No meio de um monte de leis antigas perdida entre regras sobre colheita e sobre comércio, tem uma frase pequena, cinco palavras. E essa frase ficou tão famosa que o mundo inteiro repete até hoje. Muita gente sem nem saber de onde ela veio. A frase é essa. Ame o seu próximo como a si mesmo. E ela nasceu aqui, no livro mais cheio de regras de toda a Bíblia. Deixa eu te contar como. O povo de Israel tinha recebido um monte de instruções sobre ofertas, sobre o que comer, sobre como chegar perto de Deus. E aí vem uma parte que tem um nome bonito, o Código de Santidade. Santo é a palavra do dia.
E ela é mais simples do que parece. Santo não quer dizer perfeito, nem certinho, nem careta. Santo quer dizer separado para uma coisa boa. Diferente, marcado por um jeito próprio de viver. E o coração de toda essa parte é uma frase que Deus repete várias vezes, como um refrão de música. Sejam santos. Porque eu sou santo, repara no que isso quer dizer. É como Deus falando, eu tenho um jeito de ser, um jeito bom, justo, cuidadoso. E eu quero que vocês se pareçam comigo nisso. Quero que o jeito de vocês viverem mostre de onde vocês vêm, como um filho que puxa um jeito do pai. Não porque foi obrigado, mas porque cresceu vendo e foi ficando parecido.
E aí o texto começa a mostrar o que é esse jeito santo na prática. E é aqui que a coisa fica surpreendente. Porque você esperaria regras sobre reza, sobre ritual. Mas a maioria fala de uma coisa só, como você trata as pessoas. Deixa eu te dar alguns exemplos, porque são lindos e muito concretos. Tenha uma lei sobre a colheita. Ela diz, quando você colher o seu campo, não colhe até o último cantinho. Não passe duas vezes recolhendo cada grão. Deixe um pedaço da beirada sem colher. Deixe o que caiu no chão. Por quê? A lei explica. Para que o pobre ou o estrangeiro, aquele que não tem terra, possa entrar ali e recolher para comer.
Pensa na sabedoria disso. Não era esmola, não era dar de mão beijada. Era deixar um espaço para o outro ter dignidade. A pessoa entrava no campo e colia com as próprias mãos o seu alimento. Saía de cabeça erguida. O jeito santo de viver começava com deixar um pedaço da sua fartura para quem não tem. Tem outra lei sobre o trabalhador. Ela diz, se você contratou alguém para um dia de trabalho, pague no mesmo dia. Não segure o pagamento dele para amanhã. Por quê? Porque aquela pessoa precisa do dinheiro para comer hoje à noite. Segurar o pagamento é fácil para você e é fome para ela.
O jeito santo enxerga isso. Enxerga a noite de fome do outro. Tem uma sobre o surdo e o cego. Ela diz, não amaldiçoe o surdo e não ponha um obstáculo na frente do cego. Pensa nisso. O surdo não vai te ouvir xingando ele. O cego não vai ver quem botou a pedra no caminho dele. Quer dizer, são leis sobre o que você faz com os fracos quando ninguém está vendo, quando você sabe que não vai ser pego. E é justamente aí, no escondido, que aparece quem você é de verdade. Tem uma sobre o idoso. Levante-se diante do cabelo branco. Honre o velho. Num mundo que joga o idoso para escanteio, essa é radical até hoje.
E tem uma sobre o estrangeiro, que talvez seja mais tocante. A lei diz, o estrangeiro que mora com vocês, tratem ele como um dos seus. Amem ele como amam a vocês mesmos. E aí vem o motivo. E é de arrepiar. Porque vocês também já foram estrangeiros, lá no Egito. Quer dizer, lembrem de como foi sofrer sendo de fora. E não façam com ninguém o que fizeram com vocês. Usem a própria dor como uma bússola para não machucar o outro. E é no meio de tudo isso, dessas leis bem concretas sobre colheita e pagamento e cuidado, que aparece a frase que resume tudo, como um título de tudo que veio antes.
Ame o seu próximo como a si mesmo. E é aqui que eu paro para pensar. Porque a gente costuma achar que ser uma pessoa boa, ser uma pessoa santa, é uma coisa que acontece na igreja no momento de reza, lá no alto. Uma coisa espiritual, distante da vida. E esse texto antigo vira tudo de cabeça para baixo. Ele diz não. O seu jeito de ser santo aparece na hora de pagar o pedreiro, na hora de tratar o entregador. No quanto você deixa pro outro quando podia ficar com tudo. No jeito que você trata quem não pode te dar nada em troca. A coisa sagrada não está só no céu. Ela está em como você olha pra pessoa na sua frente.
E aquela frase, ame o próximo como a si mesmo, tem um detalhe que muita gente passa batido. Como a si mesmo. Quer dizer que tem um amor por você embutido ali. Você não consegue cuidar bem do outro se você se trata como lixo. O amor pelo próximo e o cuidado consigo mesmo são a mesma medida. Cressem juntos. Aqui vai uma coisa pra hoje. Pense em alguém que entra na sua vida e não pode te dar nada em troca. O entregador. A pessoa que limpa. O atendente cansado no fim do expediente. Alguém que você normalmente nem repara direito. E hoje com essa pessoa faça uma coisa pequena que mostra que você a enxerga como gente inteira.
Olhe nos olhos. Diga obrigado de verdade com o nome se souber. Tenha uma paciência que você normalmente não teria. Deixe um pedaço da sua colheita. Do seu tempo, da sua gentileza. Pra quem não tinha como cobrar isso de você. Ninguém vai ficar sabendo. Não precisa que ninguém saiba. Porque é exatamente aí. No gesto pequeno com quem não pode te retribuir. Que mora aquela coisa antiga e enorme. O jeito de viver que faz da gente um pouco parecido com aquilo de melhor que existe.