Imagina o dia mais feliz da sua vida. Você está dançando na rua, sem vergonha nenhuma, pulando, rodando, rindo na frente de todo mundo, e aí, no meio dessa alegria toda, alguém olha para você com cara de nojo e te critica, diz que você está ridículo, é isso que acontece no fim dessa história. Mas para chegar lá, primeiro preciso te contar de uma caixa. Uma caixa muito especial, deixa eu te contar. O Davi agora era rei de Israel inteiro, lembra do episódio passado. E ele queria fazer uma coisa importante para o povo, ele queria trazer de volta a Arca. E você deve estar pensando, que Arca, que caixa é essa? Então, a Arca era uma caixa de madeira, coberta de ouro, que o povo de Israel carregava desde o tempo do deserto, e ela não era uma caixa qualquer.
Para eles, aquela caixa era o sinal mais forte da presença de Deus no meio do povo, onde a Arca estava, era como se Deus estivesse perto com eles, era o objeto mais sagrado que existia, e essa Arca tinha ficado um tempão esquecida, parada na casa de um homem, longe do centro do país. O Davi quis trazer ela para Jerusalém, a cidade que ele tinha feito capital, para colocar Deus no coração do reino. Bonita intenção. Mas começou errado, o Davi juntou uma multidão, 30 mil homens, e foi buscar a Arca, e para transportar eles colocaram a caixa sagrada em cima de um carro novo, puxado por bois, e saíram pela estrada, com festa, música, cantoria, todo mundo tocando um instrumento, comemorando, mas tinha um problema.
Existia uma regra antiga, lá do tempo de Moisés, sobre como a Arca devia ser carregada, ela não devia ser posta num carro de bois, ela devia ser carregada no ombro, por homens, com umas varas próprias para isso, e ninguém podia tocar nela diretamente, nunca, e eles ignoraram isso. Puseram num carro, do jeito mais prático, mais rápido, e aí aconteceu uma coisa pesada, no meio do caminho, os bois tropessaram, e o carro balançou, a Arca quase caiu, e um homem que estava ali do lado, chamado Uza, fez o que qualquer um de nós faria por instinto, ele esticou a mão, e segurou a Arca para ela não cair no chão, e ouriu morreu, ali na hora, por ter tocado na Arca, eu sei, é difícil de ouvir isso, parece duro demais.
O homem só quis ajudar, mas pensa no que aquela cena estava dizendo, a Arca era o sagrado, era Deus no meio deles, e eles estavam tratando o sagrado como se fosse um móvel qualquer, jogado num carrinho, do jeito mais cômodo, tinham esquecido o respeito, e o instinto do usar de segurar a caixa, como se Deus precisasse da mão dele para não cair, mostrava esse esquecimento, o Davi ficou assustado, e com medo, ele pensou, como é que eu vou levar essa Arca na cidade agora, e ele parou tudo, não levou a Arca, deixou ela ali mesmo, na casa de um homem chamado Obediedon, no meio do caminho, e aí vem uma virada bonita, a Arca ficou 3 meses na casa desse homem, do Obediedon, e sabe o que aconteceu, a casa dele prosperou, tudo ali deu certo, foi como se a presença de Deus, em vez de assustar, abençoasse aquela família, e o Davi disse, e entendeu, a Arca não era uma ameaça, o problema antes tinha sido o jeito desrespeitoso, faltou cuidado, faltou reverência, então o Davi foi buscar a Arca de novo, mas dessa vez, do jeito certo, carregada no ombro, com respeito, com calma, e a cada poucos passos, eles paravam e faziam uma oferta a Deus, sem pressa, com cuidado, e foi nessa segunda viagem que aconteceu a cena mais grande, o Davi, o rei, dançou, dançou na frente da Arca com toda a força, pulando, rodando, sem se segurar, tirou as roupas pesadas de rei, e dançou vestido de um jeito simples, igual a qualquer um do povo, ele não tava nem aí pra aparência, tava só feliz, feliz de levar Deus pra perto do povo, e o povo inteiro veio junto, com gritos de alegria, com trombetas, com música, foi uma festa entrando em Jerusalém, e aí vem aquela cena do começo, a esposa do Davi, uma mulher chamada Mikau, que era a filha do antigo rei Sal, estava olhando da janela, e quando ela viu o rei, o marido dela, dançando daquele jeito no meio do povo simples, ela sentiu desprezo, achou aquilo indigno de um rei, e depois alfinetou ele, disse com ironia que bonito o rei de Israel hoje, se foi muito na frente das criadas, igual a qualquer um, e o Davi respondeu, ele disse mais ou menos, eu dansei pra Deus, foi diante dele que eu me alegrei, e se for pra aparecer pequeno por causa disso, eu vou ficar ainda menor, porque a minha alegria não tava na minha pose de rei, tava em Deus, eu fico pensando muito nessa história, e o que me pega são essas duas coisas juntas, o cuidado e a alegria, porque tem a primeira parte do Usa que fala de respeito, de não tratar o que é sagrado de um jeito, de ter cuidado, e tem a segunda parte, da dança, que fala de soltura total, de não ter vergonha de demonstrar alegria, e parece que essas duas coisas brigam, mas não brigam, o Davi tinha as duas, ele aprendeu a respeitar Deus de verdade, e justamente por isso, ele conseguia se alegrar com Deus de verdade, solto, sem pose, e amical que criticou, é o oposto, ela tava mais preocupada com a aparência, com o que era digno de um rei, tão preocupada em manter a pose, que perdeu a alegria, ficou de fora, na janela, olhando os outros dançarem, eu acho que isso fala com a gente, porque muita gente vive na janela, preocupada demais com o que vão pensar, com parecer certo, parecer digno, parecer no controle, e essa preocupação rouba a alegria, a gente fica olhando os outros viverem, sem se soltar nunca, aqui vai uma coisa pra hoje, pensa numa coisa que te dá alegria de verdade, que te dá vontade de pular, de cantar, de fazer uma bobagem feliz, e repara se você se segura, repara se tem uma voz dentro de você, igual a Mikau na janela, dizendo pega leve, não vão achar ridículo, controla esse entusiasmo, hoje, só por hoje, desobedece essa voz uma vez, numa coisa pequena, canta alto no chuveiro, dança sozinho na cozinha, demonstra um carinho sem medir mais, você não precisa fazer cena no meio da rua, igual ao Davi, só precisa parar de ficar na janela, controlando a sua própria alegria, porque a vida tem coisa sagrada e tem coisa pra celebrar, e o segredo, que o Davi sabia, é que dá pra ter respeito e ainda assim dançar como criança.