A revolta de Absalão — o filho contra o pai · 2 Samuel 13:1–19:43

A Biblia · Temporada 6 · Episódio 6 de 9 — em ordem cronológica

Seu filho levantou um exército para te matar. Ainda assim, você arriscaria tudo para salvá-lo?

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Transcrição

Imagina um pai que ama muito filho, e esse mesmo filho, um dia, levanta um exército pra tirar o pai do trono, pra matar o próprio pai. E mesmo assim, no fim de tudo, o que esse pai mais quer não é vencer, é que o menino dele esteja vivo. Essa história é triste, é uma das mais tristes da Bíblia inteira, mas ela fala muito sobre como uma coisa pequena, deixada sem cuidado, vai crescendo, crescendo, até virar um desastre. Deixa eu te contar, o reino àquela época era o Davi, o mesmo Davi do gigante, lembra, o menino que venceu golias com uma pedra, agora ele era um rei velho, poderoso dono de um reino grande, mas o Davi tinha uma família enorme, muitos filhos, de mulheres diferentes, e numa família grande assim, as brigas também eram grandes, e começou com uma coisa horrível.

O Davi tinha um filho chamado Amnom, e uma filha chamada Tamar, eram irmãos por parte de pai, e o Amnom fez uma maldade muito grave com a irmã, a Tamar, machucou ela, humilhou ela, e a Tamar tinha um outro irmão, que amava ela de verdade, o nome dele era Abyssalão, onde ele era Abyssalão, guarda esse nome, Abyssalão, porque a história toda gira em volta dele, o Abyssalão ficou com um ódio enorme do Amnom, por causa do que ele fez com a irmã, e ele esperou, esperou dois anos inteiros, escondendo a raiva por dentro, e aí num dia de festa, o Abyssalão mandou matar o Amnom, matou o próprio meio irmão, pra vingar a irmã, e depois fugiu, porque tinha medo do que o pai ia fazer, olha o que já aconteceu nessa família, uma maldade, depois uma vingança, depois uma morte, e um filho fugido, longe de casa, e o Davi, o pai, ficou no meio disso tudo, de um lado tinha perdido um filho, o Amnom, morto, do outro tinha o Abyssalão, sumido, e o Davi sentia uma falta enorme do Abyssalão, mas não ia buscar ele, ficou anos assim, sentindo falta, mas sem fazer as pazes de verdade, e essa é a primeira coisa importante, o Davi não resolveu, ele deixou a ferida aberta, não puniu direito o que o Amnom fez, depois não conversou direito com o Abyssalão, foi empurrando com a barriga, e feridas que a gente não cuida, não somem, elas infeccionam, depois de um tempo o Abyssalão voltou pra cidade, mas o Davi não quis ver ele, por dois anos pai e filho moravam na mesma cidade e não se falavam, e aí quando finalmente fizeram as pazes já era tarde, por dentro o Abyssalão já tinha virado outra pessoa, a Magua tinha virado ambição, ele não queria mais só o perdão do pai, ele queria o lugar do pai, queria ser rei, e o Abyssalão era esperto, muito esperto, ele começou um plano devagar, todo dia de manhã, ele ia pra porta da cidade, onde as pessoas chegavam com seus problemas pra pedir justiça do rei, e o Abyssalão chegava perto de cada um, era bonito, simpático, charmoso, abraçava as pessoas, beijava as pessoas, e dizia "olha, o seu problema é justo, mas o rei não tem tempo pra você, ah se eu fosse juiz nessa terra, eu resolveria tudo pra você, dia após dia, pessoa após pessoa".

O texto diz uma coisa forte, diz que o Abyssalão roubava o coração do povo, roubava, aos poucos conjeitinho ele foi virando o querido de todo mundo, e foi tirando o amor do povo pelo próprio pai dele, quando ele já tinha gente suficiente do lado dele, ele agiu, saiu da cidade com uma desculpa, juntou os apoiadores, e se declarou rei, levantou uma revolta contra o pai, e a notícia chegou ao Davi, veio um mensageiro correndo, o coração do povo todo agora está com o Abyssalão, e olha o que o grande rei Davi fez, aquele que venceu gigante, que ganhou tantas guerras, ele fugiu, fugiu da própria cidade, pra não ver Jerusalém virar um campo de sangue, saiu a pé chorando, com os pés descobertos e a cabeça coberta, subindo um monte, e o povo que ainda estava com ele subia chorando junto, pensa nessa cena, o rei mais poderoso da terra, fugindo da própria casa, não de um inimigo de fora, mas do próprio filho, e enquanto o Davi fugia, teve gente que aproveitou pra humilhar ele, um homem ficou jogando pedra no rei, e xingando ele pelo caminho, e os soldados do Davi quis eram matar esse homem, mas o Davi falou, deixa, deixa ele falar, era um rei que sabia carregar a dor sem revidar, e aí veio a parte mais dura, os dois exércitos se enfrentaram numa floresta, de um lado os homens do Davi, do outro os homens do Absalão, e antes da batalha, o Davi reuniu os comandantes dele, e deu uma ordem que confundiu todo mundo, ele disse na frente de todos, por favor, tratem com cuidado o jovem Absalão, por amor a mim, pensa nisso, o filho estava ali pra matar ele, e o pai pediu pros soldados, cuidem do meu menino, a batalha aconteceu, e os homens do Davi venceram, o exército do Absalão foi derrotado e se espalhou pela floresta, e o Absalão fugiu, montado numa mula, mas o Absalão tinha um cabelo enorme, famoso, do qual ele se orgulhava muito, e enquanto ele fugia debaixo das árvores, o cabelo dele ficou preso nos galhos de um carvalho grande, a mula seguiu correndo, e ele ficou ali pendurado, preso pela própria cabeça, no meio do ar, e um dos comandantes do Davi, um homem chamado Joab, achou ele assim pendurado, e mesmo sabendo da ordem do rei, mesmo sabendo que o Davi tinha pedido pra poupar em um menino, o Joab matou o Absalão ali, a revolta acabou, a guerra estava ganha, o reino estava salvo, mas faltava contar pro Davi, e o Davi estava sentado na porta da cidade, esperando notícias, e o que ele perguntava pro mensageiro, não era se tinha ganhado, ele perguntava uma coisa só, de novo e de novo, o jovem Absalão está bem, está em paz, e quando ele entendeu, pela cara do mensageiro, o que tinha acontecido, o Davi se desmontou, e ele subiu pra um quartinho em cima do portão, e foi chorando o caminho todo, e dizia uma frase que ecoa até hoje, ele dizia meu filho Absalão, meu filho meu filho Absalão, quem me dera ter morrido no teu lugar, Absalão meu filho meu filho, o rei tinha vencido a guerra, e estava destruído, porque pra ele não era uma vitória, era a morte do filho dele, e eu fico pensando muito nessa história, o que mais me pega não é a batalha, é como tudo isso começou pequeno, uma maldade não resolvida, uma conversa que o pai não teve, um perdão que veio tarde demais, uma mágoa guardada por anos sem ninguém cuidar dela, nada disso explodiu de uma vez, foi crescendo, aos poucos, como aquele cabelo do Absalão, que foi crescendo até virar a armadilha que prendeu ele, e acho que isso fala com a gente, porque a gente também tem o costume de empurrar as coisas com a barriga, uma conversa difícil que a gente adia, um pedido de desculpas que a gente não faz, uma mágoa pequena que a gente prefere não olhar, e a gente pensa "ah, isso some sozinho", mas raramente some, quase sempre, o que a gente não cuida hoje cresce, e volta maior amanhã, aqui vai uma coisa pra hoje, pensa numa conversa que você tá adiando, uma coisa pequena que ficou mal resolvida com alguém, um pedido de desculpa, um abraço, um telefonema, uma palavra que você sabe que precisa dizer, mas vai empurrando, e repara só hoje no tamanho que essa coisa tinha quando começou, e no tamanho que ela tem agora, depois de tanto tempo guardada, você não precisa resolver tudo hoje, mas talvez dê pra dar o primeiro passo pequeno, mandar uma mensagem, ligar, dizer uma frase, que o Davi descobriu, do jeito mais doloroso, que o melhor momento de cuidar de uma ferida é quando ela ainda é pequena, antes que ela cresça tanto que a gente não consiga mais alcançar.