O Dia da Expiação — o grande perdão · Levítico 16:1–34

A Biblia · Temporada 3 · Episódio 4 de 19 — em ordem cronológica

Imagine um dia em que a culpa de um povo inteiro é descarregada num bode. Esse animal some no deserto, levando embora o peso de um ano de erros.

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Transcrição

tem um dia, uma vez por ano, em que um povo inteiro para tudo, ninguém trabalha, ninguém come, todo mundo fica quieto. E acontece um ritual estranho, com dois bodes, que termina com o animal sendo solto sozinho no deserto. E esse era o dia mais importante do ano inteiro para eles. O dia do grande perdão. Deixa eu te contar, porque tem aqui uma das imagens mais bonitas e mais humanas da Bíblia inteira. O povo de Israel tinha aprendido sobre as ofertas, sobre os erros, sobre o que separa a gente de Deus. E foi se juntando uma percepção, por mais que a pessoa trouxesse oferta atrás de oferta, ia sobrando uma coisa, um acúmulo, uma sensação de que no fundo sempre tinha algo errado que ficou sem resolver.

Pensa numa casa. Você limpa todo dia, mas mesmo limpando, vai juntando um pó nos cantos, uma coisa atrás do armário, uma sujeira que a faxina do dia a dia não pega. E aí de vez em quando, você precisa de uma faxina geral, daquelas que mexe tudo. O dia da expiação era a faxina geral do povo, uma vez por ano. Expiação é a palavra do dia, então deixa eu explicar antes de tudo. Expiação quer dizer acertar as contas, limpar a culpa, tirar de cima o peso de tudo que ficou errado e deixar a relação limpa de novo. É a palavra para esse desejo enorme que todo ser humano tem. Começar de novo, com a ficha zerada.

E nesse dia, quem entrava em ação era o sacerdote-chefe. Naquela época, o Arão, ele fazia uma coisa que ninguém mais podia fazer no ano inteiro. Ele entrava no lugar mais sagrado da tenda, o cômodo do fundo, separado por uma cortina, onde a presença de Deus ficava. O lugar tão sagrado que entrar ali era coisa séria demais. Ele não entrava de qualquer jeito. Tirava as roupas bonitas de sacerdote-chefe e vestia a roupa branca simples, de linho, como quem se faz pequeno, como quem diz, hoje eu não venho com pompa. Venho humilde, em nome de todo mundo, e aí vem a parte mais marcante. A parte dos dois bodes traziam dois bodes, parecidos, e faziam um sorteio entre eles.

Um bode ia ser oferecido ali, o outro tinha um destino diferente, e é esse que eu quero que você guarde. Com o segundo bode, o sacerdote fazia um gesto. Ele colocava as duas mãos na cabeça do animal, e ali, com as mãos sobre ele, ele falava em voz alta todos os erros do povo, tudo de errado que tinham feito no ano, como quem descarrega, como quem transfere o peso das costas de todo mundo pra cima daquele bicho. E depois, esse bode era levado pra longe, solto no deserto, pra um lugar onde ninguém ia, levando, simbolicamente, todos os erros do povo pra bem longe, pra nunca mais voltar. Esse bode tinha até um nome, ficou conhecido como bode emissário, o que é mandado embora.

E é daí, dessa história antiga, que vem uma expressão que a gente usa até hoje, bode espiatório, aquele que carrega a culpa dos outros, pra um si, e olha a beleza dessa imagem. Porque o que aquele povo estava fazendo era dar forma a uma coisa que não tem forma, a culpa. Esse peso invisível que a gente carrega e não consegue largar, eles pegavam aquele peso invisível e colocavam num animal que você podia ver com os olhos. E aí, você via, com os seus próprios olhos, esse peso indo embora, sumindo no horizonte do deserto, saindo da sua vida. Tensem como isso é genial pra um ser humano.

Porque o nosso problema com a culpa raramente é Deus não perdoar. O nosso problema é a gente não conseguir sentir que foi perdoado. A gente continua carregando, continua remoendo a mesma coisa que já passou. A culpa fica colada, mesmo quando tudo já foi resolvido. E esse dia dava uma imagem pra soltar. Olha, ali vai. Ali vai todo o peso indo embora, pro deserto. Não está mais com você. Acabou. Pode respirar. E é aqui que eu paro pra pensar. Porque todo mundo carrega alguma coisa. Todo mundo tem um canto da memória com uma coisa que fez, ou que deixou de fazer, e que ainda dói lembrar.

Uma palavra que não devia ter dito. Uma pessoa que magoou. Um erro que volta de madrugada. E o mais difícil quase nunca é pedir perdão. O mais difícil é se permitir largar. Aceitar que aquilo pode ir embora. Que você não precisa ficar pagando pra sempre por uma coisa que já passou. Esse dia, no fundo, era sobre isso. Era um povo inteiro aprendendo. Uma vez por ano a soltar o que estava pesando. A acreditar que dá pra recomeçar limpo. Que a ficha pode zerar de verdade. E tem uma coisa que me toca muito. Esse perdão não era pra uma pessoa só. Era pra todo mundo. Ao mesmo tempo. Era o povo inteiro recomeçando junto.

Ninguém ficava de fora. Era um dia que dizia. Não importa o quão pesado foi o seu ano. Hoje você pode soltar. Aqui vai uma coisa pra hoje. Pensa numa culpa que você ainda carrega. Uma coisa que já passou. Que talvez você já tenha pedido de desculpa. Talvez já tenha feito as pazes. Mas que mesmo assim continua pesando dentro de você. E hoje, faça uma coisa simples, mas de verdade. Deu um nome pra essa culpa. Em voz baixa. Só pra você. Reconheça que ela existe. E depois, conscientemente, imagine ela indo embora. Como aquele bode no deserto. Sumindo no horizonte. Você não precisa fingir que nunca aconteceu.

Só precisa parar de carregar. Porque a culpa que você já reconheceu. Que você já tentou consertar. Ela não precisa mais ficar morando dentro de você. Ela pode ir pro deserto. E você pode finalmente respirar.