Davi chora por Saul e Jônatas · 2 Samuel 1:1–27

A Biblia · Temporada 6 · Episódio 1 de 9 — em ordem cronológica

Você choraria pela morte do seu pior inimigo? Hoje, vamos ver por que a lágrima mais difícil pode ser a mais transformadora.

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Transcrição

Imagina que você acabou de receber a pior notícia da sua vida. E que essa notícia vem misturada. Porque morreu uma pessoa que você amava de verdade. E morreu junto uma pessoa que passou anos te caçando querendo te matar. E você chora pelos dois. É exatamente isso que acontece nessa história. E o jeito como esse homem chora de estudo sobre quem ele era. Deixa eu te contar. Lembra onde a gente parou. O Saú era o rei de Israel. O primeiro rei do povo. E o Davi era o menino que tinha derrubado o gigante. Lembra? Aquele que virou o herói do povo. Mas o Saú ficou com ciúme do Davi. Um ciúme doente.

E começou a perseguir ele. Por anos o Davi teve que fugir. Se esconder em cavernas, no deserto, longe de casa. Tudo pra não ser morto pelo próprio rei. E olha que coisa estranha. No meio dessa perseguição toda. O melhor amigo do Davi era justamente o filho do Saúl. Um rapaz chamado Jonatas. Os dois eram amigos como irmãos. Jonatas até protegeu o Davi do pai mais de uma vez. Então você tem essa situação difícil. O Saúl, que queria matar o Davi. E o Jonatas, filho do Saúl, que era o amigo mais querido do Davi. Pai e filho. Um inimigo, um irmão de coração. E aí veio a guerra. O exército de Israel foi lutar contra os filisteus.

Os inimigos antigos. E foi uma derrota feia. O Saúl e os filhos dele morreram nessa batalha. O Jonatas, o amigo do Davi, morreu junto. E o Saúl, ferido, acabou tirando a própria vida para não cair nas mãos do inimigo. Num dia só, o Davi perdeu os dois. O homem que o caçava. E o amigo que ele amava. E é aqui que a história começa de verdade. O Davi estava num lugar chamado Ziklag, longe da batalha. E chega um rapaz correndo. As roupas rasgadas, terra na cabeça. Era jeito de quem trazia notícia ruim. O rapaz se joga no chão na frente do Davi. E conta, o povo fugiu da batalha. Muitos morreram.

E o rei Saúl morreu. E o filho dele, Jonatas, morreu também. O Davi pergunta como você sabe disso. E aí o rapaz tenta se aproveitar. Ele inventa uma história. Diz que foi ele mesmo quem deu fim no Saúl, achando que isso ia agradar o Davi. Como quem diz, olha, eu matei o seu inimigo, o homem que te perseguia. Me dá uma recompensa. Ele achou que o Davi ia comemorar. Mas o Davi não comemorou. Pelo contrário, o Davi rasgou as próprias roupas. E todos os homens que estavam com ele fizeram a mesma coisa. E eles choraram. E ficaram sem comer até a noite, de tristeza. Choraram pelo Saúl. Choraram pelo Jonatas.

Choraram pelo povo inteiro que tinha morrido na batalha. Reparam nisso. O Davi tinha todo o motivo do mundo para ficar aliviado. O homem que arruinou o anos da vida dele estava morto. Agora o caminho para o trono estava aberto. Qualquer um no lugar dele talvez soltasse fogos. Mas o Davi chorou e ele se vira para o rapaz que trouxe a notícia, aquele que se gabou de ter dado fim no rei. E o Davi pergunta, como você não teve medo de levantar a mão contra o rei? E o Davi mandou punilo, porque para ele, mexer com o rei de Israel era coisa séria, mesmo sendo o rei seu inimigo. E então o Davi fez uma coisa linda.

Ele compôs uma música, um lamento, uma canção de tristeza, para cantar pelo Saúl e pelo Jônatas, para que o povo inteiro aprendesse e nunca esquecesse aqueles dois. E nessa música tem uma frase que ficou famosa. O Davi canta, como caíram os poderosos, os fortes caíram no meio da batalha. Ele canta sobre o Saúl com respeito, sem falar mal, mesmo de quem tinha sido seu inimigo. O Davi só fala bem. E quando chega na parte do Jônatas, do amigo, a música molesse. O Davi canta, meu irmão Jônatas, eu sinto a sua falta. Você era muito querido para mim. O seu carinho por mim era uma coisa rara, mais forte até do que o amor comum.

É um homem chorando o amigo, com o coração aberto, sem vergonha de mostrar que estava doendo. E essa música não ficou só para ele. O Davi pediu que ela fosse ensinada ao povo de Judá, para que todos aprendessem, para que cantassem, para que ninguém esquecesse aqueles dois homens. Era o jeito do Davi de transformar a dor dele em algo que o povo inteiro pudesse carregar junto. A tristeza virou canção. E canção a gente sabe não morre fácil. Eu fico pensando muito nessa história. E o que me pega não é a batalha, é o choro, porque o Davi tinha duas pessoas para chorar. Uma que ele amava, e uma que o machucou muito.

E ele chorou pelas duas. Era fácil chorar pelo Jônatas, o amigo, mas chorar pelo Saú, pelo homem que tirou anos da sua paz, que te obrigou a viver fugindo. Isso é outra coisa. E o Davi conseguiu. Ele olhou para o Saú morto, e não viu só o inimigo. Ele viu o rei que o povo tinha amado. Viu o homem que um dia foi escolhido por Deus. Viu uma vida que acabou triste. E aquilo doeu nele. Eu acho que isso fala com a gente mais do que parece. Porque é muito fácil comemorar quando algo ruim acontece com alguém que nos machucou. A gente sente até um alívio. Quase uma vingancinha silenciosa.

Mas tem uma grandeza estranha em conseguir sentir tristeza pela queda de alguém. Mesmo de alguém que foi duro com você. Não é fraqueza. É o contrário. É uma força que pouca gente tem. O Davi não fingiu que gostava do Saú. Ele não era falso. Mas ele também não pisou em cima de quem já tinha caído. Ele tratou a morte do inimigo com respeito. Não confesta. Aqui vai uma coisa para hoje. Pensa em alguém que te machucou. Alguém que foi injusto com você. Que te causou dor de verdade. Agora imagina que algo ruim aconteceu com essa pessoa. Repara, só por um instante, no que cresce dentro de você.

É alívio. É aquela vontade de dizer bem feito. É humano sentir isso. Não precisa ter culpa. Mas hoje, só por hoje, tenta uma coisa diferente. Tenta enxergar essa pessoa por inteiro. Não só a parte que te machucou. Tenta lembrar que ela também é gente. Que talvez também esteja perdida. Ou sofrendo do jeito dela. Você não precisa virar amigo de ninguém. Não precisa fingir carinho que não existe. Só repara na diferença entre comemorar a queda de alguém. E conseguir no fundo desejar que ninguém precise cair assim. Às vezes a coisa mais forte que existe é chorar por quem a gente tinha todo direito de odiar.