Você esperou anos por uma coisa. Sabia que ela ia chegar. Te prometeram que ia chegar. E quando finalmente chega, ela não chega inteira. Chega pela metade. E para ter o resto, você ainda vai precisar de muita, muita paciência. É mais ou menos isso que acontece com o Davi nessa história. Ele vira rei, mas não do dia para a noite. Foi devagar. Pedaço por pedaço. Deixa eu te contar. Lembra que o Davi era aquele menino que derrubou o gigante. E que muitos anos antes, ainda garoto, ele tinha sido escolhido por Deus para ser o futuro rei de Israel. Ungido, como dizia o texto. Um tar de óleo na cabeça, que era o jeito antigo de marcar alguém escolhido para uma missão grande.
Então a promessa já existia, havia muito tempo. O Davi ia ser rei, mas o Saúl ainda estava no trono. E enquanto o Saúl vivia, o Davi esperou. Esperou fugindo. Esperou se escondendo. Esperou se enforçar nada. E agora o Saúl tinha morrido na batalha. Lembra do episódio passado. O caminho parecia aberto. E o Davi faz uma coisa que mostra o tipo de homem que ele era. Antes de qualquer passo, ele para e pergunta a Deus. Ele pergunta, eu subo para alguma cidade de Judá. E Deus diz, sobe. E ele pergunta, para qual? E Deus responde, para Ebron. Repara que ele caiu correndo para pegar o trono.
Ele perguntou primeiro. Calma, mesmo com tudo a favor. Então o Davi foi para Ebron, uma cidade da região de Judá, que era a tribo, a família grande de onde ele vinha. E ali os homens de Judá vieram e fizeram o Davi rei. Mas rei só daquela parte, só de Judá. Olha o detalhe importante. O povo de Israel naquela época era dividido em 12 grandes famílias, as 12 tribos. E o Davi por enquanto virou rei de uma só, Judá. As outras tribos, o resto do país, não quiseram ele. Por quê? Porque um filho do Saul, o rei que morreu, foi posto no trono por um general do antigo exército, um filho que se chamava Isbosete.
E a maior parte do país seguiu esse filho do Saul. Então o país rachou em dois. De um lado, o Davi, rei de Judá, lá no sul, do outro, o filho do Saul, rei do resto, no norte. E começou uma guerra longa entre os dois lados. Anos de briga. O texto diz uma coisa que resume tudo. A casa do Davi ia ficando cada vez mais forte. E a casa do Saul ia ficando cada vez mais fraca, devagar. Sem pressa. O tempo trabalhando a favor do Davi. E aqui vale parar num detalhe. O Davi não atacou o filho do Saul para tomar o trono dele à força. Ele não foi lá invadir o norte e derrubar o rival. Ele ficou no lugar dele, em Judá, cuidando do que era dele, e deixou o tempo agir.
Tinha gente do lado dele querendo apressar as coisas, querendo guerra total. Mas o Davi não tinha pressa de pegar pela força, o que ele sabia que ia chegar na hora certa. E aí as coisas no lado do norte foram desandando sozinhas. O general que tinha posto o Saul no trono brigou com ele e mudou de lado. Depois esse general foi morto. E por fim, o próprio filho do Saul, o Esbozete, foi morto por dois homens dele mesmo, dentro de casa. E olha de novo o tipo de homem que o Davi era. Esses dois homens que mataram o filho do Saul vieram correndo até o Davi. Trouxeram a notícia achando que iam ganhar recompensa.
Como quem diz? Olha, a gente eliminou o Saul, agora o trono é todo seu, mas o Davi não gostou. De novo, igual no episódio passado, ele não comemora a morte que cai no colo dele. Ele puniu esses homens, porque para ele conquistar o trono passando por cima da vida dos outros, com sangue e traiçoeiro, não era do jeito certo. O Davi queria o trono, mas não a qualquer preço. E foi só depois de tudo isso, com o caminho aberto limpo, que finalmente chegou o grande dia. Todas as tribos de Israel, o país inteiro, vieram até o Davi em Ebron. E elas disseram uma coisa bonita. Disseram, olha, nós somos do mesmo sangue que você.
E mesmo quando o Saul era rei, era você quem nos guiava nas batalhas. Foi você quem Deus escolheu para cuidar do povo. E ali, naquele dia, eles fizeram um acordo com o Davi. E ungiram rei, rei de Israel inteiro, não de um pedaço, do país todo. A promessa que tinha sido feita lá atrás, quando ele era só um menino pastor, finalmente aconteceu por completo. E o texto faz questão de marcar a idade. O Davi tinha 30 anos quando virou rei. E reinou por 40 anos. Eu fico pensando muito nessa história. E o que me pega é o tempo, porque o Davi foi escolhido para ser rei do garoto e só virou rei de tudo aos 30.
Foram muitos anos no meio do caminho, anos fugindo do Saul, anos de rei só de um pedacinho do país, anos de guerra contra o outro lado. A promessa era certa, mas ela demorou e demorou muito. E eu acho que isso fala com a gente, porque a gente quase sempre quer as coisas inteiras e de uma vez. A promessa, o sonho, a vitória, tudo agora, está completo. Mas a vida raramente entrega assim. Ela entrega os pedaços, um avanço aqui, uma espera ali, um pedaço hoje, o resto daqui a anos. E tem gente que desiste no meio. Quando recebe só o pedacinho, acha que aquilo é tudo que vai vir e larga. O Davi não largou.
Ele recebeu Judá, que era pouco, e cuidou bem daquele pouco. E foi ficando mais forte, devagar, até o dia chegar. Aqui vai uma coisa para hoje. Pensa numa coisa que você quer muito. Um sonho, uma meta, uma vida que você imagina para você. E repara. Provavelmente você já tem um pedacinho dela. Pequeno. Talvez tão pequeno que você nem repara. Ou até despreza. Hoje, em vez de olhar para tudo que ainda falta, olha para o pedaço que você já tem. E cuida bem desse pedaço. Faz ele crescer um pouquinho, o Davi não pulou de pastor para rei de tudo. Ele foi rei de Judá primeiro, cuidou de Judá.
E o resto veio. Você não precisa do trono inteiro hoje. Só precisa cuidar bem do pedaço que já chegou. O resto, como no tempo do Davi, costuma vir devagar. Para quem não larga no meio do caminho.