A noite sob a Bodhi

Budismo · Temporada 1 · Episódio 7 de 8 — em ordem cronológica

Em uma única noite, um homem confrontou seus maiores demônios sob uma figueira. Não eram monstros, mas sim a resistência da própria mente.

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Transcrição

Na madrugada de um dia de maio, um homem de 35 anos sentou debaixo de uma árvore e fez uma promessa pra si mesmo. Posso ficar aqui até os ossos se dissolverem. Mas não me levanto. Quando o sol nasceu, ele havia encontrado o que estava buscando há seis anos. O que aconteceu nessa noite é o coração de tudo que vem depois. Era plena lua de maio. Siddhartha havia comido, havia descansado, havia recuperado as forças depois de anos de ascetismo extremo e foi se sentar sob uma figueira às margens do rio Neranjara. Aquela árvore ficaria conhecida pra sempre como a árvore Bodhi, a árvore do despertar.

Siddhartha se sentou e começou. No início era apenas meditação profunda, familiar, o tipo de estado que ele já havia alcançado com os grandes mestres. Mas então veio Mara. Nos textos budistas, Mara é descrito como um demônio, um ser que governava o ciclo do sofrimento e temia que Siddhartha despertasse e libertasse os seres desse ciclo, mas a outra leitura. E eu acho mais verdadeira. Mara é a própria mente em sua resistência ao despertar. É a voz que sabota quando você está prestes a mudar de verdade. É o medo que aparece quando você está mais perto do que nunca. É o conforto do familiar puxando você de volta quando a clareza começa a chegar.

Todos conhecemos Mara. Só não sabíamos o nome. Mara chegou primeiro com o exército. Visões de terror, criaturas, tempestades. Os textos dizem que as flechas disparadas em direção a Siddhartha se transformavam em flores ao se aproximar. Siddhartha não lutou, não fugiu, não negociou, apenas permaneceu. Depois Mara tentou de outro jeito. A sedução. As três filhas, chamadas desejo, aversão e paixão, vieram para despertar nele o suficiente de vontade mundana para tirá-lo do estado que estava alcançando. Siddhartha as viu e viu que elas eram não inimigas, não forças externas, padrões da própria mente surgindo, passando, como tudo e permaneceu.

Por fim, Mara tentou a dúvida. Quem você pensa que é? Que direito tem de despertar? Que testemunha existe da sua virtude? E Siddhartha em silêncio abaixou a mão direita e tocou a terra. A terra é minha testemunha. E Mara se foi, então vieram os três conhecimentos. Na primeira vigília da noite até a meia-noite, ele viu a continuidade de existência, como padrões de pensamento e comportamento se repetem, como carregamos nossas histórias conosco sem perceber como o que somos hoje é feito de tudo o que pensamos, falamos e fizemos antes. Na segunda vigília da meia-noite ao alvorecer, ele viu como seres surgem e passam de acordo com suas ações.

O que os textos chamam de karma, não punição divina, não destino fixo, mas consequência natural. Isso usa e é feito na dimensão mais profundamente. Na terceira vigília do alvorecer ao nascer do sol, ele viu as quatro nobres verdades, a existência do sofrimento, a origem do sofrimento, a possibilidade do fim do sofrimento, o caminho para além do sofrimento, quando o sol nasceu sobre o rio Neranjara. Siddhartha Gautama não era mais Siddhartha Gautama, era o Buda, o Desperto. Ele ficou sob a árvore por sete dias, sem se mover, sem falar, apenas saboreando o que havia encontrado, antes de qualquer palavra, antes de qualquer ensinamento, antes de qualquer discípulo, apenas estando com o que era.

O despertar de Siddhartha não é sobre magia, não é sobre poderes e sobre naturais, não é sobre se tornar um ser de luz, não é sobre escapar do mundo, é sobre ver a realidade como ela é, sem as camadas de história que a mente coloca sobre ela, sem o filtro do desejo que diz "eu quero que isso seja diferente", sem o filtro da aversão que diz "eu não quero que isso seja assim", ver, claramente, o que é, e a tradição diz algo que eu acho importante repetir com cuidado. Esse estado não é exclusivo de Siddhartha, em graus diferentes para diferentes pessoas, em diferentes momentos da vida, a possibilidade de ver com mais clareza é sempre acessível, não na próxima vida, não depois de décadas no mosteiro.

Agora, hoje, reserve cinco min para simplesmente sentar, não meditar com técnica, não tentar esvaziar a mente, apenas sentar, respirar e observar o que surge, pensamentos, sensações, sons, sem tentar mudar nada, sem julgar o que aparece, só ver.