A cortesã que salva a própria vida do ladrão assassino

Budismo · Temporada 16 · Episódio 3 de 10 — em ordem cronológica

A pessoa que você salvou da morte te leva ao alto de uma montanha e pede para você tirar todas as joias. Não é para guardar: é para te empurrar do penhasco depois.

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Transcrição

Imagina que a pessoa que você ama, aquela que você ajudou a escapar da morte, te leva pro alto de uma montanha, longe de tudo, e te pede pra tirar as joias, não pra guardar, pra te empurrar do penhasco depois. O que você faz com medo nesse instante? Pensa rápido, porque é só isso que separa você da queda. Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda estava se tornando Buda, vida após vida, aprendendo a ser sábio. Às vezes ele aparece como um rei, às vezes como um animal, às vezes como uma pessoa comum. E nesse aqui, repara, ele nem é o herói principal.

Quem brilha nessa história é uma mulher, uma cortezã chamada Sulassa, e o que ela faz com a própria astúcia. Num momento em que tudo parecia perdido, é uma das coisas mais bonitas que esses contos antigos guardam. Era uma vez, numa grande cidade chamada Benares, uma cortezã de enorme fama, Sulassa. Ela era admirada não só pela beleza, mas pela inteligência, tinha 500 servas, vivia cercada de ouro, de seda, de perfume. Os homens mais ricos da cidade disputavam a sua companhia, e Sulassa, por mais que vivesse no luxo, tinha algo raro, ela observava as pessoas, sabia ler um rosto, sabia perceber quando alguém estava mentindo e quando alguém estava com medo.

Guarda isso, porque vai importar lá na frente. Na mesma cidade vivia um ladrão, não um batedor de carteiras qualquer, não, um assaltante perigoso dos que matavam. A cidade inteira tremia com o nome dele, pois esse homem foi finalmente preso, depois de muitos crimes, e o rei ordenou que ele fosse executado. Levaram um ladrão pelas ruas, amarrado, açoitado a cada esquina, rumo ao lugar da morte, e foi nesse cortejo, dessa janela, que Sulassa olhou pra baixo e o viu. O ladrão ferido, sujo, condenado. E aconteceu uma coisa que ela mesma não soube explicar direito. O coração dela se apertou, talvez fosse a coragem com que ele caminhava pra morte.

Talvez fosse simplesmente compaixão, daquela que surge sem pedir licença. O fato é que Sulassa sentiu que precisava salvá-lo, ela tinha dinheiro, e dinheiro naquela cidade abria muitas portas. Sulassa mandou uma mensagem ao chefe da guarda, um homem que vivia rondando a casa dela apaixonado. "Ese prisioneiro é meu amigo de infância", ela disse. "Eu te peço, salve a vida dele. Aqui está o ouro", e mandou uma quantia enorme. O chefe da guarda hesitou, mas o amor e o ouro juntos pesam muito. Ele arranjou outro homem pra morrer no lugar do ladrão, soltou o condenado em segredo, e o entregou à Sulassa.

Pronto, ela tinha salvado a vida dele. E mais, levou o ladrão pra dentro de casa, deu a ele banho, roupas finas, comida, um lugar de honra, passou a viver com ele como se fosse seu marido, cobriu aquele homem de carinho, de joias, de tudo o que ela tinha de melhor. Por gratidão a própria compaixão, Sulassa entregou o coração inteiro, mas tem uma coisa sobre certas pessoas. A bondade que você derrama nelas não vira bondade dentro delas, vira fome. O ladrão olhava todas aquelas joias no corpo de Sulassa, e em vez de gratidão sentia cobiça. Se eu pudesse ficar com tudo isso, ele pensava e desaparecer.

A mulher que tinha pago com o ouro pela vida dele agora valia pra ele menos do que o ouro que ela usava no pescoço. Então ele bolou um plano. Chegou pra Sulassa com voz mansa e disse "querida, quando eu estava amarrado, indo pra morte, eu fiz uma promessa, prometi que, se eu sobrevivesse, faria uma oferenda à divindade da montanha, ela me salvou. Vamos juntos até lá, com nossas melhores roupas e todas as joias, prestar essa homenagem." Sulassa, que confiava nele, concordou na hora, se vestiu com o que tinha de mais belo, e os dois subiram à montanha, sozinhos, até um penhasco altíssimo de onde se via o mundo inteiro lá embaixo, e foi lá no alto que a máscara caiu.

O ladrão virou pra ela com outro rosto, um rosto que ela nunca tinha visto, e disse "eu não vim adorar Deus nenhum, tira todas as joias, vou te jogar desse penhasco e levar tudo". Sulassa sentiu o chão sumir antes mesmo de cair. O homem que ela salvara da morte agora era a morte dela, mas lembra do que eu te pedi pra guardar? Sulassa sabia ler pessoas, e sabia que súplica não ia funcionar com aquele coração de pedra. Então ela não chorou, não implorou, ela pensou "rápido, como quem segura a respiração de baixo d'água", e disse com a voz mais calma que conseguiu "está bem, você é meu senhor, mas me deixa fazer uma última coisa, deixa eu te abraçar pelos quatro lados, de frente, dos dois lados e por trás, em sinal de respeito, antes de morrer".

O ladrão vaidoso achou graça e aceitou. Ela abraçou de frente, abraçou de um lado, abraçou do outro, e quando passou pra trás dele, com ele de costas pra o abismo, Sulassa juntou toda a força que tinha e o empurrou. O ladrão despencou penhasco abaixo e morreu lá no fundo, vítima exata da armadilha que tinha montado. Diz o conto que a divindade que morava naquela montanha viu tudo e ficou admirada com a sabedoria daquela mulher, que numa hora de pavor não perdeu a cabeça e usou a inteligência pra salvar a própria vida. E o Bodhisatta, o futuro Buda, era justamente aquela divindade da montanha, a testemunha que reconheceu, ali, o brilho de uma mente desperta sob pressão.

Agora repara no que esse conto está dizendo. Ele não está só contando uma história de esperteza, ele está falando de duas coisas que andam juntas, a compaixão e o discernimento. Sulassa teve compaixão e isso foi lindo, salvou um homem da forca. Mas compaixão sem discernimento te deixa cego, ela amou alguém que nunca mereceu e quase pagou com a vida. O conto não diz para e de ser bom, ele diz seja bom, mas mantenha os olhos abertos. A bondade verdadeira não é ingênua e a gente vive um tempo que confunde essas coisas. Hoje em dia, a gente é ensinado a confiar rápido e em qualquer um, a entregar dados, sentimentos e dinheiro com um clique, a achar que desconfiar é falta de amor.

A gente romantiza o dar tudo de si como se cuidar de si mesmo fosse egoísmo, mas olha Sulassa, a compaixão dela era real e ainda assim ela não deixou que ninguém, nem mesmo alguém que ela amava, a empurrasse do penhasco. Dissernimento não é o contrário da bondade, é o que mantém a bondade viva. Cocha, aqui vai uma coisa para hoje, pensa numa pessoa ou numa situação em que você anda dando muito, muito mesmo e sentindo um desconforto pequeno e teimoso que você prefere ignorar. Não jogue fora a sua compaixão, mas hoje, dê um nome honesto a esse desconforto em voz baixa só pra você, pergunte o que eu estou recebendo de volta corresponde ao que estou entregando.

Você não precisa empurrar ninguém do penhasco, precisa só, como Sulassa, parar de fechar os olhos, manter a bondade numa mão e o discernimento na outra é o que separa quem ama com sabedoria de quem se perde no próprio coração.