Existe um jeito de perder tudo o que não acontece de uma vez. Acontece aos poucos, em duas decisões, cada uma parecendo pequena na hora, cada uma com uma boa desculpa por trás. E quando a pessoa percebe, já era, já perdeu o que importava, foi assim com o primeiro rei de Israel. "O Saul, deixa eu te contar como um rei começa a cair. O Saul tinha sido escolhido por Deus, alto, bonito, com tudo para dar certo. E no começo foi bem. Ganhou batalhas, liderou o povo. Tinha tudo na mão, mas o Saul tinha um problema por dentro que ainda não tinha aparecido. Ele se importava demais com o que os outros pensavam dele.
E isso, com o tempo, ia ser a ruína dele. A primeira queda aconteceu numa hora de medo. Israel estava em guerra de novo com os Filisteus. E os Filisteus juntaram um exército gigante. O texto fala em tantos carros de guerra, tantos cavaleiros, tanta gente, que era como areia na beira do mar. Uma coisa que não dava nem para contar. E o povo de Israel, vendo aquilo, entrou em pânico. Os soldados começaram a fugir. Se esconderem cavernas em buracos, atrás de pedras, o exército do Saul foi mingando. Cada dia tinha menos homem ao lado dele. Agora, tinha um combinado. O Samuel, o profeta, tinha dito para o Saul esperar por ele.
O Samuel ia chegar para fazer uma oferta a Deus, para pedir a ajuda dele antes da batalha. E só depois disso, o Saul podia agir. Era para esperar sete dias. O Saul esperou. Um dia, dois dias. O exército fugindo. Três dias, quatro, cinco, seis. Cada dia, menos soldado. E o Samuel não chegava. No sétimo dia, o Saul não aguentou. O povo se espalhando, o medo crescendo e nada do Samuel. Então o Saul fez uma coisa que não podia. Ele mesmo fez a oferta a Deus. Sozinho, sem esperar o profeta. Assumiu uma função que não era dele e adivinha. Bem na hora que ele terminou de fazer a oferta, o Samuel chegou, o Samuel olhou e perguntou o que você fez e repara na resposta do Saul.
Ele se defende, ele dá desculpa. Ele diz mais ou menos assim, é que o povo estava fugindo e você não chegava e os inimigos estavam vindo. Então eu me forcei a fazer a oferta. Eu não tive escolha, eu me forcei. Como se a culpa fosse das circunstâncias. Como se ele tivesse sido empurrado, sem opção. E o Samuel disse uma coisa séria. Disse você agiu como tolo, você não obedeceu. Se você tivesse esperado, o seu reino ia durar para sempre na sua família. Mas agora não vai. Deus já está procurando outro homem, um homem segundo o coração dele. Para um cis. Por causa de uma decisão tomada no medo, com uma boa desculpa, o Saul ouviu que ia perder o trono para a família dele.
A primeira rachadura, mas o Saul continuou rei. E veio uma segunda prova. E essa foi pior. Deus deu para o Saul uma ordem bem clara, através do Samuel. Tinha um povo, os amalequitas, que tinha feito muito mal a Israel no passado. E Deus mandou o Saul ir lá e cumprir um julgamento sobre eles. A ordem era específica e completa. Não era para ficar com nada daquela conquista para si. Nada de butim, nada de espólio, nada de troféu. O Saul foi, ganhou a batalha. Mas não obedeceu por inteiro. Ele deixou vivo o rei inimigo, como um troféu. E ele e o povo guardaram o melhor do rebanho. As melhores ovelhas, os melhores bois, destruíram só o que não prestava, o que era fraco e sem valor.
E ficaram com o melhor. Obedeceu pela metade. Que é um jeito bonito de dizer, desobedeceu. E Deus falou com o Samuel. Diz-se, com tristeza, eu me arrependo de ter feito o Saul rei. Ele se afastou de mim, não cumpriu o que eu disse. E o Samuel ficou a noite inteira clamando por causa disso. Doeu nele. No dia seguinte o Samuel foi atrás do Saul. E aqui vem uma cena que diz tudo. O Saul viu o Samuel chegando e foi todo animado. Diz-se, bendito sejas, eu cumpri a ordem do Senhor. E o Samuel respondeu com uma frase que é quase um soco. Ele disse, se você cumpriu tudo, então que barulho de ovelha é esse que eu estou ouvindo.
Que mugido de boia é esse que chega aos meus ouvidos. Pega o detalhe. O Saul diz que obedeceu. E o som da desobediência dele estava berrando no fundo. Alto, impossível de esconder. As ovelhas que ele não devia ter guardado estavam balindo ali, entregando ele. E o Saul, de novo, dá desculpa. E joga a culpa no povo. Ele diz mais ou menos assim. Ah, foi o povo que guardou os melhores animais, mas foi para oferecer em sacrifício para Deus. A gente ia usar para te agradar. Repara na desculpa. Ele transforma a desobediência num ato religioso. Diz que guardou tudo para fazer uma oferta a Deus.
Como se desobedecer pudesse ser embrulhado de bondade e virar uma coisa boa. E o Samuel disse uma frase que ficou famosa para sempre. Ele disse, mais ou menos assim. Você acha que Deus prefere ofertas e sacrifícios, ou prefere que você simplesmente obedeça. Obedecer é melhor do que sacrificar. Escutar vale mais do que a gordura dos carneiros. Entendeu o golpe? O Saul achava que dava para desobedecer e depois compensar com uma oferta bonita. E o Samuel disse, não. Deus não quer o seu presente. Deus queria a sua obediência. E você trocou uma coisa pela outra. E o Samuel disse a sentença, como o Saul tinha rejeitado a palavra de Deus.
Deus tinha rejeitado ele como rei. E aqui vem o momento mais triste. Quando o Saul finalmente entende que vai perder o trono, ele admite que errou. Mas olha o que ele pede. Ele segura o Samuel e diz, por favor, me honra na frente dos líderes do povo. Não me deixa passar vergonha na frente deles. Erga isso. Mesmo no fim, mesmo derrubado, a maior preocupação do Saul ainda é a imagem dele. O que os outros vão pensar, ele não pede perdão de coração primeiro, ele pede para não passar vergonha em público. E ali estava o problema dele, exposto. Desde o começo, o Saul se importava mais com o que o povo via do que com o que Deus via, e o Samuel foi embora.
E o texto diz uma frase pesada. Diz que o Samuel não viu mais o Saul até o dia da morte, mas que chorava por ele, e que Deus se entristeceu por ter feito o Saul rei. Eu fico pensando muito nessa história, porque a queda do Saul não foi um crime monstruoso de uma vez só. Foi pela metade, duas vezes. Ele quase obedeceu. Ele obedeceu um pouco. E achou que um pouco bastava. E o que mais me pega é como eles sempre tinham uma desculpa boa. O povo estava fugindo. O profeta não chegava, era para oferecer a Deus. Sempre tinha uma razão que parecia razoável. Mas no fundo de tudo, era a mesma coisa.
Ele fazia o que ficava melhor para a imagem dele, e depois embrulhava com uma boa justificativa. E a frase do Samuel fica ecoando. Obedecer é melhor do que sacrificar. Quer dizer, mais ou menos, não adianta fazer um monte de gesto bonito para compensar uma coisa simples que você não quis fazer. A coisa simples valia mais do que todos os gestos bonitos juntos. Aqui vai uma coisa para hoje. Pensa numa coisa pequena que você sabe que deveria fazer, mas vem empurrando. Uma promessa simples que você fez. Uma combinação. Algo que não é grande, mas que você não cumpriu inteiro. Cumpriu pela metade.
E hoje, em vez de compensar com outra coisa, em vez de fazer um monte de gesto para parecer bem, faz só aquela coisa simples, inteira, do jeito que era para ser, e repara numa coisa só para você. Quando você não faz, qual é a desculpa que aparece na sua cabeça? Repara nela, porque normalmente a desculpa é boa, é razoável, soa certa, e é justamente por isso que ela é perigosa, não precisa se cobrar demais. Só repara se você não está, sem perceber, fazendo o som das ovelhas, dizendo que obedeceu enquanto o que você não fez fica berrando no fundo.