Essa é uma história difícil, eu vou te contar ela inteira, do jeito que ela é, sem sua avisar, porque é a história de um homem bom que faz uma coisa terrível, e depois faz uma coisa ainda pior pra esconder a primeira. E é o herói da história quem faz isso. O Davi, eu te conto, com honestidade, lembra do Davi, o menino que derrubou o gigante, o rei que dançou de alegria, o homem que chorou pelos inimigos. Esse mesmo Davi é o personagem dessa história, e é importante segurar isso na cabeça, porque o que vem agora não foi feito por um vilão, foi feito por alguém que a gente admira, e talvez seja isso o que mais incomoda.
A história começa numa entrelinha, o texto diz na época do ano em que os reis costumam ir pra guerra, o Davi mandou o exército, mas ele mesmo ficou em casa. E para nesse detalhe, era a época de guerra, o lugar do rei era com o exército, mas o Davi ficou, acomodado, sem nada pra fazer, e gente sem nada pra fazer às vezes arruma o que não devia. E numa tarde, o Davi se levantou e foi andar no terraço do palácio. O palácio era alto, então de lá ele via os telhados das casas em volta, e ele viu uma mulher tomando banho. E ela era muito bonita, o nome dela era Batesseba, e ela era casada.
O marido dela, um homem chamado Urias, era um dos soldados do Davi. Estava na guerra, naquele momento lutando pelo rei, e o Davi mandou buscar ela, mandou trazer ela até o palácio, e dormiu com ela, vou ser honesto sobre uma coisa aqui. O Davi era o rei, o homem mais poderoso do país, e ela a esposa de um soldado. Quando o rei manda buscar você, não é bem um convite. É difícil dizer não a quem tem todo o poder, então isso não foi um romance entre iguais. Foi um homem poderoso usando o poder dele pra ter o que queria. Isso pesa, e depois disso, ela mandou um recado pro Davi. Um recado curto, de duas palavras, que mudou tudo.
Ela disse "estou grávida", e aí começa a parte que é, de certo modo ainda pior do que a primeira, porque agora o Davi tem um problema. O marido dela está na guerra, longe, há tempos. Todo mundo vai saber que aquele filho não é dele, e o Davi entra em pânico de ser descoberto. E em vez de assumir o que fez, ele começa a tramar pra esconder, primeiro plano. Ele manda chamar o Urias, o marido, de volta da guerra, conversa com ele, finge interesse, e manda ele ir pra casa descansar ver a esposa. A ideia do Davi era que o Urias dormisse com a própria esposa pra todo mundo achar que o filho era dele, mas o Urias era um homem íntegro, e ele não foi pra casa.
Ele dormiu na porta do palácio, junto com os outros soldados. E quando o Davi perguntou por que, o Urias respondeu uma coisa que, sem querer, foi um soco no Davi. Ele disse, como é que eu vou pra casa, deitar na minha cama, ficar com a minha esposa, enquanto os meus companheiros estão dormindo no campo de batalha. Eu não consigo fazer isso, pensa na ironia. O soldado simples tem mais honra do que o rei. O Urias se recusa a aproveitar um conforto que os companheiros dele não têm. Enquanto o rei, em casa, tinha aproveitado a esposa de um companheiro, o Davi tenta de novo. No dia seguinte ele embebeda o Urias, achando que bêbado ele vai amolecer e ir pra casa.
Mas nem bêbado o Urias vai. De novo ele dorme com os soldados, e aí o Davi faz a coisa mais sombria de toda a história. Ele escreve uma carta pro general do exército e manda o próprio Urias entregar essa carta. O Urias carrega, sem saber, a própria sentença de morte, porque na carta o Davi mandou que posessem o Urias na linha de frente da batalha mais perigosa, e que na hora mais quente da luta, todos recuassem e deixassem ele sozinho, pra ele morrer. E foi o que aconteceu. O Urias morreu em combate, abandonado. Por ordem do rei que ele servia com lealdade, o Davi tirou a vida de um homem honesto pra encobrir o que tinha feito com a esposa dele, não com as próprias mãos, mas planejou tudo.
É assassinato. E quando o luto da Batesseba acabou, o Davi atrou-se pro palácio e a fez esposa dele. Por fora, parecia tudo resolvido. O rei se casou com uma viúva. Nasceu um filho. Ninguém viu nada. Mas o texto diz uma frase pequena e terrível, o que o Davi tinha feito desagradou a Deus. Por fora, escondido, por dentro, não. E aí entra de novo o profeta Natan, lembra dele do episódio passado, aquele que falava em nome de Deus, e o Natan faz uma coisa genial, ele não acusa o Davi de cara, ele conta uma historinha, diz rei, tinha um homem rico, com muitos rebanhos, e tinha um homem pobre, que só tinha uma ovelhinha, uma só, que ele criava como filha, que comia da comida dele, que dormia no colo dele, e um dia chegou uma visita na casa do rico, e o rico em vez de pegar uma ovelha do próprio rebanho enorme, foi lá e tomou a única ovelhinha do pobre, e serviu pra visita.
E o Davi, ouvindo isso ferve de raiva, ele diz, esse homem merece morrer, como alguém faz uma maldade dessas, e o Natan olha pra ele, e diz quatro palavras, o homem é você, o Davi tava julgando a si mesmo sem perceber, a ovelha do pobre era Batesseba, o homem rico cheio de tudo, que tomou o que não era dele, era o Davi, e aqui é onde a história vira de novo, porque o Davi, nesse momento, podia ter mandado matar o profeta, podia ter negado tudo, era o rei que tinha poder pra isso, mas ele não negou, ele baixou a cabeça e disse uma frase só, pequei contra Deus, a sem desculpa, sem culpar a Batesseba, sem culpar a situação, sem dizer que foi a guerra ou a tentação, só, eu errei, foi comigo, e olha isso não apagou o que ele fez, as consequências vieram, e foram pesadas, o primeiro filho que nasceu da Batesseba adoeceu e morreu, e o Davi viveu um luto profundo, a vida da família dele e daquele ponto em diante foi marcada por tragédias, o texto não esconde isso, não foi um perdãozinho fácil que apagou tudo como se nada tivesse acontecido, mas o arrependimento foi real, foi inteiro, e mais pra frente a Batesseba teve outro filho com o Davi, e esse filho se chamou Salomão, e esse menino ia se tornar o rei mais sábio que Israel já teve, eu fico muito tempo pensando nessa história, e não tenho uma liçãozinha bonitinha pra te entregar, porque não tem, o que me pega é que a Bíblia conta isso, é o pior dia do herói dela, sem maquiar, o homem que ela mais elogia é o mesmo que ela mostra cometendo adultério, e mandando matar um inocente, ela não esconde, não defende o Davi, não diz que ele tinha razão, e tem uma honestidade nisso que é rara, porque a gente em geral conta a própria história limpando as partes feias, a gente é o herói da nossa versão, os erros viram fui obrigado, não tive escolha, a culpa foi das circunstâncias, e o Davi no fim faz o contrário, quando o dedo aponta pra ele ele não escorrega, ele não diz é mais, ele diz só fui eu, e talvez seja isso a coisa mais difícil que existe, não é nem não errar, errar todo mundo erra, e às vezes erra feio, o difícil é depois parar de fugir, parar de construir desculpa em cima de desculpa, igual o Davi fez no começo, quando tentou esconder e esconder, e a coisa só piorava, repara no caminho dele, cada tentativa de encobrir o primeiro erro gerou um erro maior, o adultério levou a mentira, a mentira levou ao assassinato, a bola de neve, até que ele parou, e a única coisa que parou a bola de neve não foi um plano mais esperto, foi assumir, aqui vai uma coisa pra hoje, e é uma coisa séria, pra você levar com calma, pensa numa coisa que você fez e que você sabe, lá no fundo, que não foi certo, uma coisa que você talvez venha escondendo, de alguém, ou até de você mesmo, que você vem cobrindo com desculpas, eu fiz porque qualquer um faria, não foi tão grave assim, não precisa resolver isso hoje, não precisa contar pra ninguém agora, se não for a hora, mas faz uma coisa, sozinho, em silêncio, tira só por um instante, todas as desculpas, todos os mais e os porque, e deixa a frase nua, como o Davi deixou, só fui eu, eu fiz isso, é desconfortável, eu sei, doi um pouco, mas tem uma coisa estranha que acontece quando a gente para de fugir e olha de frente, a bola de neve para de rolar, e aí, e só aí, alguma coisa de verdade pode começar a mudar, porque o que destruiu o Davi não foi ter caído, foi tudo o que ele fez pra esconder a queda, e o que salvou ele, no fim, não foi nunca ter caído, foi parar de correr dizer a verdade.