a mulher que tinha dado a vida pelo marido dela, mas um estorvo, uma boca a mais, uma sombra no canto. E ela foi, dia após dia, plantando isso no ouvido do marido, sua mãe come demais, sua mãe atrapalha, sua mãe já viveu o que tinha que viver. E aqui vem a parte que dói, o filho, aquele mesmo que ela carregou no colo, que ela velou nas noites de febre, foi cedendo, não de uma vez, aos poucos. Até que um dia, a velha Kakane já não tinha lugar à mesa, comia o que sobrava, dormia onde dava.

E o silêncio na casa, que antes era de paz, virou um silêncio de desprezo. Kakane não brigou, não gritou, ela fez uma coisa muito mais funda, ela pegou um pote, juntou um pouco de lenha, e foi caminhando até o cemitério da cidade, aquele descampado onde se queimavam os mortos. Chegando lá, ela cavou um pequeno espaço, ajeitou a lenha e acendeu o fogo, passou por ali um homem, e o homem era o Bodhisatta, o futuro Buda, naquela vida nascido como saca, o Senhor dos seres celestes, que descer a terra disfarçado, porque os sábios das antigas histórias tinham o costume de descer para ver de perto o coração das pessoas.

Ele viu a velha, viu o fogo, viu que não havia corpo. E perguntou, com voz mansa, boa mulher, o que a senhora está queimando aqui, se não há defunto nenhum. E Kakane respondeu, e cada palavra dela era uma lâmina embrulhada em pano. Eu vim fazer o funeral da gratidão, porque a gratidão morreu, eu dei a vida pelo meu filho, e hoje sou tratada pior que um cachorro na minha própria casa. Então é isso que estou queimando, a gratidão, ela acabou, vou enterrar o que sobrou dela, o Bodhisatta ouviu aquilo, e o coração dele, que era o coração de um sábio, entendeu na hora o tamanho da dor ali.

Mas ele entendeu também uma coisa que a velha, na sua mágoa, não conseguia ver que a gratidão não morre nos que esquecem, ela só fica enterrada viva, e pode ser desenterrada. Então ele disse, espere, não queime ainda, eu vou com a senhora até essa casa, e vamos ver se a gratidão está mesmo morta, ou só adormecida, ele foi. E quando chegou, falou com o filho, não com raiva, não com sermão, ele simplesmente contou ao homem, devagar, tudo o que aquela mãe tinha feito, as noites sem dormir, a fome que ela passou para que ele comece, o corpo que ela gastou carregando água para pagar o estudo dele, e foi mostrando, peça por peça, que cada pedaço da vida confortável daquele homem tinha sido pago com o suor da mãe que ele agora deixava comer as sobras, e o filho, conforme ouvia, foi se quebrando por dentro.

Aquela névoa que a Nora tinha soprado por meses começou a se dissipar, ele se viu, de repente como ele de fato era, alguém que tinha aceitado tudo, e devolvido desprezo, ele caiu aos pés da mãe, chorando, e a Nora, vendo o marido transformado, também se envergonhou, a casa, naquele dia, voltou a ter mesa para três, e a velha cacane, que tinha ido ao cemitério enterrar a gratidão, voltou para casa com ela ressuscitada. Agora, repara no que esse conto está dizendo. A virtude no centro dessa história tem um nome em palí, catanyuta, é a gratidão, mas não a gratidão pequena, a do obrigado automático, é a gratidão como o reconhecimento, como memória ativa daquilo que se recebeu.

O budismo tem um carinho enorme por essa virtude, diz que reconhecer o que os outros fizeram por você, e ter o impulso de retribuir, é uma das marcas de uma pessoa boa. E que esquecer isso, fingir que se chegou onde se chegou sozinho, é uma das raízes silenciosas do sofrimento. E olha como isso bate na gente hoje. A gente vive um tempo que celebra a independência como se fosse a coisa mais alta do mundo. Eu me fiz sozinho. Eu não devo nada a ninguém. A gente posta a vitória, mas esquece os ombros em que subiu para chegar lá. Esquece a mãe, o professor, o amigo que emprestou, a pessoa que acreditou quando ninguém acreditava.

E o pior, a gente nem percebe que esqueceu. A ingratidão moderna raramente é cruel de propósito. Ela é distraída, ela é anora soprando devagar no nosso ouvido que a gente já não deve nada a quem nos deu tudo. E a gratidão vai, sem barulho, sendo levada para o cemitério. Mas o conto é generoso, porque ele mostra que ela não morre de verdade. Ela só precisa de alguém que conte a história de novo, que lembre, em voz alta, o que foi feito por nós. Aqui vai uma coisa para hoje. Pensa numa pessoa que fez algo grande por você, e que você anda tratando como se fosse paisagem, como se sempre tivesse estado ali de graça.

Pode ser sua mãe, seu pai, um irmão, um mestre, um amigo antigo. Hoje, antes de dormir, faz o gesto do Bodhisatta, conta a história, não na sua cabeça, em voz alta ou por escrito, para a própria pessoa, se der. Diga, com nome e sobrenome, o que ela fez por você, e como sua vida seria diferente sem aquilo. Não deixe a gratidão ser enterrada por distração. Desenterra ela hoje, enquanto ainda dá tempo de a pessoa ouvir.